domingo, 15 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim demagógico da escala 6x1 terá preço alto

Por O Globo

Custo da hora trabalhada subiria entre 8% e 18%. Desemprego e informalidade cresceriam

De olho nos dividendos eleitorais, governo e Congresso apostam na redução da jornada de trabalho. A ideia é acabar com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1. Na última segunda-feira, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) duas Propostas de Emenda à Constituição. As duas reduzem as horas de trabalho mantendo intocado o salário. Basta matemática elementar para entender que isso significará menos produtividade, portanto menos geração de riqueza na economia.

Interesses cruzados, por Merval Pereira

O Globo

Porque Toffoli chamou a si e colocou o máximo de sigilo em todo o processo do Master? Porque queria esconder suas relações com Vorcaro

Os trechos publicados pelo site Poder 360 revelando parte das discussões havidas na reunião supostamente secreta dos 10 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que resultou na saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master revelam um espírito de corpo que não condiz com o papel institucional que o órgão representa. Afirmar como ponto de vista da instituição que Toffoli não tinha por que declarar-se impedido, mesmo diante do relatório da Polícia Federal que mostrou no mínimo um conflito de interesses na relação do ministro com o réu, é superar em muito a interpretação da lei.

A traição implícita na gravação da reunião já mostra que o Supremo passa por uma crise interna grave, e não é com posições extremadas como as do ministro Flavio Dino, que só vê suspeição em casos de pedofilia e diz que seu time é “STF Futebol Clube”, que vai ser resolvida. Ministros alegam que os elogios e a lealdade dedicadas a Toffoli foi uma maneira de induzi-lo a aceitar se afastar do caso, mas será preciso que se alterem regras e procedimentos para que o espírito de corpo exibido se transforme em espírito cívico, esse sim que deveria reger os atos dos “Supremos”.

As lições do caso Master, por Míriam Leitão

O Globo

Com a saída de Toffoli do caso Master, não há mais justificativa para sombras. A transparência tem que ser a norma. O sigilo, a exceção

Ainda há chão até que se conclua tudo o que cerca a quebra do Banco Master, mas já é possível tirar algumas lições do caso. A desta semana é essencial. Nenhum ministro do Supremo, por mais poderoso que seja, pode deixar de declarar o seu impedimento em algum caso, porque o país não está disposto a fazer vista grossa. Dias Toffoli foi empurrado para a saída, mas saiu esperneando. Ele achava que, mesmo tendo recebido dinheiro da teia de fundos de Daniel Vorcaro — como pagamento, segundo explicou, pela venda de um bloco acionário — poderia ser o juiz do caso. E que, sendo o juiz, poderia fazer todos os absurdos, como interferir na Polícia Federal e tentar intimidar o Banco Central.

O sigilo virou veneno, por Elio Gaspari

O Globo

No dia 2 de dezembro, o ministro José Antonio Dias Toffoli impôs o grau máximo de sigilo às investigações sobre o escândalo do Banco Master. Má ideia, coisa de poderosos de Brasília. Em menos de um mês o ministro virou um braço das tramas do banqueiro Daniel Vorcaro e de sua rede de intere$$e$. Com um funeral de primeira, seus pares tiraram-no do caso.

Quando Toffoli baixou o sigilo e também centralizou em seu gabinete o curso das investigações, supôs que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Cabe uma pergunta: a armação podia ter funcionado? Só se tivessem combinado com a Polícia Federal (PF). Como a lenda atribui ao jogador Garrincha, faltou combinar com os russos. Não só faltou combinar, Toffoli desafiou a Polícia Federal.

Veias abertas da Venezuela, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Reportagem de 1971 mostra que petróleo e pobreza convivem há décadas no país

“Este país é um dos mais ricos do mundo. Também é um dos mais pobres e mais violentos.” Assim começa a reportagem “A civilização do ouro negro”, de Eduardo Galeano. Publicada em 1971, descrevia uma Venezuela que já passava por agruras muito antes do chavismo.

O texto retrata um país que produzia 3 milhões de barris de petróleo ao dia, mas negava serviços básicos à população. “A metade dos venezuelanos tem menos de 18 anos de idade. E mais da metade das crianças e dos adolescentes não recebe nenhum tipo de educação”, anotou o jornalista e escritor uruguaio.

“Desde que o primeiro poço rebentou aos borbotões, o orçamento nacional foi multiplicado por 100, mas a maioria da população continua tão pobre como na época em que o país dependia do cacau e do café”, resumiu.

Corpo como arte, por Dorrit Harazim

O Globo

Patinadores olímpicos podem ser vistos como híbridos de atleta e esteta; sua carne, testemunho da beleza da disciplina

Merece quase comiseração o trio de juízes de patinação artística no gelo que, de ofício, precisam se concentrar exclusivamente, com absoluta atenção, no desempenho técnico de cada competidor. Mesmo os outros nove árbitros que pontuam os elementos artísticos de uma apresentação, portanto também atrelados a um código de regras, não têm a liberdade de se deixar enlevar. Em contrapartida, o espectador pode se deixar transportar sem culpa e vivenciar júbilo sensorial raro.

O carnaval como rito e sonho não combina com propaganda eleitoral, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

No culto à personalidade de Lula, a Acadêmicos de Niterói associa o presidente da Repúbçica candidato à releição à resiliência e identidade do povo brasileiro, mas preocupa o Palácio do Planalto

A grande expectativa deste domingo é o desfile da Acadêmicos de Niterói, que abre a apresentação das grandes escolas de samba na Avenida Sapucaí. Na contramão da espontaneidade do carnaval de rua, a agremiação aposta no apelo popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E corre o duplo risco de um desfile chapa branca e da campanha eleitoral antecipada com recursos públicos.

Um dos segredos dos grandes carnavalescos, como Rosa Magalhães, Fernando Pamplona e Joãozinho Trinta, era o mistério sobre seus desfiles. No caso da Acadêmicos de Niterói, quase tudo é previsível: através da metáfora da árvore símbolo da resistência na cultura afro-brasileira, a escola pretende contar a vida do operário metalúrgico que se tornou presidente da República. O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” pode não dar mais nenhum voto à reeleição do presidente da República, mas já deu muita projeção à escola.

Saúde mental no trabalho: novas regras reconhecem que o problema não é individual, por Valdir Florindo

Correio Braziliense

Com a atualização da NR-1, deixa-se de perguntar apenas quem adoeceu para investigar como o trabalho está organizado e o que deve ser feito para prevenir o adoecimento mental

Em 26 de maio de 2026, entra em vigor uma mudança relevante na forma como o Brasil trata a saúde mental no trabalho. A atualização da NR-1, promovida pelo Ministério do Trabalho, passa a exigir que o gerenciamento de riscos ocupacionais inclua, de maneira expressa, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. O alcance da norma é claro: o sofrimento psíquico deixa de ser tratado como questão estritamente pessoal e passa a ser compreendido, em termos preventivos, como fenômeno ligado à organização do trabalho. 

A atualidade do tema é inequívoca. Em 2025, segundo o Ministério da Previdência Social, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, com crescimento de 15,66% em relação a 2024. Esse cenário ajuda a explicar a mudança de foco da NR-1. 

Busca aos tesouros, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

De onde vem a fortuna do ministro Toffoli e para onde foi a do banqueiro Daniel Vorcaro?

Dias Toffoli sai da relatoria do caso Master, mas a crise no Supremo continua e tende a piorar, embolando novas revelações contra o ministro com o constrangimento de Alexandre de Moraes, a posição delicada de André Mendonça, as divisões internas, a crise com a PF e a guerra política. Tudo isso com a Corte sujeita a um comando, digamos, difuso.

Só faltava gravarem clandestinamente a reunião fechada que selou a saída de Toffoli. Não falta mais. Os trechos entre aspas no site Poder 360 não deixam dúvida de que foram degravados. Logo, alguém gravou e vazou e esse alguém foi um dos ministros. É o escândalo dentro do escândalo.

É preciso coragem para limpar o sistema, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Em 2025, anos após um escândalo de corrupção, Colômbia aprovou reforma do sistema de Justiça

Escândalos de corrupção em cortes supremas são relativamente raros. Um caso emblemático foi o chamado Cartel da Toga, na Colômbia, por ter envolvido três presidentes e outro juiz da Corte Suprema, procuradores, parlamentares e advogados; por ter levado a condenações à prisão; e pelas reformas implementadas no sistema de Justiça colombiano em resposta.

A partir de uma delação premiada de um investigado nos EUA, descobriu-se um amplo esquema de tráfico de influência na Suprema Corte colombiana, envolvendo a venda de sentenças e cobranças de propinas para retardar ou arquivar processos. As investigações estiveram a cargo da Procuradoria-Geral da República, em colaboração com o FBI e o Departamento de Justiça americano.

Bancada Master é de direita, e ninguém governa sem ela, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A verdade é simples: a esquerda, como a direita e o centro, precisa de apoio da bancada Master para governar

Dos 18 entes federativos que investiram no Master, 17 eram governados pela direita

O afastamento de Dias Toffoli do caso Master foi tardio, mas bem-vindo. E, se o afastamento ampliar o foco do público para além do STF, pode ajudá-lo a entender o que foi a mutreta política erguida ao redor da mutreta financeira de Daniel Vorcaro.

Ela aconteceu, sobretudo, no Congresso, nos estados e municípios. E, a menos que o conteúdo do celular de Vorcaro nos mostre outra coisa, foi feita majoritariamente pela direita.

O evangélico no Carnaval do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Depois de relatório da PF sobre Toffoli, acordão se torna mais organizado e explícito

PF já pescou mais políticos e rastreia transações, dizem senadores que querem fogo no circo

Um acordão eficiente depende da segurança dos elos da cadeia que constitui o arranjo. Se alguém cai, o acerto de garantias implícitas de proteção corre risco. Pode haver tiros dentro da sala de coordenação do pacto ou um salve-se quem puder (Lava Jato).

Trata-se aqui, claro, do arranjo para proteger suspeitos ou envolvidos no Master. O relatório da Polícia Federal que especificou pelo menos uma das relações de Dias Toffoli com a turma do Master incentivou um movimento de organização maior do acordo, em especial entre parte do Senado e parte do Supremo.

Bolsonaro nos arquivos de Epstein, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Há 74 menções ao político nesses documentos, assim como referências a outras personalidades brasileiras

O escândalo Epstein exibe o quadro de um retorno ainda mal compreendido do fascismo

Jamie Raskin, o principal democrata da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados dos EUA, revelou que os arquivos de Jeffrey Epstein foram editados para ocultar nomes de "abusadores, facilitadores, cúmplices e coconspiradores". Há 74 menções a Bolsonaro nesses documentos, assim como referências ambíguas a outras personalidades brasileiras. Sobre Bolsonaro não se falou diretamente de sexo nem de tráfico de menores.

Corrupção abre alas e pede passagem, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O tema volta à paisagem eleitoral no embalo das fraudes no INSS e do lodaçal crescente em torno do caso Master

Fica a dúvida se os candidatos enfrentarão o problema ou se continuarão a atribuir a culpa de tudo ao sistema

corrupção voltou a fazer parte da paisagem eleitoral. Em todas as suas formas: do peculato a transações ilegais no mundo privado e condutas flagrantemente antiéticas, passando pela infiltração do crime organizado no poder público.

A velha senhora andava meio esquecida. Não por falta de atividade, mas devido à disseminação da ideia de que excessos cometidos em investigações aconselhavam que se desse por esgotado o assunto.

Multidão consciente da loucura, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Crônica de Dante Milano sobre o Carnaval carioca dos anos 1930 evoca a folia de hoje

'Quem não quiser brincar fique em casa', diz ele. 'Somos todos loucos. Os loucos têm razão'

"Nosso povo tem o seu dia. Não é o 13 de Maio, nem o 14 de Julho. É o Carnaval. Bombos, pandeiros, chocalhos, cuícas, violões, flautas, clarins. Montões de serpentinas e confetes rolando pelas ruas. Tem-se a impressão de que o dinheiro rola pelo chão. O povo respira livre.

"Passa um cordão no meio do povo. O tampo rotundo do bombo retumba, cuícas catucando um batecum macambúzio de macumba. Giros lentos de estandartes, bamboleios de lanternas de cor. Mirabolante, bombástico, babélico, umbilical. Homens de todas as cores entoam cantos em coro. As mulheres são princesas encantadas, pedaços de luz, de corpos nus. Virgens, sambai! A rua parece a enchente de um rio. A multidão se comprime. O momento é sublime. O povo é uma só onda, um só rumor. Encontros, apertões. Quem não quiser brincar fique em casa.

Sapucaí não apoiou a ditadura, por Rodrigo Antônio Reduzino*

O Globo/ Ancelmo Gois

Conclusão de que não houve adesismo aos governos dos generais consta da tese de doutorado

"Escola de Samba como expressão política é o enunciado afirmativo de uma intelectualidade negra e todo refino de uma expressão da cultura negra. É o direito a fabular, sonhar e organizar a sua apreensão sobre a realidade social, processo inerente a condição humana, como lembra o saudoso Antônio Cândido no Direito à Literatura.

Escola de Samba como qualquer espaço social, também tem disputa política, falo de território e poder, sempre esteve inserida em diálogo com a institucionalidade, desde de sua origem datada em 1928, quando são fundadas e constroem os seus espaços para desfilarem e existirem pela região da Praça Onze e Estácio a despeito do chamado “carnaval chic” das classes dominantes realizados na Rio Branco. Atreladas a suspeição, criminalidade e a esfera de polícia, fruto do ordenamento social da época que mantém a estrutura historicamente racista até os dias de hoje.

Poesia | Soneto de Carnaval, de Vinicius de Moraes

 

Música | Portela 1966 Letra e Samba, de Paulinho da Viola

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Maquiagem não disfarça alta no rombo das estatais

Por O Globo

Governo obteve autorização para gastar 14,2 bilhões fora da meta fiscal, além do déficit de R$ 1 bilhão previsto

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido contumaz em maquiagens contábeis, retirando gastos da contabilidade oficial para mascarar a realidade. O maior exemplo disso foi o esvaziamento do arcabouço fiscal que o próprio Ministério da Fazenda criou, mas cujas metas só consegue cumprir excluindo um sem-número de despesas do cálculo (e nem por isso o dinheiro deixa de ser gasto). Outro exemplo aconteceu nesta semana, quando o Ministério do Planejamento divulgou decreto com a programação orçamentária para 2026. À primeira vista, a estimativa de déficit de R$ 1 bilhão para as estatais, sem contar pagamento de juros, parece um avanço incontestável, já que em 2025 o rombo foi de R$ 5,1 bilhões.

Renan Calheiros arrasta o centrão para a crise do Master, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Lideranças como Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta têm passado ao largo do escândalo

Se Alcolumbre não barrar, senador alagoano pode gerar artilharia para todos os lados

A crise do Banco Master vai voltar com força depois do Carnaval. São pelo menos três frentes de erosão: no STF, após a suspeita de ministros de que foram gravados por Dias Toffoli na sessão que decidiu pela saída dele da relatoria do caso; na pressão política sobre o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; e na movimentação do senador alagoano Renan Calheiros.

Aliado do presidente Lula e presidente da poderosa CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado, Calheiros vai agitar Brasília com as audiências que está marcando como parte do trabalho do grupo que criou para monitorar as investigações do banco de Daniel Vorcaro.

Dá para confiar nos sorteios do STF? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Sistema de distribuição de processos já foi testado sem que se encontrassem vieses

Corte ganharia credibilidade se adotasse um algoritmo mais aberto a escrutínio público

O caso Master no STF foi redistribuído, por sorteio, para o ministro André Mendonça. Antes disso, fora sorteado para Dias Toffoli, justamente um dos juízes que tinha ligações com o banco. Devemos desconfiar do algoritmo do STF que define qual processo vai para qual ministro?

O fato de o caso ter inicialmente caído com Toffoli não basta para sugerir tramoia. O STF tem apenas dez ministros que participam dos sorteios (o presidente fica de fora). E uma probabilidade de 10% está longe de ser uma anomalia estatística. Eu não entraria num avião que tem 10% de chance de cair.

O caso Orelha e o ‘ódio do bem’, por Thaís Oyama

O Globo

Os justiceiros tapam os ouvidos aos fatos porque a regra número um do linchamento moral é a crença automática no acusador

Em 1994, a mãe de um menino de 4 anos ficou alarmada ao surpreender seu filho fazendo gestos que imitavam o que a criança descreveu como sendo algo que “homem faz com mulher”. À pergunta sobre onde ele havia aprendido aquilo, o menino respondeu ter sido numa casa a que teria sido levado por adultos. Contou ter chegado lá transportado pela mesma Kombi em que ia à escola — a Escola Base.

Cuidado para não cair, por Flávia Oliveira

O Globo

Faz alguns anos que o carro, velho de guerra, tornou-se objeto de desejo valorizado e cultuado Brasil afora

Jorge Benjor lançou o álbum “23” em 1993, ano seguinte ao da última fornada do Opala pela Chevrolet. Os dois acontecimentos se cruzam neste 2026, às vésperas do carnaval, pela faixa “Engenho de Dentro”, terceira do disco. “Prudência e dinheiro no bolso; canja de galinha não faz mal a ninguém”, compôs e cantou o mestre. Foi cautela que faltou ao pré-candidato emergente nas pesquisas ao tripudiar com metáfora automobilística sobre o adversário nas eleições de outubro. Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, ungido como herdeiro político do pai, Jair, preso na Papudinha por atentar contra a democracia, comparou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um “Opala velho”. Metáfora é para quem sabe usar.

Quem tem medo das escolas de samba? Por Jorge Santana

Correio Braziliense

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes

As escolas de samba sofrem de um pecado original. Essas instituições que nasceram poucas décadas após o fim da escravidão tornaram-se um "perigo" para o Estado. A Primeira República brasileira (1889-1930), fundada em 15 de novembro de 1889, teve como metas o progresso e o desenvolvimento — leia-se excluir tudo aquilo oriundo de África ou dos povos originários. Tal busca pelo branqueamento da nação não significava apenas eliminar os povos não brancos, mas também extirpar todas as práticas, culturas, religiosidades, traços africanos e ameríndios.

O palanque na Sapucaí, por Eduardo Affonso

O Globo

Nossos tribunais jamais permitiriam propaganda antecipada. O enredo sobre Lula é só um tributo desinteressado

Nos últimos carnavais, sem haver novas marchinhas (em extinção, como as cigarras, os tatuís e os liberais), divertido mesmo era acompanhar a problematização de como se fantasiar e do que cantar durante a folia. Seguindo o manual progressista e libertário, dress code e repertório tinham mais restrições que o Jardim Botânico de Curitiba.

Neste ano, o foco mudou. Quando, amanhã, a Escola Cívico-Militar de Samba Patriotas da Barra da Tijuca abrir alas na Sapucaí, um paradigma terá ido pelos ares. Nunca antes na História deste país (e olha que a História deste país teve coisa do arco da velha) uma campanha eleitoral terá sido tão antecipada — e de forma tão espetacular.

Puxando o saco de Lula na Sapucaí, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Enredo chapa-branca é um produto que se destina mais às redes que ao Sambódromo

Acadêmicos de Niterói periga cair, causando efeito desagradável na campanha da reeleição

Enredos qualquer nota e escancaradamente patrocinados não são novidade no Carnaval. A Marquês de Sapucaí já viu homenagens para Silvio Santos, Chico Recarey e Beto Carrero. Em 2012, a Porto da Pedra falou de leite e iogurte; no ano seguinte, a Mocidade se misturou ao Rock in Rio. O que os une, além da bajulação, é o resultado. Não raro, a escola fracassa.

A escola Acadêmicos de Niterói, ex-Sossego, ao contar a história do "operário do Brasil" em sua estreia no grupo Especial, comprou um barulho. Periga cair e o enredo chapa-branca provocar efeito desagradável na campanha de Lula, com piadas e provocações.

E assim se passarão mais dez anos? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A gana presidencial de Lula e a pavorosa entressafra de políticos que governa atualmente o País aumentam as chances de nos mantermos num eterno buraco

Raras vezes em nossa história um candidato à Presidência traçou seu plano político de uma forma tão cristalinamente clara. É de todos sabido que Lula, o atual presidente, está há um bom tempo em campanha. Quer a reeleição. Para tanto, gasta o que pode e o que não pode. Dado que nossa classe política não se entende para identificar um candidato de maior estatura, Lula tem chances de ser reeleito. E se não for? Aí entra a segunda parte do plano. Se não for, quem o suceder já começará o mandato com um buraco fiscal sem tamanho. Péssimo para o Brasil, mas, outra vez, bom para Lula.

PSTF, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O arranjo-puxadinho para a saída de Dias Toffoli é uma aberração. Se os pares defendem os atos processuais do colega, se consideram não haver razões para impedimento ou suspeição, por que ele deixou a relatoria do caso Master? Porque seguir a regra seria contratar uma epidemia de suspeições. Porque a guilda do Supremo preferiu negociar, na alcova, um acordo de compadres; assim, repare no texto dos togados, como se o ministro nos fizesse uma delicadeza ao se afastar – o cara que foi sócio, até fevereiro de 2025, de fundos geridos pelo cunhado de Daniel Vorcaro, fundos que operaram, em 2024, a transfusão artificial de liquidez para o Master. E que, ainda assim, manteve-se à frente do caso Master no STF. Por meses.

Quando o STF é contra a suspeição, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A crise está longe de ser controlada e pode levar não só um ministro, mas toda a corte para o lugar de suspeita aos olhos da sociedade

As revelações mais recentes do caso Master, que levaram ao afastamento do ministro Dias Toffoli, encancaram a dificuldade que o Supremo Tribunal Federal tem de lidar com o tema da suspeição. Há, no Tribunal, um histórico de resistência ao reconhecimento de conflitos de interesse de seus juízes, como se a corte, para proteger a autoridade do tribunal, identificasse na suspeição uma evidência de mácula moral a ser evitada.

Alfabetização necessária, por Cristovam Buarque

Veja

É preciso cuidar sobretudo da educação de base

Uma recente avaliação do ensino de medicina alertou para os riscos à saúde dos brasileiros caso nossos médicos continuem a se formar nessas faculdades. Faltou denunciar os riscos à saúde do Brasil se continuarmos a educar nossas crianças e jovens nas atuais escolas de base. Os brasileiros precisam cuidar da qualidade das faculdades que formam doutores, sim, mas também da educação que vem desde o início, da infância. Além de outros fatores — protecionismo, burocratismo, insegurança jurídica, custo da máquina estatal e infraestrutura degradada —, a principal causa da estagnação de nossa renda média está na falta dos conhecimentos necessários para nos integrarmos ao mundo moderno. Sem a plena alfabetização de toda a população para a contemporaneidade, o país continuará sujeito a sete enfermidades: baixa produtividade, concentração de renda, pobreza, violência, instabilidade, corrupção e endividamento.

A virtude está no meio, por Marcus Pestana

O conselho veio de longe, três séculos antes de Cristo. Aristóteles, na Grécia Antiga, alimentou a ideia de que nos extremos haveria uma mistura indesejável de excesso e falta e que o centro estaria associado aos conceitos de moderação, diálogo, equilíbrio e não dogmatismo. Em tempos de Trump e da configuração binária da polarização brasileira, provavelmente Aristóteles seria um “influencer” de baixo impacto e pouca audiência no Instagram, TikTok ou X. Afinal, o que mobiliza as bolhas é exatamente a radicalização extremada das opiniões e a destruição dos adversários políticos, transformados em inimigos de guerra.

Nem caneta nem bolsa, por Leonardo Avritzer

CartaCapital

Os riscos de o STF ultrapassar o papel de Corte constitucional

Uma das maiores incertezas que pairam sobre a política brasileira neste ano diz respeito ao papel do Supremo Tribunal Federal. Como se sabe, a Corte foi decisiva não somente na contenção do golpe de 2022 e 2023, mas na condenação dos golpistas, durante o julgamento realizado em setembro do ano passado. Esses fatos reforçaram a importância e a atuação legítima do STF no que diz respeito à defesa da democracia no Brasil. Entretanto, isso não lhe garante sustentação para atuar­ em outras dimensões que ultrapassam seu papel de Corte constitucional.

Código de conduta, por Pedro Serrano

Carta Capital

A adoção de um regulamento tende a representar um mecanismo de defesa e de fortalecimento do Supremo, ao contrário de um mero instrumento de autocontenção

Críticas não são apenas aceitáveis, mas desejáveis em qualquer sistema democrático. A posição assumida pelo Judiciário para a vida em sociedade o coloca, invariavelmente, sob o crivo do questionamento. Ao Judiciário cabe, nas democracias contemporâneas, a última palavra em termos de interpretação da ordem jurídica. Em países como os latino-americanos, providos de Constituições analíticas, diversas decisões sobre da vida pública, em comunidade e dos comportamentos humanos são transferidas para o âmbito jurisdicional.

Imperador impopular, por Jamil Chade

CartaCapital

O mundo demonstra seu desprezo pelo presidente dos Estados Unidos

Donald Trump descobre, aos poucos, a dimensão do desprezo do mundo por seu governo. Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, a entrada da delegação dos Estados Unidos no desfile foi marcada por uma mistura de aplausos e vaias. A celebração foi para os atletas, alguns dos melhores do mundo em suas modalidades. Mas um sonoro protesto ocorreu quando o telão do estádio de San Siro mostrou o vice-presidente JD Vance, de pé, aplaudindo a delegação. Curiosamente, o público dos EUA jamais soube disso. Na transmissão oficial veiculada nas televisões de milhões de norte-americanos, a NBC cortou o som das vaias. Horas depois, quando a Casa Branca divulgou o vídeo do vice-presidente no evento na Itália, uma vez mais o som das vaias havia sido convenientemente abafado.

Finança e capital, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Na incessante busca de dinheiro, o capitalismo excita esperanças de enriquecimento e solapa as realidades da “economia real”

Reconhecido pelos senhores dos mercados depois da crise financeira de 2008, o economista keynesiano Hyman Minsky, falecido em 1996, escreveu, em 1992, um artigo intitulado “Schumpeter and Finance”. O artigo narra a temporada de Minsky em Harvard na companhia de Paolo Sylos-Labini, então jovem economista italiano, mais tarde referência no mundo acadêmico ao escrever o clássico Oligopólio e Progresso Técnico.

Os dois chegaram em Harvard para a temporada 1948–1949. Labini aportou em Harvard depois de algum tempo em Chicago. “Como completei minha graduação em Chicago, Labini e eu compartilhamos nossas opiniões sobre ­Chicago e Harvard em animada discussão.” Minsky graduou-se em Matemática em 1941. Do mestrado (1947) ao Ph.D. (1954), foi supervisionado por ­Schumpeter, ­Wassily Leontief e Alvin Hansen. Schumpeter morreu em janeiro de 1950.

Marx, um comentário, por Ivan Alves Filho

Marx é um pensador e militante político central da chamada modernidade. Um herdeiro daquilo que o processo civilizatório tem de melhor, do Renascimento ao Iluminismo. Suas formulações têm um duplo caráter, uma vez que estabeleceu tanto um método de análise quanto um guia para a ação.

Não por acaso escreveu uma obra como O Capital, e, ainda, foi a principal figura da Associação Internacional dos Trabalhadores, em 1864.

Poesia | Um homem e o seu carnaval, de Carlos Drummond de Andrade

 

Alceu Valença - Hino do Galo da Madrugada

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Era insustentável a relatoria de Toffoli no caso Master

Por O Globo

Diante das revelações da PF sobre suas relações com Vorcaro, ministro tinha o dever de deixar o processo

Tornou-se insustentável a permanência do ministro Dias Toffoli na relatoria do processo sobre o Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante de todas as revelações do relatório entregue pela Polícia Federal (PF) ao presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, Toffoli não tinha alternativa a não ser deixar o caso. No início, ele se recusou. Em nota, chamou de “ilações” os fatos usados para defender sua suspeição. Fachin pediu então parecer à Procuradoria-Geral da República (PGR). Depois de reunião com os demais ministros, Toffoli cedeu e deixou a relatoria, em seguida atribuída ao ministro André Mendonça.

Uma agenda positiva para a democracia, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

É preciso tratar dos problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições

Os defensores da democracia começaram 2026 com uma grande vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que bateu o candidato da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão sanitário contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória de autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.

Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.

A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.

Carnaval a finitude do que éramos, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Entre nós, o Carnaval foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma

Mesmo não o sendo, de fato, o Carnaval se tornou uma espécie de referência identitária do imaginário do que o brasileiro julga que é. Na verdade, a imensíssima maioria do povo sempre esteve e está cada vez mais distante dessa festividade, que, aliás, não é apenas uma, mas várias escondidas sob um único nome.

O declínio do Carnaval brasileiro pode ser analisado como documento e indício sociológico de mudanças profundas no que reiteradamente tem-nos sido dito que somos. O Carnaval é o outro lado, é o nosso nunca fomos.

Na política e no carnaval, tristeza não tem fim, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Um fato é público: uma fantasia que não fará sucesso neste carnaval é a de banqueiro Daniel Vorcaro

Há menos mistérios entre o céu e a terra do que há segredos em Brasília e neblina no sorteio de relatores no Supremo Tribunal Federal (STF). Mas um fato é público: uma fantasia que não fará sucesso neste carnaval é a de banqueiro - nem se vier com dinheiro nos bolsos do terno italiano.

De “outsider” da Faria Lima a “hit pop” na capital federal, anfitrião de festas e jantares concorridos em Brasília e São Paulo, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master e alvo da Polícia Federal (PF) metamorfoseou-se em “persona non grata” entre políticos e autoridades que já o frequentaram: ninguém conhece, ninguém viu. Até que a perícia da Polícia Federal nos celulares e laptops apreendidos derrube as máscaras. O nome do ministro Dias Toffoli surgiu em conversas, e a consequência imediata foi seu afastamento da relatoria do caso Master no STF - gesto pelo qual era cobrado, mas ao qual resistiu com resiliência.

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O Globo

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Historicamente, reformas de instituições não acontecem porque elas próprias anteveem a necessidade de promover mudanças. São provocadas de fora para dentro e se precipitam a partir da constatação externa de que valores, condutas ou culturas não são mais cabíveis. Quanto mais as instituições agem em negação, mais essas reformas lhe são impostas. O Supremo Tribunal Federal se vê, com o caso Master, diante da possibilidade de promover uma reforma, embora, até aqui, venha agindo para passar apenas uma mão de verniz na pintura que teima em descascar.