domingo, 22 de fevereiro de 2026

Tio Dorico ficou fora do desfile, por Elio Gaspari

O Globo

A Acadêmicos de Niterói levou Lula para a avenida. Cantou um samba com jeito de tese de doutorado e foi rebaixada. Nada a ver com a beleza da exaltação de Mestre Ciça. Cantaram a vida de Lula, em certos momentos na voz de Dona Lindu (Eurídice Ferreira de Mello), sua mãe.

Na sua voz:

“Com o peito em pedaços

Parti atrás do amor e dos meus sonhos

Peguei os meus meninos pelos braços

Brilhou um sol da pátria incessante

Pro destino retirante

Te levei, Luiz Inácio

Por ironia, treze noites, treze dias

Me guiou Santa Luzia, São José alumiou

Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical

À liderança mundial.”

Dona Lindu foi uma leoa. Viveu um matrimônio sofrido, criou oito filhos (quatro morreram na infância) e morreu em 1980, quando Luiz Inácio era uma nova liderança sindical.

Em biografias e na memória de sua vinda para São Paulo, estão lá as seis crianças, Lula com 7 anos de idade. Uma escultura colocada no parque de Recife que leva seu nome lembra esse grupo de retirantes.

No bronze, como no samba e em todas as descrições da viagem, faltam outras quatro pessoas: Dorico, irmão de Lindu, sua mulher Laura e duas crianças. Somando-se um casal de adultos à viagem penosa, seu lado épico muda de qualidade.

Dorico ajudou Lindu nos seus primeiros tempos em Santos. Montou um bar e em 1955 acolheu Lindu quando ela se livrou do marido promíscuo e alcoólatra. Já adulto, Lula recordaria:

“No quarto dormiam minha mãe, duas irmãs e eu, que era o caçulinha e podia dormir junto com as mulheres. Na cozinha, naquelas caminhas de abrir, dormiam sete ou oito pessoas. E o banheiro não tinha vaso sanitário, era bacia turca, daquelas de agachar, que usam nas cadeias.”

Noutra lembrança, Lula deu mais detalhes:

“Morávamos em 13 pessoas nesse quarto e cozinha. Porque, além de todos nós que morávamos com a minha mãe — aí já estávamos os oito morando com a minha mãe —, tinha mais um primo chamado Luiz Graxa e outro primo chamado Zé Graxa. (...) Como tinha pouca comida, minha mãe comprava carne de segunda para fazer no molho, colocava bastante água e colocava aquela carne gorda, que ficava bem gordurosa. Então, aquele molho, você ia colocando farinha e colocava aquela graxa, colocava farinha para aumentar a quantidade de comida, para poder dar sustança para os barrigudinhos.”

Nesses anos da infância de Lula, tio Dorico foi um porto seguro para sua família. As biografias de Lula deram pouca ou nenhuma importância a tio Dorico. Ele e seus filhos somem aos poucos. Não couberam no enredo da Acadêmicos de Niterói. Só o magnífico livro “Lula, filho do Brasil”, de Denise Paraná, registrou sua oportuna presença com detalhes. São duas as referências nominais do biógrafo Fernando Moraes a Dorico

Na biografia e nas celebrações de Lula, Dorico cumpre o papel histórico do retirante: mesmo sendo relevante, torna-se um ausente.

O Epstein tupiniquim

O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União recomendou a abertura de um processo para conhecer os convidados de Daniel Vorcaro em sua casa de praia em Trancoso, na Bahia.

Se o TCU for fundo, mesmo não sendo sua atribuição, baterá numa crônica tupiniquim das malfeitorias como as de Jeffrey Epstein no jet set internacional.

O circuito de Vorcaro e de seus fornecedores era mais modesto.

O efeito Trump

Donald Trump conseguiu fazer uma omelete sem quebrar ovos. Sequestrou o ditador da Venezuela Nicolás Maduro e apoderou-se do país sem expurgar os militares e civis que dominavam a República Bolivariana.

Parecia ser um caso peculiar à Venezuela.

O site Axios revelou que o secretário de Estado Marco Rubio está conversando às escondidas com Raul Guillermo Rodriguez Castro, neto de Raul Castro, o irmão caçula de Fidel, hoje com 94 anos. Raulito, o Caranguejo, por uma anomalia numa das mãos, tem 41 anos, já foi guarda-costas do avô e é tenente-coronel do Exército. Seu pai, morto em 2022, era um general e chefiava o conglomerado econômico e militar do regime.

A novidade vem do lado americano, mostrando-se disposto a repetir a experiência venezuelana. Muda o regime, mas preservam-se as boquinhas, sobretudo da máquina militar.

No mundo de intrigas do anticastrismo nada permite dizer que essas conversas vão adiante, mas pelo menos uma parte da agenda foi revelada.

A visão de Paes

Na noite de domingo, divertindo-se no seu camarote, o prefeito Eduardo Paes circulou com óculos escuros e uma bengala branca.

A imitação de um cego caiu mal e, na quinta-feira, ele confessou: “Foi uma infelicidade minha”.

Na mesma quinta, como candidato a governador na eleição de outubro, Paes anunciou que sua companheira de chapa será Jane Reis.

A senhora nunca disputou uma eleição estadual, é uma veterana militante do MDB e irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis. Ele está pendurado no Supremo Tribunal Federal, onde tenta reverter sua inelegibilidade.

Bad Bunny e a América

Os trumpistas compraram a briga errada com Bad Bunny. Quando ele diz que América não designa um país, mas um continente, está certo.

O mais curioso é que o continente foi chamado de América por um erro do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller. Em 1507 ele deu o nome de América às terras percorridas pelo italiano Amerigo Vespucci, nos primeiros anos do século XVI. Em 1501, percorrendo o litoral de Pindorama, ele esteve na foz do Rio São Francisco e na Baía da Guanabara.

Seus livros estiveram entre os mais vendidos da época.

No seu mapa, Waldseemüller demarcou um pequeno pedaço das terras do Norte, ilhas do Caribe e, ao Sul, um continente onde localizou uma dezena de acidentes geográficos da costa da Terra dos Papagaios (um deles ilustra o mapa), ao qual deu o nome de América. Anos depois, o cartógrafo arrependeu-se, mas era tarde.

Vespucci foi um grande cascateiro. Seus livros tiveram pelo menos 60 edições e venderam milhares de cópias. As terras por onde ele passou não eram um “paraíso terrestre” e lá não havia gigantes nem leões. Nela também não se vivia por 150 anos, até porque os nativos não observavam o calendário solar, mas os livrinhos descreviam o povo dos sonhos dos mercadores quinhentistas.

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