Homenagem a Lula na Sapucaí teve ar de campanha antecipada
Por O Globo
Cabe ao TSE avaliar as punições que julgar
adequadas para o desfile da Acadêmicos de Niterói
No ano em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende disputar a reeleição, a escola de samba Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, escolheu apresentar na Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Foi impossível disfarçar o tom de propaganda eleitoral antecipada, como pôde perceber qualquer um que tenha assistido ao desfile no domingo à noite.
O refrão do samba-enredo era exatamente o
slogan adotado em todas as campanhas de Lula há décadas — “olê, olê, olê, olá,
Lula! Lula!”. A letra fazia referências a motes frequentes da propaganda do
governo que decerto serão tema da campanha prevista para começar em agosto. É o
caso da exaltação à “soberania” contra “tarifas e sanções”, ao “filho de pobre
virando doutor”, à “comida na mesa do trabalhador” e do ataque implícito ao
ex-presidente Jair Bolsonaro no verso “sem mitos falsos, sem anistia”. Para
quem duvidasse do alvo, por duas vezes Bolsonaro foi retratado jocosamente na
Marquês de Sapucaí como o palhaço Bozo, trancafiado atrás de grades. Alas
homenagearam a estrela vermelha do PT, ironizaram conservadores como latas de
conserva e associaram “patriotas” à bandeira dos Estados Unidos.
Não é de hoje que a política se infiltra no
desfile das escolas de samba. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, o
venezuelano Hugo Chávez e até a ditadura militar já foram tema de enredos.
O carnaval é
uma festa popular que não deveria se misturar com a política eleitoral. Mas o
regulamento da Liga das Escolas de Samba (Liesa) não proíbe de modo explícito
manifestações dessa natureza no desfile. A Liesa deveria cuidar para evitar
esse tipo de uso da festa. Ainda que se possam admitir homenagens históricas,
uma coisa é louvar figuras do passado, outra bem diferente é fazer propaganda
política em ano de eleição. Lula e o PT deveriam ter desencorajado essa ideia
descabida desde o nascedouro, afinal são todos políticos experientes, com plena
condição de avaliar as consequências de seu endosso.
Em vez disso, limitaram-se a tomar
providências preventivas, como impedir ministros e a primeira-dama Janja Lula
da Silva de desfilar — mesmo assim de última hora. Ela e vários ministros
ficaram na plateia, mas nenhum dos cuidados foi suficiente para evitar o tom
eleitoreiro. Apesar do veto nos ensaios ao gesto do L (para não configurar
pedido de voto), o mestre de bateria e o puxador do samba não se furtaram a
fazê-lo diante das câmeras. E o próprio Lula não se conteve. Lá pelas tantas,
desceu à avenida acompanhado do prefeito Eduardo Paes para confraternizar
brevemente com a escola. Pareceu arrogância.
O desfile da Acadêmicos de Niterói é alvo de
pelo menos dez iniciativas na Justiça. A mais relevante tramita no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE).
A Corte autorizou o desfile, mas fez inúmeras ressalvas. “É um ambiente
propício para que haja excessos, abusos e ilícitos”, afirmou a presidente do
TSE, ministra Cármen Lúcia. Ela assegurou que a autorização não representava um
“salvo-conduto” para violar leis eleitorais. Cabe agora ao TSE estipular se as
salvaguardas foram respeitadas e, se for o caso, determinar que punições devem
ser adotadas.
Rubio desponta como principal rival de Vance
na corrida pela sucessão de Trump
Por O Globo
Tom conciliador do discurso a europeus em
Munique contrasta com mensagem agressiva do vice e traz sinal positivo
Ao fim do discurso do secretário de Estado
americano, Marco Rubio, na Conferência de Segurança de Munique, a plateia
europeia irrompeu em aplauso. Não poderia haver maior contraste com a reação
silenciosa há um ano diante do vice-presidente americano, J.D. Vance. Nem sinal
mais nítido de que Rubio desponta como principal rival de Vance na disputa que
se enceta no Partido Republicano de olho na sucessão de Donald Trump e
na eleição de 2028.
No lugar da mensagem agressiva de Vance,
Rubio procurou reatar laços com a Europa. Lembrou que os países de ambos os
lados do Atlântico são “herdeiros da mesma grande e nobre civilização”. “Sempre
seremos filhos da Europa”, afirmou. Despertou risadas na plateia ao dizer que
os imigrantes alemães ajudaram a melhorar a cerveja americana e ao ressaltar,
ao lado de Shakespeare, Da Vinci ou Michelangelo, a genialidade de Beatles e
Rolling Stones. Não perdeu a oportunidade para marcar as diferenças com Vance.
A mensagem de Rubio traduz uma inflexão bem-vinda na orientação de Trump em
relação ao continente europeu, que deve ser celebrada.
Publicamente, Rubio segue a cartilha do
republicano fiel. Promete apoiar Vance se ele disputar a presidência. Mas o
vice sabe quem é seu adversário. Ao posar para um fotógrafo recentemente,
brincou: “Pago US$ 100 por pessoa que você fizer parecer muito pior que eu. E
US$ 1.000 se for o Marco”.
O tom mais conciliador de Rubio em Munique
trouxe algum alívio, mas não bastou para dissipar o ceticismo europeu em
relação ao futuro da aliança atlântica. Enquanto Trump estiver no poder,
persiste o temor de que continuará a sucessão de crises. Mesmo em estilo mais
ameno e civilizado, Rubio não atenuou a mensagem nacionalista e unilateral de
seu chefe em temas como imigração, comércio internacional ou mudanças
climáticas.
Tanto Rubio como Vance foram críticos de
Trump no passado. Ambos se aproximaram dele por caminhos distintos. “Marco não
é o tipo de pessoa que viola seus princípios”, disse Susie Wiles, chefe de
gabinete da Casa Branca. “Simplesmente não é. Por isso precisou amadurecer essa
posição.” Na opinião de Wiles, a mudança de Vance foi “um pouco mais, digamos,
política”. A avaliação mostra que Rubio tem conseguido angariar apoio relevante
na Casa Branca.
Filho de imigrantes cubanos anticomunistas, Rubio tem desempenhado papel crítico na execução da nova política externa americana, sobretudo no que diz respeito à prioridade dada à América Latina. Esteve envolvido nas operações que culminaram na captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro e nas negociações que reaproximaram Trump do governo brasileiro, depois da maior crise diplomática entre os dois países, deflagrada pelo tarifaço. Também estende suas iniciativas a Oriente Médio e Ucrânia. Ante o radicalismo ideológico de Vance, a tentativa de Rubio de trilhar um caminho mais pragmático e moderado pode ser uma aposta eleitoral mais consistente para os republicanos.
Crise fiscal e dívida precisam ocupar centro
da campanha
Por Folha de S. Paulo
Ao burlar regras do arcabouço, Lula levou
endividamento público a dar um salto, colocando o país em risco
Quando o petista assumiu, a dívida pública representava
71,7% do PIB; projeções indicam que encerrará seu quarto mandato em 83,6%
Durante três anos, o governo de Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
modificou ou burlou
sistematicamente a regra que ele próprio criou para o controle
das contas públicas, o chamado arcabouço fiscal.
Nada indica que não fará o mesmo em 2026,
sobretudo por se tratar de ano eleitoral, em que a propensão do incumbente
candidato à reeleição é gastar mais.
O arcabouço tem regras bem mais complicadas
do que as do teto de gastos adotado no governo Michel Temer (MDB) e mantido
por Jair
Bolsonaro (PL), que simplesmente
limitava o aumento da despesa à inflação.
A regra da gestão petista autoriza
crescimento do gasto de até 2,5% acima do aumento dos preços, com limite
calculado como proporção de 70% da variação real das receitas no ano anterior.
De qualquer maneira, no último triênio, o
governo Lula impôs exceções frequentes ao seu arcabouço fiscal, como
precatórios, dispêndios fora da meta e reclassificações de gastos.
O desfecho é que, embora venha cumprindo
formalmente a meta de resultado primário, que é a diferença entre as receitas e
despesas não financeiras, a dívida pública bruta do país entrou em trajetória
explosiva.
Quando Lula assumiu, o indicador representava
71,7% do PIB.
No final do ano passado, havia subido para 78,7%. Projeções indicam que o
presidente encerrará o
mandato com a dívida bruta em 83,6% do PIB, quase 12 pontos acima da
herdada de Bolsonaro.
O desconforto do mercado com o indicador vem
sendo amortecido por forte entrada de dólares no Brasil e em países emergentes
devido às políticas erráticas do presidente Donald Trump, que têm estimulado a
desvalorização da moeda americana e levado à busca, por investidores, de ganhos
fora dos EUA. Esse fator vem contendo os preços aqui via importações mais
baratas.
O arranjo atual é conjuntural. Mantida a
leniência e a falta de comprometimento com regras mais rígidas para as contas
públicas em um eventual quarto mandato de Lula, uma grave crise de confiança
estará encomendada.
Em vez de continuar maquiando os limites do
arcabouço, o petista deveria considerar, por exemplo, a desvinculação de
despesas previdenciárias de sua política de correção do salário mínimo acima da
inflação e dos gastos com saúde e educação à evolução da receita corrente
líquida.
Embora não tenha abordado diretamente o tema,
seu provável principal adversário na eleição deste ano, o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), sinaliza a busca de assessores econômicos
preocupados com a questão. Ventila-se até a entrada do ex-ministro da Economia de
Bolsonaro, Paulo Guedes,
nessas discussões.
Seria fundamental que essa agenda estivesse
no centro da campanha, pois promessas populistas de praxe do período eleitoral
certamente serão frustradas pela realidade sombria que se aproximará caso a
dívida pública não seja contida o quanto antes.
Trump faz Europa assumir o custo do apoio à
Ucrânia
Por Folha de S. Paulo
Republicano zera recursos sem contrapartida a
Kiev; medida força europeus a deixar passividade relativa
O risco de ruptura é que o atual rearmamento
europeu acenda antigas rivalidades, o que seria uma vitória para Vladimir Putin
A uma semana de completar quatro anos, a
invasão russa da Ucrânia segue
balizando a transformação geopolítica em curso no planeta.
Após recolocar o uso da força entre Estados
no centro das relações internacionais, o que não se via na Europa desde
o fim da Segunda Guerra Mundial, o conflito serviu em 2025 como eficaz
termômetro da desordem mundial promovida por Donald Trump.
Antes de voltar à Casa Branca, o republicano
já dizia que terminaria com a guerra em 24 horas, para isso cortando a ajuda
incondicional a Volodimir
Zelenski.
Pouco mais de 9.400 horas se passaram desde
sua posse, e a violência grassa nos campos ucranianos. Já a promessa econômica
é uma das raras que Trump pode dizer que cumpriu até aqui.
Segundo dados do alemão Instituto Kiel, o presidente
zerou a ajuda direta a Kiev em 2025. Foram enviados apenas restos a
pagar da gestão do antecessor, Joe Biden, no começo do ano passado —equivalente
a R$ 2,9 bilhões.
Em 2024, havia sido R$ 283,3 bilhões, grande
parte em apoio militar direto —munições, mísseis, blindados, tanques e dados de
inteligência sem os quais a resistência das forças ucranianas teria sido quase
impossível.
Até 2025, os EUA eram os maiores fornecedores
deste tipo de ajuda, dado o tamanho de seus estoques de armamentos e a
capacidade de sua indústria de defesa. Desde o começo da guerra, Washington
enviou R$ 397 bilhões em armas para a Ucrânia, superando os R$ 123 bilhões do
segundo colocado, a Alemanha.
Fiel aos preceitos de sua nova Estratégia de
Segurança Nacional, Trump passou a conta para aliados. Com efeito, de 2024 a
2025, a ajuda total da União
Europeia e de vizinhos como o Reino Unido passou dos já altos
R$ 272,8 bilhões para R$ 447 bilhões.
Ainda assim, boa parte dos armamentos
empregados pelos ucranianos é de origem americana, devido ao grande volume
enviado até o último ano da gestão Biden e pela introdução de um mecanismo
segundo o qual países europeus compram armas dos EUA e as repassam a Kiev.
A nova realidade choca os europeus,
acostumados com 80 anos de guarda-chuva militar americano. Trump pode oferecer
cinismo em troca de alianças, mas é fato que há muito o continente acumula
riquezas e negligencia sua defesa, e isso um dia iria mudar.
Isso dito, o risco de ruptura é que o corrente rearmamento europeu acenda antigas rivalidades, tirando os países da região do rumo de união e prosperidade que buscaram desde 1945, o que seria uma vitória para Vladimir Putin.
A água no limite do colapso
Por O Estado de S. Paulo
Relatório da ONU diz que o mundo passou da
fase de escassez e crise e fala em falência hídrica global. Um sinal de que a
degradação dos sistemas hídricos já compromete o presente e ameaça o futuro
Alertas globais costumam oscilar entre a
banalização e o alarmismo, dois equívocos igualmente paralisantes. Há momentos,
porém, em que reconhecer a dimensão do problema não significa exagero retórico,
mas requisito mínimo de lucidez. Um relatório da
Universidade das Nações Unidas, apresentado como subsídio à Conferência da ONU
sobre a Água de 2026, introduz uma mudança conceitual inquietante no debate:
segundo os autores, o mundo já não vive apenas uma crise pontual ou mera
escassez de água, mas ingressou numa era de falência hídrica global. A
expressão pode soar alarmista para alguns, mas traduz a constatação de que, em
vastas regiões do planeta, os sistemas hídricos foram tão degradados que já não
conseguem se recompor nos marcos tradicionais de gestão, mesmo em cenários
razoáveis de mitigação das mudanças climáticas.
A principal novidade do relatório não está na
enumeração dos problemas, conhecidos há décadas, mas na conclusão de que muitos
deles se tornaram estruturalmente irreversíveis. Aquíferos superexplorados,
rios artificializados, zonas úmidas destruídas, poluição crônica e uso
predatório do solo corroeram os mecanismos naturais de armazenamento e
renovação da água. Em outras palavras, o mundo passou a gastar um capital
hídrico que não será recomposto no tempo histórico das sociedades humanas. O
resultado é um déficit permanente entre oferta e demanda, com impactos
crescentes sobre alimentos, energia, saúde pública, estabilidade política e
desenvolvimento econômico.
Ao propor o termo “falência”, o relatório
busca romper com a complacência embutida em expressões como “estresse hídrico”
ou “escassez”. Crises, por definição, são temporárias e solucionáveis;
falências exigem reestruturação profunda, escolhas duras e redefinição de
prioridades. A analogia é direta: assim como empresas insolventes não se
recuperam com ajustes marginais, sistemas hídricos colapsados não serão salvos
por políticas pontuais, campanhas educativas episódicas ou obras desconectadas
de uma estratégia de longo prazo.
O documento também desmonta uma ilusão recorrente:
a de que a crise da água é apenas um subproduto das mudanças climáticas. Embora
o aquecimento global amplifique os riscos, o relatório deixa claro que a má
governança da água – marcada por subsídios distorcivos, ausência de regulação
efetiva, captura política e invisibilidade institucional – tem peso igual ou
maior na degradação atual. Países com climas distintos e níveis variados de
renda enfrentam problemas semelhantes quando tratam a água como recurso
inesgotável, barato e politicamente secundário.
Nesse ponto, o alerta é particularmente
relevante para o Brasil. Dono de uma das maiores disponibilidades hídricas do
planeta, o País costuma confundir abundância relativa com imunidade estrutural.
A realidade desmente essa complacência. A degradação de bacias, o avanço
desordenado do desmatamento, a poluição urbana e industrial, a irrigação
ineficiente e a fragilidade dos instrumentos de governança colocam regiões
inteiras sob risco crescente. A falência hídrica global já se manifesta, de
forma desigual, dentro das fronteiras nacionais.
O relatório da ONU insiste que a água precisa
deixar de ser tratada como variável técnica e passar ao centro das decisões
políticas e econômicas. Isso implica integrar políticas de uso do solo,
energia, agricultura, saneamento e clima; revisar incentivos que estimulam o
desperdício; fortalecer instituições de gestão; e reconhecer que conflitos por
água tendem a se intensificar num mundo mais quente. Trata-se de uma
advertência sobre os limites físicos que a retórica política já não consegue
contornar.
Ao declarar o início de uma era de falência
hídrica, a ONU oferece ao mundo um diagnóstico duro, porém necessário.
Ignorá-lo significa aceitar que a escassez, a insegurança alimentar e os
conflitos associados à água deixem de ser exceção para se tornarem regra.
Enfrentá-lo exige reconhecer que, sem uma mudança profunda na forma de governar
e valorizar a água, o custo da inação será incomparavelmente maior do que o da
prevenção.
Um tsunami no mercado de trabalho
Por O Estado de S. Paulo
Segundo o FMI, a IA pode afetar até 60% dos empregos,
sobretudo os dos jovens, nos países desenvolvidos. No Brasil, que forma mal
grande parte de seus jovens, a situação pode ser ainda pior
Um tsunami no mercado de trabalho. Foi assim
que a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina
Georgieva, definiu o impacto da inteligência artificial (IA) sobre o emprego,
especialmente o dos jovens.
Georgieva alertou os participantes do Fórum
Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) que a disseminação da IA está
redefinindo a demanda por habilidades. De acordo com ela, nos próximos anos, a
adoção mais generalizada da tecnologia nos países desenvolvidos afetará 60% dos
empregos, o que significa que postos de trabalho podem ser transformados, mas,
também, eliminados. Globalmente, o impacto deve ser de 40%.
É verdade que em alguns casos o domínio da IA
não só dinamiza o trabalho dos profissionais, como lhes garante remuneração
mais robusta. A adoção da inteligência artificial também tende a ampliar a
produtividade, mas com um efeito colateral: o corte de postos de trabalho
tradicionalmente ocupados por cidadãos da classe média.
Ainda mais preocupante, à medida que a
tecnologia vai ganhando escala, as chamadas vagas para iniciantes são
eliminadas, o que prejudica, sobretudo, os jovens. Mesmo entre aqueles com
educação superior, a dificuldade de encontrar o primeiro emprego tem sido
crescente.
Uma transformação dessa magnitude no mercado
de trabalho pode causar grandes distúrbios mundo afora, mas, por ora, as
discussões em torno dos efeitos negativos da IA estão concentradas no potencial
estouro de uma bolha no mercado de ações.
Uma coisa, porém, não elimina a gravidade da
outra. Mesmo que uma crise se confirme nas principais bolsas do mundo, varrendo
empresas do mapa e levando à bancarrota aqueles investidores que calibraram mal
suas apostas na corrida tecnológica, os efeitos da revolução da IA
permanecerão.
Foi assim em grandes crises do passado, como
o crash da
bolsa de 1929 e o estouro da chamada bolha “pontocom” no início deste século.
Em ambos os casos, o Produto Interno Bruto (PIB) global sucumbiu e grandes
fortunas desapareceram da noite para o dia. Contudo, produtos relacionados a
esses dois eventos traumáticos, como o telefone e a internet, se propagaram
globalmente. Logo, o mesmo deve ser esperado da IA.
Por isso, o alerta de Georgieva deve ser
tratado com a urgência que merece por governos de todo o mundo. Ela sugere que
os benefícios gerados pela IA sejam distribuídos de modo justo entre a
sociedade.
Faz sentido. Se a IA aumenta a produtividade
e, potencialmente, os ganhos econômicos, mas, ao mesmo tempo, destrói empregos,
é desejável que haja alguma forma de compensação aos mais prejudicados, pelo
menos de forma transitória.
Para países como o Brasil, que estão muito
longe de estar na vanguarda da IA, os potenciais efeitos negativos sobre o
mercado de trabalho podem ser devastadores no longo prazo.
Se jovens altamente qualificados de nações
ricas já enfrentam barreiras cada vez maiores para conseguir um emprego, o que
dizer da juventude brasileira, que em sua maioria não tem acesso a uma boa
educação?
A situação de quase pleno emprego que o País
experimenta atualmente tampouco perdurará. A economia já vem desaquecendo e a
demanda por produtos e serviços tende a cair, o que só deve aumentar o estoque
de jovens disputando um espaço na chamada economia da uberização.
Além disso, como o Brasil não é líder no
desenvolvimento de IA, não tem exatamente como distribuir os benefícios da
tecnologia entre sua população. Supondo que os países desenvolvidos acordem que
compensarão a eliminação de milhares de postos de trabalho usando os ganhos de
produtividade da IA para criar uma espécie de renda mínima, o Brasil não está
em condições de replicar o mesmo modelo.
Por aqui, uma boa parte da população, por
negligência de governos em série, já vive de assistência social. O peso disso
nas contas públicas é crescente, donde se conclui que ampliá-la para compensar
as transformações profundas geradas pela IA será praticamente impossível.
Se os jovens do mundo desenvolvido estão
diante de um tsunami no mercado de trabalho, no Brasil, infelizmente, as
perspectivas parecem ser ainda mais sombrias.
Antissemitismo de manual
Por O Estado de S. Paulo
Ao tratar Epstein como peão do ‘lobby
judaico’, sociólogo dá aula de ódio aos judeus
O sociólogo Jessé Souza publicou um vídeo no
qual tomou a rede de tráfico e exploração sexual de menores criada por Jeffrey
Epstein como pretexto para reeditar as mais abjetas teorias antissemitas. Ao
fim e ao cabo, o indigitado atribuiu os crimes cometidos por um indivíduo –
que, por acaso, era judeu – a toda a coletividade judaica.
Ex-presidente do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) no governo Dilma Rousseff, professor da Universidade
Federal do ABC e autor de vários livros que perscrutam os traços distintivos da
nação brasileira, Jessé Souza é uma voz relevante no debate público. E foi
dessa posição de autoridade que o sociólogo fez de uma ignomínia o seu opróbrio
ao destilar o velho ódio contra os judeus em uma nova formulação igualmente
antissemita.
Como muitos de seus colegas na academia e
companheiros progressistas, Souza explora a suposta defesa do povo palestino
contra o que chama de “opressão” de Israel. Nesse sentido, odiar Israel e seu
povo equivale a odiar o “opressor”. Logo, a desumanização dos judeus em geral,
disfarçada como “antissionismo” – ou seja, a negação do direito dos judeus de
se autodeterminarem em um Estado –, não só está legitimada, como faz essa turma
dormir o sono dos justos.
Ao afirmar que Epstein seria “o produto mais
perfeito do sionismo judaico” e que agiria sob a influência de um “lobby
judaico”, Souza difundiu a ideia de que judeus controlariam instâncias globais
de poder e as utilizariam para ganhar dinheiro e encobrir seus crimes. Trata-se
de uma teoria conspiratória que atravessou séculos e ensejou
perseguições, pogroms e
violências que, em seu momento mais catastrófico, levaram ao Holocausto. A
ideia de um “complô internacional judaico”, associada à corrupção moral dos
judeus e à violência contra crianças, é a raiz do antissemitismo moderno.
De novidade no vídeo repugnante de Jessé
Souza, só a roupagem do preconceito. Em vez de um discurso abertamente
antissemita, a acusação veio empacotada como “crítica ao sionismo”. Em seu
simulacro de retratação, não por acaso, o sociólogo tentou se defender alegando
que, ora vejam, até tem “amigos judeus”.
A fronteira entre a crítica a um governo e a
desumanização de um povo é muito bem delimitada. Mesmo assim, Souza a violou
deliberadamente. Quando trata Israel como um Estado essencialmente criminoso e
sugere, como fez, que judeus acobertariam toda sorte de violências e abusos por
meio de maquinações ocultas em defesa de seus interesses, não se está mais na
arena do debate político. No vídeo se vê uma moral degenerada que pode,
eventualmente, configurar crime.
No moderno antissemitismo à esquerda, didaticamente explicado por Jessé Souza em seus vídeos, a defesa dos direitos humanos é seletiva e cínica, pois não vale nem para os judeus atacados por terroristas palestinos nem para os cidadãos iranianos massacrados pelo regime dos aiatolás. E a defesa dos palestinos é mero pretexto para o exercício do mais puro ódio aos judeus – que nesse contexto, como acontece historicamente, servem como bodes expiatórios para fracassados.
Instabilidade global ajuda a impulsionar as
desigualdades em saúde
Por Correio Braziliense
A gestão da saúde pública global é um dos
pontos nevrálgicos da atual crise de multilateralismo. Ajustar mercados pode
ser menos desafiante do que fechar as fronteiras para vírus ou controlar o
subir dos termômetros
Recorrendo ao conhecido discurso de ataque à
ciência, Donald Trump revogou, na última quinta-feira, a base legal de medidas
que visam proteger a saúde da população dos efeitos da crise climática, criada
na gestão de Barack Obama. Na percepção do atual chefe da Casa Branca, a
"determinação não tinha nenhuma base factual" e é "odiada"
pelos estadunidenses pelos custos gerados — o republicano estima uma economia
de US$ 1,3 trilhão (R$ 6,7 trilhões), chancelada pelo chefe da Agência de
Proteção Ambiental (EPA), Lee Zeldin. "Tenho orgulho de apresentar a maior
ação de desregulamentação da história dos EUA em nome dos contribuintes e
consumidores americanos", afirmou o administrador.
A ciência tratou de não deixar a dupla
falando sozinha. No mesmo dia em que a chamada constatação de perigo caiu por
terra, uma pesquisa divulgada na renomada revista científica Nature
Communications alertou que a fragmentação do mundo em relação ao enfrentamento
da crise climática leva a uma maior desigualdade em saúde, afetando sobretudo
as nações mais pobres, que têm menos controle sobre a qualidade do ar
respirado.
Enquanto Trump prometia, em um segundo
momento da revogação, derrubar as normas que regulamentam as emissões de gases
de efeito estufa de veículos, cientistas das universidades de Cardiff, no Reino
Unido, e do Colorado em Boulder, nos EUA, atestavam que melhorar a qualidade do
ar global pode salvar até 1,32 milhão de vidas por ano até 2040.
"Estratégias climáticas mais inclusivas exigem que se leve em conta explicitamente
a evolução das desigualdades transfronteiriças", enfatizou, em nota, Daven
Henze, coautor do estudo e professor da universidade estadunidense.
Prega a sabedoria popular que "qualquer
semelhança é mera coincidência". Mas essa sincronia nas declarações de
Trump e dos estudiosos do clima não tem nada de insignificante. O que o chefe
da Casa Branca anuncia agora com orgulho não surpreende. Vinte dias antes, ele
havia declarado que os Estados Unidos encerravam sua participação na
Organização Mundial da Saúde (OMS), cumprindo ordem executiva assinada poucas
horas depois de ser empossado, em janeiro de 2025. É imprescindível, porém, que
suas decisões não reverberem sem contraponto qualificado e responsável. Ainda
que haja uma perigosa sensação de que o enfrentamento a grandes dilemas da
atualidade não transcende ao campo declaratório, o silêncio enfraquece
instituições consolidadas — incluindo a ciência — favorecendo rupturas.
O texto assinado por Daven Henze e colegas
propõe a adoção de uma política climática "holística", que
"avalie o grau de dependência de uma nação em relação à redução de
emissões de outros países", levando a esforços globais que contribuam para
relações mais equânimes. Os cientistas concentraram-se no impacto das partículas
finas (PM2,5) no corpo humano — justamente os poluentes emitidos por veículos e
indústrias que queimam combustíveis fósseis —, mas o desafio é maior.
A gestão da saúde pública global é um dos pontos nevrálgicos da atual crise de multilateralismo. Ajustar mercados — buscando novos parceiros ou reorganizando dinâmicas internas — pode ser menos desafiante do que fechar as fronteiras para vírus ou controlar o subir dos termômetros. A pandemia da covid-19 e os sucessivos registros de calor recorde — incluindo a onda que matou mais de 60 mil moradores, em 2022, na Europa — sustentam a tese de que o mundo não enfrenta um mal-estar passageiro.

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