Folha de S. Paulo
Pesquisadores propõem modelo neorrealista
para entender ações de presidente dos EUA
Ele não defenderia interesses do país, mas os
da família, como numa corte de monarquia absolutista
Trocar as lentes que utilizamos para interpretar fenômenos pode esclarecer muita coisa. Richard Dawkins promoveu uma pequena revolução conceitual na biologia ao destacar, em 1976, que são os genes, e não o indivíduo ou a espécie, a unidade fundamental sujeita à seleção natural. São os genes que buscam perpetuar-se e, ao contrário de indivíduos e espécies, que têm data mais ou menos marcada para morrer ou extinguir-se, podem perdurar pelo tempo em que existir vida na Terra.
A mudança de lentes explica o que antes
parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma
exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de
genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa
gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo
oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que
prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.
Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma
troca de óculos para entender Donald Trump.
Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente
desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para
beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer
suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus
colaboradores próximos.
O modelo não é Metternich nem Maquiavel,
mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a
corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista
("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).
O interessante nessa abordagem é que ela
permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo
dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente
vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses
paroquiais.
A teoria tem corroboração empírica. Neste ano
de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.
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