Brasil encontrou rumo no combate ao desmatamento
Por O Globo
É preciso celebrar índices melhores, mas país
enfrenta outros desafios, como incêndios e criminalidade
É de bom augúrio a queda de 11% no desmatamento na Amazônia Legal em 2025 sobre o ano anterior, apurada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Se comparada a 2022, a perda de vegetação caiu pela metade. No ano passado, a área devastada foi estimada em 5.796 quilômetros quadrados, a menor em 11 anos e a terceira mais baixa da série histórica. Claro que a região ainda concentra problemas graves para além da questão ambiental, em particular o avanço do crime organizado, mas não deixa de ser um dado positivo.
No Cerrado, bioma mais refratário a quedas no
desmatamento por incluir a fronteira agrícola, também houve recuo. No ano
passado, foram devastados 7.235 quilômetros quadrados ante 8.174 no ano
anterior. A redução, de 11,5%, ficou no mesmo patamar do nível amazônico.
Quando comparada a 2022, ano em que foram registrados os recordes de
desmatamento no bioma, a redução chega a 32%.
Dos 81 municípios que mais desmatam na
Amazônia, 70 aderiram a um programa do governo federal que oferece apoio no
combate aos crimes ambientais. De acordo com o secretário extraordinário de
Controle do Desmatamento, André Lima, as prefeituras recebem computadores,
caminhonetes, lanchas, motos, drones, consultores em geoprocessamento e
internet por satélite para que possam acompanhar as ocorrências em tempo real.
A queda do desmatamento nesses municípios chegou a 66%. Isso mostra que o
trabalho integrado, com base em tecnologia e conhecimento científico, é um
caminho promissor.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva,
celebrou a queda no desmatamento, lembrando que ela não tem impedido o
crescimento do agronegócio. É verdade. Mas os números positivos refletem apenas
parte da questão. No período mais recente analisado pelo Inpe, de agosto de
2025 a janeiro deste ano, houve aumento de 45% no desmatamento do Pantanal,
contrastando com quedas na Amazônia e no Cerrado. É preciso investigar as
causas e buscar medidas para combatê-las.
Os incêndios florestais são outro problema
que o país tem dificuldade para enfrentar. Oscilam mais em função do regime de
chuvas que propriamente de ações dos governos. De acordo com o programa Queimadas,
do Inpe, de 1º de janeiro a 12 de fevereiro deste ano, os focos de calor na
Amazônia aumentaram 75% em relação ao mesmo período do ano passado. É um sinal
de alerta.
A criminalidade na Amazônia Legal também tem
sido fonte de preocupação. É estarrecedora a constatação de que quase metade do
território dos nove estados da região está tomada por facções criminosas. Elas
atuam não só no narcotráfico, mas também em crimes ambientais, como extração
irregular de madeira e garimpo ilegal. Dos 772 municípios, 344 registram a
presença de ao menos um grupo criminoso, segundo estudo do Fórum Brasileiro de
Segurança Público em parceria com o Instituto Mãe Crioula. Os vários tipos de
crime se entrelaçam, impondo enormes desafios às autoridades.
É legítimo celebrar a queda do desmatamento
na Amazônia e no Cerrado — os índices precisam continuar caindo, e em todos os
biomas. Os bons números não encobrem, contudo, outros problemas ambientais que
fustigam essas regiões. São um passo importante, especialmente se o país sonha
cumprir a meta de desmatamento zero até 2030. Mas a caminhada ainda é longa.
CNJ acertou ao punir juiz que libertou líder
do PCC condenado a 126 anos
Por O Globo
Infelizmente, lei permite que ele continue a
receber vencimentos. Congresso deveria acabar com regalia
Foi acertada a decisão do Conselho Nacional
de Justiça (CNJ)
de determinar, de forma unânime, a aposentadoria compulsória do desembargador
Divoncir Schreiner Maran, do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. Em
2020, ele autorizou a prisão domiciliar de Gérson Palermo, conhecido como
Pigmeu, chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC) condenado
a 126 anos de prisão por tráfico internacional de drogas.
O benefício foi concedido durante um plantão
judiciário em meio à pandemia, com base num “quadro de saúde supostamente
debilitado”, mesmo sem laudo médico. O habeas corpus tinha mais de 200 páginas,
mas foi analisado em 40 minutos. Embora Maran tenha determinado uso de tornozeleira
eletrônica, o preso, considerado de alta periculosidade e dono de uma folha
corrida que inclui o sequestro de um Boeing em 2000, rompeu o equipamento e
fugiu. Não foi mais encontrado.
O relator do processo, conselheiro João Paulo
Schoucair, considerou que o caso “extrapola os limites da independência
judicial e revela grave desvirtuamento da função jurisdicional”. O CNJ decidiu
aplicar ao magistrado a pena administrativa máxima prevista na Lei Orgânica da
Magistratura Nacional (Loman) — ele havia pedido aposentadoria voluntária em
2024. Apesar da punição, a legislação permite a manutenção de vencimentos
proporcionais ao tempo de serviço. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, o CNJ
encaminhou cópias do processo à Procuradoria-Geral do Estado de Mato Grosso do
Sul para que a remuneração seja cassada.
Sanções desse tipo são questionáveis porque
não funcionam como punição. No Congresso, já existem propostas para acabar com
tal distorção, infelizmente prevista na lei. Os parlamentares deveriam se
apressar em acabar com a regalia, de preferência no âmbito da reforma
administrativa que tramita na Câmara.
O cumprimento da pena é a conclusão de um
longo processo que envolve esforços da polícia, do Ministério Público e de
diferentes instâncias da Justiça. A decisão de manter alguém encarcerado não é
arbitrária, está baseada na letra da lei. Um detento condenado a 126 anos de
prisão precisa ficar afastado do convívio social, pelos riscos que representa à
sociedade. É óbvio que tudo isso precisa ser levado em conta antes da concessão
de benefícios.
A grave crise de segurança que o Brasil atravessa não diz respeito apenas à polícia e ao Ministério Público, mas também à Justiça. Todos precisam dar a sua contribuição para que o país reverta os altos índices de violência que aterrorizam a população. Se é difícil prender chefes de quadrilha, por todas as deficiências já conhecidas, não faz sentido soltá-los num piscar de olhos, sob alegações controversas. Alguém acredita que retornarão? Embora não reverta o dano, a decisão do CNJ pode ter ao menos efeito pedagógico.
Bajulação petista na Sapucaí
Por Folha de S. Paulo
Invertendo a lógica do Carnaval, escola de
samba exalta presidente da República que disputará reeleição
O TSE, corretamente, não impediu o desfile,
mas cabe à corte avaliar se houve infrações no evento, do qual Lula deveria ter
se afastado
O Carnaval é
uma festa popular marcada historicamente por inversão de papéis sociais e
suspensão de hierarquias. Por meio da sátira e da caricatura, autoridades viram
alvo de zombarias, seja em fantasias ou marchinhas. Até mesmo o samba-enredo,
gênero mais narrativo e solene, frequentemente se apoia nessa chave crítica.
Mas a escola de samba Acadêmicos de Niterói
resolveu subverter a lógica carnavalesca e exaltar não apenas um político vivo,
mas que atualmente ocupa o cargo de presidente da República e pretende disputar
o pleito neste ano.
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
o homenageado, deveria ter ser afastado do evento. Contudo assistiu ao desfile
de camarote e, ao final, ainda desceu ao sambódromo da Sapucaí para
cumprimentar integrantes da agremiação.
Por óbvio, a situação levantou uma discussão
sobre ilícitos eleitorais, e cabe à Justiça avaliá-los. Antes mesmo do desfile
no domingo (15), duas ações contra Lula, o PT e a escola foram levadas ao
Tribunal Superior Eleitoral.
A corte, corretamente, não impediu o
desfile porque configuraria censura prévia, mas a ministra Cármen Lúcia disse
que há "risco muito concreto, plausível, de que venha acontecer algum
ilícito" no caso, o que seria analisado posteriormente pelo TSE.
Duas possíveis infrações são consideradas:
propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder político. Especialistas
ouvidos pela Folha divergem.
Para uma vertente, a referência ao famoso
jingle do petista ("Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula"), ao seu mote
nas eleições de
2022 ("o amor venceu o medo") e ao número do partido ("treze noites,
treze dias") na letra do samba poderiam caracterizar propaganda eleitoral
antecipada.
Tal infração se dá com pedido direto de voto
—como "vote", "apoie"— ou indireto, por meio de
"palavras mágicas", que são expressões similares à solicitação
explícita. A outra vertente, contudo, não associa os elementos da canção ao
pleito deste ano, o que afastaria a ilicitude.
Em relação ao abuso de poder, debate-se o
subsídio federal fornecido pela Embratur a
todas as escolas de samba do grupo de elite do Carnaval carioca. De um total de
R$ 12 milhões, cada uma, incluindo a Acadêmicos de Niterói, recebeu R$ 1
milhão.
O desfile também ridicularizou
opositores de Lula, representando Jair
Bolsonaro (PL) como o palhaço Bozo, e
setores da sociedade refratários ao petismo, caso do agronegócio e dos
evangélicos.
O cabotinismo do presidente aprofundou ainda
mais a controvérsia, que já era evidente antes do domingo. Faz bem à democracia
que ocupantes do cargo máximo do Executivo evitem comportamento
auto-laudatório.
A liberdade da manifestação artística, como
um desfile carnavalesco, é princípio constitucional que deve ser preservado.
Agora cabe ao TSE verificar se essa garantia foi usada para infingir normas do
processo eleitoral.
Incertezas e desequilíbrios enfraquecem o
Plano Clima
Por Folha de S. Paulo
Agropecuária e energia lograram metas
modestas; governo parece confiar demais na redução do desmate
Transparece que pastas ligadas ao
desenvolvimento saíram vitoriosas sobre as pautas do Ministério do Meio
Ambiente e Mudança do Clima
Quase dois meses transcorreram entre a
aprovação do Plano Clima e a publicação
de um sumário executivo, com poucos detalhes sobre setores
específicos. O que o Planalto deu a público, porém, autoriza ceticismo sobre
sua capacidade de contribuir significativamente contra o aquecimento global.
As metas para o Acordo de
Paris preveem redução entre 59% e 67% das emissões nacionais de
carbono até 2035, considerado o ano base de 2005. Está correta a orientação do
governo federal de compatibilizar tal intenção com o crescimento da economia,
mas persistem dúvidas sobre ter eleito vias eficazes para tanto.
Incertezas cercam objetivos fixados para duas
áreas decisivas, agronegócio e energia. Em ambas, transparece que pastas
desenvolvimentistas da Esplanada saíram vitoriosas sobre as pautas do
Ministério do Meio Ambiente e
Mudança do Clima (MMA).
A agropecuária é a principal fonte de gases
do efeito estufa no Brasil. A maior fatia da poluição climática gerada no campo
provém do desmatamento,
e o jeitinho adotado no plano foi diminuir seu peso nos objetivos do setor.
O documento concentra o grosso do recuo nas
terras públicas, que em 2022 emitiam com desmate 448 milhões de toneladas de CO2 equivalente
(MtCO2 e) e passariam a sequestrar carbono à taxa anual de 248 MtCO2 e
em florestas regeneradas ou plantadas. Ou seja, o governo conta aí com emissões
negativas.
Áreas rurais privadas também alcançariam
emissões negativas com a mudança no uso da terra, mas bem menores (30 MtCO2e ).
E a agropecuária nelas praticada poderá aumentar suas emissões de 643 MtCO2e em
2022 para 653 MtCO2e em 2035, uma bênção para produtores rurais refratários a
conter o desflorestamento.
O setor de energia se viu agraciado com alta
prevista das emissões, de 80 MtCO2e para 115 MtCO2e. Clara demonstração de que
o governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
resiste a cogitar desembarque dos combustíveis fósseis.
Até o crescimento das energias eólica e
fotovoltaica desponta como problema (curtailment), não como vetor de
descarbonização.
Em lugar de planejar redes de distribuição
aptas a manejar a intermitência desses modais, um parque para armazenar
eletricidade e até
expansão da geração nuclear, persiste o modelo de garantir
estabilidade no sistema com termelétricas a gás e carvão.
O Brasil pode fazer bem mais pelo clima do que confiar de modo irrazoável em redução do desmate e aumento da recuperação florestal em proporções nunca antes vistas na história deste país.
A autocontenção como virtude republicana
Por O Estado de S. Paulo
Em meio à atual crise de confiança, o Supremo
Tribunal Federal precisa reencontrar os limites de seu papel constitucional e
reafirmar a autocontenção como fundamento de sua legitimidade
Quanto maior o poder, maior deve ser a
disposição para abrir mão dele. Assim ensina a boa cultura democrática, que
funciona como dique contra arroubos autoritários e desvios constitucionais. A
máxima pode soar paradoxal numa realidade política em que a autoridade costuma
ser medida pela capacidade de decisão e mando. Nas democracias constitucionais,
porém, a força de uma instituição se revela tanto na extensão de suas
competências quanto na consciência clara de seus limites. Isso é ainda mais
verdadeiro quando se trata de um tribunal.
É o caso do Supremo Tribunal Federal (STF),
hoje no epicentro de uma crise de confiança sem precedentes na história
brasileira. A dificuldade, mesmo diante de evidências abundantes, para afastar
o ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, decisão só consumada
quando se tornou incontornável; o debate sobre a participação de ministros em
eventos patrocinados por grandes empresas; os inquéritos sem prazo definido
conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes; o excesso de protagonismo e
exibicionismo; as declarações públicas sobre casos que ainda irão julgar; e a
atuação política evidente – tudo isso abriu uma ampla janela de interrogações
sobre a imparcialidade e o distanciamento dos princípios republicanos que devem
reger a Corte.
Não é preciso ir longe na teoria. Alexis de
Tocqueville, pensador político francês do século 19 e intérprete das
democracias modernas, já advertia que o Poder Judiciário é poderoso, mas sua
força depende da confiança pública. Isso o torna simultaneamente forte e
frágil: forte porque suas decisões moldam a vida pública; frágil porque sua
autoridade repousa na confiança da sociedade. Essa confiança não se sustenta
apenas no rigor técnico dos votos, mas sobretudo na percepção de imparcialidade
e autocontenção.
O poder que se limita é o poder que se
preserva. Por isso há uma longa tradição anglo-saxã do chamado judicial restraint, doutrina
segundo a qual o Judiciário deve exercer suas competências com máxima cautela,
intervindo o mínimo possível nas decisões dos demais Poderes e evitando
expandir seu próprio alcance além do estritamente necessário à Constituição. Em
síntese, a legitimidade da Corte se fortalece quando ela sabe não decidir – ou
decidir menos – sempre que a Constituição permitir deferência institucional.
Os episódios recentes envolvendo Alexandre de
Moraes e, sobretudo, Dias Toffoli mostram que impedimento e suspeição não são
artifícios processuais, mas mecanismos de proteção institucional. Ao se afastar
de casos em que haja dúvida razoável sobre sua imparcialidade, o magistrado
fortalece a própria Corte. Essa higiene republicana funciona como blindagem
contra a erosão do capital de legitimidade que nenhuma decisão erudita recompõe
depois de perdido.
O que está em jogo é a percepção de que o STF
precisa reencontrar com clareza os limites constitucionais de seu papel,
evitando excessos que fragilizem sua própria autoridade. A crítica deste jornal
não é um ataque à instituição, mas um convite à prudência. A autocontenção,
nesse sentido, é virtude republicana comparável à prudência do estadista
clássico: longe de sinal de fraqueza, trata-se de maturidade democrática e
institucional.
A legitimidade de uma Corte é tanto questão
de substância quanto de percepção. No passado, Rui Barbosa já defendia uma
magistratura que não apenas fosse incorruptível, mas também parecesse assim,
reafirmando princípio essencial da tradição republicana: ninguém está acima da
lei. Quando um magistrado opta por se declarar impedido, reafirma publicamente
a segurança do sistema judicial, reduz tensões entre os Poderes e protege a
instituição de contestações que podem se alastrar como crise de confiança.
Trata-se, em essência, de prática republicana clássica: a autocontenção como
instrumento de autocuidado institucional.
A função do Supremo não é apenas julgar com
rigor técnico, mas preservar o arcabouço moral que sustenta a democracia. A
virtude republicana da autocontenção é, nesse sentido, pilar silencioso, porém
decisivo, da legitimidade judicial e, por extensão, da própria ordem
constitucional.
Que esse debate e as lições recentes inspirem
o bom juízo do STF, antes que a erosão da confiança se torne irreversível.
Um bom sinal vindo dos EUA
Por O Estado de S. Paulo
Ao se dispor a processar terras raras no
Brasil, americanos parecem enxergar o País como parceiro. Cabe a Lula definir
prioridades sobre minerais críticos e manter-se sensato nas negociações
Superado o período belicoso que marcou a
relação entre Brasil e EUA no início do segundo mandato do presidente Donald
Trump, os americanos começam a emitir sinais de que enxergam no Brasil um
parceiro de muito potencial – e não um inimigo a ser punido com tarifas que, se
de forma geral já são uma excrescência, no caso brasileiro fazem ainda menos
sentido, já que o Brasil tem relação comercial deficitária com os EUA.
Nesse contexto, é muito bem-vinda a
declaração do secretário-adjunto de Estado americano, Caleb Orr, de que os EUA
estão dispostos a processar minerais críticos como as chamadas terras raras em
solo brasileiro.
O Brasil concentra a segunda maior reserva de
terras raras do mundo, atrás apenas da China. Além de terem mais que o dobro
das reservas brasileiras, os chineses praticamente detêm um monopólio do refino
desses minerais de extrema importância para a produção de semicondutores e
baterias elétricas, entre outros equipamentos de alto valor agregado.
Tamanha vantagem garante à China extremo poder
de fogo na disputa pela primazia global com os EUA. Em meio à guerra
geopolítica e comercial com Trump, Pequim chegou a impor restrições severas à
exportação de seus minerais críticos para todo o mundo. Embora o pior dessas
limitações tenha passado, a China pode muito bem optar por segurar novamente as
exportações de suas terras raras, das quais o mundo tornou-se bastante
dependente.
Também por isso os EUA tratam o Brasil agora
de forma bem diferente da que resultou no tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros
em julho passado, medida descabida e já parcialmente revertida. Confirmada a
visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca, o que deve
ocorrer no início de março, Washington e Brasília tratam agora de estabelecer
uma agenda de interesse comum neste momento de aparente maturidade da relação
entre Lula e Trump.
“Acreditamos que o Brasil seja um parceiro
muito promissor para os EUA. Nossa abordagem reconhece que as cadeias de
suprimentos exigem parcerias sólidas, seja por meio do processamento no Brasil,
nos EUA ou em ambos, e esperamos continuar trabalhando com o Brasil”, afirmou o
representante do Departamento de Estado.
Do lado brasileiro, tem prevalecido a
posição, correta, de que o País não pode repetir, com as terras raras, o
equívoco de ser um mero fornecedor de matérias-primas para o mundo. Em
declarações ao UOL, o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, afirmou
que o posicionamento dos EUA “pode ser visto como positivo”, mas que a questão
não é apenas processar as terras raras domesticamente. Segundo ele, o Brasil
precisa “definir nossas necessidades (inteligência artificial, defesa, alta
tecnologia) e só exportar o excedente”.
Por razões óbvias, os interesses do Brasil
devem vir em primeiro lugar, o que só reforça que as necessidades do País sejam
definidas o quanto antes, ainda mais diante do potencial das reservas de terras
raras brasileiras e do evidente atraso brasileiro na exploração e
comercialização desses recursos.
Enquanto por aqui ainda não se tem clareza
sobre como o Brasil deseja se beneficiar economicamente de recursos naturais
tão cobiçados, a China segue soberana nessa seara. Já os EUA, ao mesmo tempo em
que mostram disposição em estabelecer uma parceria com o Brasil, também correm
atrás de outros sócios. Recentemente os americanos reuniram representantes de
dezenas de países, incluindo a União Europeia, para tratar do tema.
Na posição de detentor de reservas
significativas, o Brasil pode, e deve, negociar com os americanos, mas sem
ceder exclusividade, ou seja, sem alienar a China. O próprio representante do
Departamento de Estado apontou para essa direção, ao declarar que estão
buscando qualidade e diversificação de parcerias. “Não queremos retaliar a
China”, afirmou Orr.
Tudo indica que, nas tratativas com seus dois
principais parceiros comerciais, China e EUA, o Brasil vem se norteando pelo
pragmatismo, o que é uma excelente notícia.
A poluição sonora em números
Por O Estado de S. Paulo
Dados oficiais do Psiu provam que os
paulistanos têm razão: a cidade está mais barulhenta
O canal de atendimento ao cidadão da
Prefeitura de São Paulo registrou recorde de reclamações de barulho. De acordo
com o balanço do 156, quase 50 mil queixas foram apresentadas pelos paulistanos
ao longo de 2025 no Programa Silêncio Urbano, mais conhecido como Psiu.
Trata-se do maior volume de reclamações de
toda a série histórica, iniciada em 2012. Com isso, os dados oficiais confirmam
uma realidade perturbadora: a cidade de São Paulo está mais barulhenta, o caos
sonoro se espalhou por todas as regiões e esse excesso de ruído tem incomodado
bastante.
E sobram exemplos de infrações que ocorrem
todos os dias pela capital paulista. São motos, carros, ônibus e caminhões que
emitem dos motores ou pelos escapamentos ruídos bem acima do tolerável. Bares,
restaurantes, casas noturnas e casas de show que estendem irregularmente suas
atividades privadas sobre as calçadas nas vias públicas. E obras, tanto
públicas como privadas, que não raro nas madrugadas tiram o sossego dos
paulistanos, privando-os de uma noite tranquila de sono.
Não à toa, em meados do ano passado,
paulistanos de diversas regiões se uniram para formar a Frente Cidadã pela
Despoluição Sonora. Num manifesto, o grupo listou os danos à saúde física e
mental causados pela exposição a ruídos excessivos: doenças auditivas, doenças
cardiovasculares, distúrbios do sono, estresse, ansiedade e depressão. Ou seja,
todo esse barulho adoece.
A gestão Ricardo Nunes parecia ter se
sensibilizado, ao menos um pouco, com as queixas da população. Numa decisão
acertada, no fim do ano passado, a Prefeitura proibiu a concessionária Viva o
Vale de realizar shows depois das 23 horas no Vale do Anhangabaú a partir deste
ano. A medida foi adotada após moradores da região central reclamarem de ter
suas residências invadidas pelo alto ruído das apresentações e pelos fortes
canhões de luzes dos festivais musicais.
Mas a Prefeitura, ao que tudo indica,
preferiu seguir na contramão do desejo dos paulistanos. Isso porque, enquanto
cresce a insatisfação com a poluição sonora na cidade, a administração
municipal decidiu flexibilizar ainda mais as regras de fiscalização e de
combate ao barulho.
Prova disso é que a gestão Nunes recorreu
recentemente ao Supremo Tribunal Federal (STF) para defender uma mudança na lei
do Psiu que visa a liberar o barulho nos arredores de grandes shows. Ou seja, a
população não teria o direito de reclamar, nem o poder público teria o dever de
punir os infratores.
Para a Prefeitura, o Tribunal de Justiça de
São Paulo (TJ-SP), ao derrubar essa mudança na lei aprovada pela Câmara
Municipal num projeto sobre um aterro sanitário na zona leste, elevou “o
direito ao sossego a um patamar de quase absolutismo”. Nenhum direito é
absoluto, tampouco os deveres do poder público deveriam ser tão relativos.
Os paulistanos não estão mais sensíveis ao barulho: eles estão muito inconformados, e com razão, com a crescente poluição sonora na cidade em que vivem. Não à toa, pedem socorro. Por tudo isso, os números do Psiu e a intensa mobilização da população não podem ser ignorados.
Cresce no Congresso rejeição a tarifaço
impopular de Trump
Por Valor Econômico
Trump se equilibra entre tarifas e sentimento
popular diante de uma eleição que, caso perca nas duas Casas do Congresso,
porão um fim em sua carreira política
A saga tarifária do presidente americano
Donald Trump enfrenta seus maiores percalços agora. Setores republicanos do
Congresso começaram a se insurgir contra a aplicação de punições comerciais a
aliados históricos, como o Canadá, e a Câmara dos Deputados aprovou projeto que
barra tarifas sobre o país vizinho, no momento em que Trump sugere que o acordo
com México e Canadá, vigente desde 1994, não vale para nada e deve acabar. A
Suprema Corte americana, além disso, pode dar a qualquer momento seu veredito
sobre se é válida ou não a base jurídica sobre a qual o presidente erigiu seu
muro tarifário, a lei de emergência econômica internacional, nunca utilizada
antes por um ocupante da Casa Branca para elevar a proteção a bens e serviços
do país.
Trump, como era esperado, vem reajustando seu
foco de acordo com a reação interna e externa ao choque do "dia da
libertação". Depois de uma resposta à altura da China, que ameaçou
interromper o fornecimento de terras raras, da qual é o principal produtor e
refinador mundial, o governo americano reduziu os impostos de importação de 45%
a uma média de 32%.
A Índia, a única companheira do Brasil ao
receber a maior taxação de todas, 50%, e ser reiteradamente acusada por Trump
de discriminar exportações americanas e ser a maior compradora do petróleo russo,
fechou um entendimento com os EUA em 7 de fevereiro. Os 50% foram reduzidos
para 25% e, depois aos 18% de tarifas "recíprocas", como
contrapartida à aceitação do primeiro ministro Narendra Modi de abertura
comercial, com compra de US$ 500 bilhões em mercadorias americanas e o
compromisso de não mais adquirir óleo russo.
Novos lances de Trump na área comercial
incluem uma revisão dos exageros protecionistas sobre aço e alumínio, insumos
básicos, usados de carros a fogões a porcas e parafusos, também contemplados
com proteção de 50%. Um dos motivos é que o controle de bens que os utilizam é
um pesadelo. O outro foi que os preços subiram. Os efeitos sobre a inflação
foram sentidos imediatamente pelos consumidores e pelos radares políticos da
Casa Branca: há eleições em outubro para renovar toda a Camara dos Deputados e
um terço do Senado. O presidente tem maioria nas duas Casas, o que lhe dá
grande margem de manobra para agir a seu bel-prazer.
As tarifas não são bem vistas pelo consumidor
americano. Pesquisa recente da Pew indicou que 60% dos adultos a desaprovam,
entre eles 25% dos eleitores republicanos. Essa é mais ou menos a mesma
proporção dos que acreditam que o atual governo não está fazendo um bom
trabalho na economia. Estudo do Federal Reserve de Nova York lhes dá razão, ao
constatar que 90% dos aumentos decorrentes dos impostos de importação recaíram
sobre empresas e consumidores americanos, como todo mundo previa, menos Trump.
Já a organização independente Tax Foundation fez um cálculo levando em consideração
as tarifas nos níveis atuais e concluiu que cada americano teve de dispender
US$ 1 mil a mais no ano passado em função delas e gastarão com isso mais US$
1,3 mil em 2026.
O descontentamento foi captado no Congresso,
onde os republicanos fiéis a Trump têm votado como um só homem a favor das
políticas do presidente. O monolito mostrou rachaduras. Na semana passada, 3
republicanos romperam a tênue maioria de 217 da legenda ante 213 democratas e
invalidaram o boicote vigente ao exame de qualquer projeto de lei que tente
mudar ou eliminar tarifas. A minirebelião se ampliou na quarta passada, quando
6 republicanos se alinharam à oposição para votar uma resolução que proíbe os
EUA de taxarem o Canadá. Trump tem poderes para vetar o que foi decidido, mas a
defesa de Mike Johnson, líder republicano na Casa, não chegou a inspirar
confiança. Na prática, ele pediu uma trégua até que a Suprema Corte julgue se o
instrumento legal para o presidente declarar uma guerra comercial ao mundo
compete a ele ou é atribuição do Congresso, como sempre foi.
O Federal Reserve, o banco central americano,
estima que ainda haverá efeito das tarifas sobre os preços neste ano, mas
declinantes e efêmeros. O estudo do Fed de NY indica que os repasses estão
diminuindo gradualmente, e o índice de inflação ao consumidor de janeiro caiu
mais que o previsto, de 2,7% para 2,4%, com seu núcleo (2,5%) apresentando o
menor resultado em cinco anos. É uma boa notícia pela metade para Trump: a
abertura de vagas de emprego deu um salto em janeiro, mostrando vigor no
mercado de trabalho, o contrário da suposição que levou o Fed a reduzir os
juros em suas últimas reuniões.
Trump se equilibra entre tarifas e sentimento popular diante de uma eleição que, caso perca nas duas Casas do Congresso, porão um fim em sua carreira política. A agressividade protecionista está se deslocando para a amistosidade, que pode beneficiar o Brasil. Na votação da Câmara que veta tarifação do Canadá foi mencionado que o tratamento dado ao Brasil também é injusto. A investida para revogar o USMCA, que une EUA, México e Canadá em um mercado de US$ 2 trilhões, tende a ser abandonada e jogada no baú de péssimas ideias do presidente.
Consumo abusivo de álcool é desafio nacional
Por Correio Braziliense
É preciso que o Brasil comece a combater o
consumo de álcool como guerreou contra o tabagismo a partir dos anos de 1980 —
sobretudo no campo da conscientização
Quando se fala no combate ao consumo abusivo
de álcool, o depoimento de pessoas que conviveram, ou ainda convivem, com a
doença é fundamental para conscientizar quem enfrenta a árdua batalha. Em
vídeos recentes publicados em seu canal no YouTube, o músico Nando Reis,
ex-Titãs, abriu o jogo e falou com detalhes sobre os maus bocados que passou
por conta da dependência — sobretudo da vodca. São falas fortes e de enorme
interesse público em um país que contabiliza quatro hospitalizações por hora
justamente por esse problema, segundo dados do anuário Álcool e a saúde dos
brasileiros: panorama 2025.
Vivemos em uma sociedade que banaliza
perigosamente o consumo do álcool. As gerações X (nascidos entre 1965 e 1980) e
Y (de 1981 a 1996) cresceram em meio à celebração contínua da cervejinha e dos
drinks em cada reunião de família. Bebia-se muito cedo, já na adolescência, sem
qualquer problematização ou julgamento dos pais e demais responsáveis. O tempo
passa, porém, e os danos do perigoso hábito começam a se manifestar na vida
adulta — ao menos sete tipos de câncer, por exemplo, são associados à
substância.
Em seu depoimento, Nando Reis destaca que o
mais difícil é evitar "o primeiro gole". A partir dele, a pessoa
dependente não consegue colocar o pé no freio e consome mais do que havia
combinado consigo mesma. É um caminho sem volta, desabafou o artista, hoje
em recuperação e sem beber há cerca de 10 anos. O músico só conseguiu superar o
vício ao ver a carreira por um fio, quando compareceu bêbado a um ensaio para
se apresentar com Gilberto Gil. Todos perceberam, pegou mal na frente do maior
ídolo.
O limite social entre o tolerável e o
perigoso, no caso do álcool, é difuso. No quesito fisiológico, autoridades são
taxativas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há dose segura
para o consumo. Inclusive, o chamado "binge drinking", o exagero
restrito aos fins de semana, um padrão comum no Brasil, pode ser tão
prejudicial para a saúde quanto a ingestão diária da substância. Ainda que a
metabolização do álcool varie de acordo com aspectos físicos e genéticos, o
impacto é certeiro em qualquer cenário.
Diante disso, é preciso que o Brasil comece a
combater o consumo de álcool como guerreou contra o tabagismo a partir dos anos
de 1980 — sobretudo no campo da conscientização. A aceitação cultural da
ingestão, por vezes, dificulta o entendimento dos riscos da substância.
Inclusive os riscos sociais: o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran),
por exemplo, trabalha com a estimativa de que 30% dos acidentes fatais no
Brasil envolvem motoristas que estavam sob efeito de álcool. Exige-se,
portanto, estratégias atualizadas e eficazes para vencer esses e outros
obstáculos.
A boa notícia fica com a nova geração, formada por pessoas nascidas a partir de 1997, que tem se dedicado a novos rumos para o lazer e as celebrações. Pesquisa do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) aponta que a abstinência passou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos. Esse, sim, precisa ser um caminho sem volta.
Regulamentação e transparência algorítmica
Por O Povo (CE)
Não mais que meia dúzia de big techs controlam
praticamente tudo o que transita pela internet
Com o surgimento das novas tecnologias e o
lugar central que passaram a representar na vida cotidiana, o uso abusivo de
redes sociais por crianças e adolescentes tornou-se preocupação de pais, mães,
autoridades governamentais e de estudiosos do assunto. Desenhadas para causar
dependência e com algoritmos agindo no mesmo sentido, dezenas de países ao
redor do mundo buscam formas de lidar com esse fenômeno, principalmente para
proteger crianças e adolescentes, o elo mais fraco de uma corrente que arrasta
à dependência.
Jovens expostos com frequência às redes
sociais sofrem efeitos deletérios como ansiedade, depressão, baixa autoestima,
queda no rendimento escolar, dificuldade de interações pessoais na vida real,
entre outros males.
Os adultos também estão sujeitos a
consequências graves, como abalo na saúde mental, queda de produtividade e
conflitos familiares, decorrentes do uso excessivo das redes.
À plataforma de notícia Deutsche Welle (DW),
em reportagem publicada pelo O POVO (15/2/2026), o pesquisador do Instituto
Bruegel (Bélgica), Paul O. Richter, disse haver "muitas pesquisas que
mostram fortes correlações entre o uso de redes sociais e problemas de saúde
mental". Para Richter, "o foco específico em menores de idade se deve
ao aumento de danos a longo prazo, já que os jovens ainda estão em
desenvolvimento cognitivo.
Por isso, cada vez mais países, incluindo o
Brasil — com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA Digital —, estão
criando leis para regular as redes ou mesmo proibindo o seu uso por menores de
16 anos. Assim fez, pioneiramente, a Austrália, com uma lei que entrou em vigor
no mês de dezembro de 2025. França e Espanha cogitam tomar medida parecida.
Entretanto, as big techs, apesar dos estudos
mostrando os malefícios causados pelas redes, respondem violentamente a
qualquer medida que vise estabelecer algum tipo de regulamentação. Segundo a
DW, o proprietário da rede X, Elon Musk, classificou como "tirano e
traidor do povo espanhol" o primeiro-ministro da Espanha, pelo fato de o
parlamento do país manter o assunto em pauta.
Na verdade, Musk quer politizar um assunto
que deveria ser mantido no terreno da saúde pública. Com um discurso populista,
em favor de uma suposta "liberdade de expressão", ele quer manter
seus lucros astronômicos, além dos brutais dividendos políticos proporcionados
por uma rede, com imenso poder de influência.
Além da empresa de Musk, não mais que meia dúzia de big techs controlam praticamente tudo o que transita pela internet, por meio de aplicativos, cujos algoritmos funcionam de forma obscura, sob o estrito controle de seus donos. Essa pequena elite digital detém um poder desproporcional e antidemocrático. Disso decorre que eles devem à sociedade, no mínimo, a transparência algorítmica, além de submeterem suas atividades à regulamentação.

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