terça-feira, 11 de abril de 2023

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Gozo eterno e amplo: a banalização do esperma

O tema não compete ainda na mídia com a agenda de Lula na viagem à China, com a mudança da meta da inflação, e nem com a simulação do ataque dos chineses à Taiwan. Mas já é possível navegar em catálogos digitais como instruções sobre contratar barrigas de aluguel, fertilização in vitro, comprar ou vender sêmen humano com potencial para alterar estruturas familiares, a composição étnica de uma comunidade ou transformar as relações sociais no mundo.  Em alguns países esses temas   já são tratados em políticas públicas.

Instala-se vagarosamente no mercado uma rede internacional de comércio de órgãos humanos, da qual o Brasil participa, e que faz, por exemplo, do esperma humano um produto de consumo. Os bancos de sêmen, com fornecedores regulares, a preço que varia entre US$ 35 a US$ 80 por amostra, já   movimentam por ano US$ 4,5 bilhões, com projeções para chegar a US$ 5,7 bilhões nos próximos quatro anos. Os clientes são casais inférteis ou aqueles que perderam entes queridos nesses conflitos bélicos internos e externos. 

Concomitante, a   ficção tem avançado muito para além disso, assustando quem toma dela conhecimento. O comércio de esperma, responsável pela reprodução humana artificial, trafega por um caminho tortuoso, em que inclui a formação até de combatentes do tipo robocop ou assemelhado. Sim, vale o ceticismo, mas não se pode esquecer que o imaginário de Júlio Verne envolvia viagens submarinas e aéreas, foguetes espaciais e outras tecnologias que só existiam na sua cabeça.

Nada disso devia ser novidade. Desde as alianças entre Deus e Abrão, essas questões já eram debatidas. Agar, serva de Sara, esposa de Abraão, com o consentimento prévio de todos, teve sua barriga usada pelo patriarca, e com ele gerou um primeiro filho, Ismael, provocando posteriormente um problema enorme nas relações familiares. Fugiu para o deserto, e lá encontrou   Deus que mandou retornar para ter novos filhos com Abraão, por meio dos quais, prometeu, surgiriam grandes nações, que seriam os árabes. Por outro lado, assegurou à Sara dar-lhe também um filho, Isaac, do qual emergeria uma enorme descendência, proveniente dos gêmeos Esaú e Jacó, patriarca dos israelitas.  

Embora o caso de Abrão tenha sido historiografado em relatos bíblicos, no livro de Gênesis, ele foi sacralizado por religiosos como uma evidência da existência e do poder de Deus, distinguindo o fato    da vida cotidiana do homem comum. Mas, a roda da cultura gira e a civilização não para. Vai e volta, e a cada esquina se transforma. A mídia trouxe o tema para as telinhas, abrindo espaço para a retomada da questão na contemporaneidade. Enquanto desfrutava de plena autonomia, as televisões trabalharam esses assuntos em novelas e, pasme-se, até em programas de humor ácido. 

Agora foi a vez da Folha de São Paulo, numa reportagem de Patrícia Figueiredo, levantar, numa viagem à Dinamarca, a questão da expansão do comércio de espermas humanos no mundo, assunto tabu ao qual vem a se somar à barriga de aluguel e, a alternativa moral da fertilização in vitro. Não escapa, entretanto, dos ficcionistas a ideia da formação, em um futuro não muito distante, de um exército de proveta, que lança nas frentes de batalha apenas as copias dos indivíduos reais ou outros gerados tecnologicamente em laboratórios, a exemplo da ideia do Frankstein.

Assim, enquanto meia dúzia de líderes políticos insanos enviam milhares de jovens para morrer brutalmente nas guerras, ignorando dramáticos apelos da sociedade e de seus familiares, as mudanças culturais vão vagarosamente fazendo a roda do tempo mover-se, e bater de frente com ética abrangente, que vai desde o respeito à vida humana, até às condenações religiosas e criminais. A masturbação ampla, uma dessas práticas decorrentes da comercialização do esperma, para algumas religiões é pecado, para determinadas sociedades é imoral; e o seu comércio é algo repugnante, considerado   criminoso por segmentos mais conservadores. 

Há, como se percebe, um retorno aos tempos de Abraão, que teve um punhado de filhos com a serva Agar, de tal forma que constituíram nações. Nas condições que vem sendo dadas nos dias de hoje, um único sujeito pode ser o pai também de milhares de filhos em vários países ou em um único ou em uma mesma comunidade. Daí a Dinamarca - um dos mais procurados - limitar em 200 o número de espermas de um mesmo sujeito a ser comercializado. Já se espera por um comércio clandestino.  Num mundo em que o desemprego cresce, há centenas de pessoas sobrevivendo à custa da venda de sêmen: em agonia e gozo eterno.

A procura   revela uma preferência, constatada pela repórter da Folha, pelo sêmen provenientes de alguns países -  nórdicos, por exemplo -, e não em outros, expondo uma incubada tendência eugênica -  coletividades humanas, baseada em leis genéticas -  que ressuscita a ideia de uma raça melhor ou superior, tão em moda na ciência do início do século passado. Depois do napalm, da bom atômica e dos mísseis nucleares transoceânicos, nada impede a um dirigente maluco desses pretender mesmo constituir   um exército de proveta ou de uma única raça. Hitler, copiado em diversas frentes, tentou isso.

Nos países da América, no Brasil inclusive, as escravas africanas deram muitos filhos aos patrões à força ou por submissão. Casos de barriga de aluguel não foram poucos, prática que não desapareceu totalmente com a Abolição. Estendeu para as mulheres brancas, as famosas polacas, mulheres imigrantes do norte da Europa.     Cristino Gomes da Silva Cleto, conhecido como Corisco, o cangaceiro apelidado de” Diabo Louro", procedia de uma origem dessas.

Na expectativa de não se expor tanto, mais recente, mais de mil brasileiras contrataram serviços de clínicas de barrigas de aluguel na Ucrânia, para fertilização in vitro e, com a invasão russa, passaram a viver o drama de não poder ver os filhos, alguns em plena gestação e outros sendo criados por lá. Na Ucrânia existe uma política pública de barriga de aluguel. As famílias brasileiras, sobretudo aquelas que lidam com o problema da infertilidade, impedidas de entrar no país, chegaram a   recorrer ao governo para ajudar a buscar os "nossos bebês...'"

Não se sabe exatamente quantas brasileiras estão com filhos em barrigas de aluguel na Ucrânia hoje, nem em quais clínicas. São ao todo dezesseis, e bastante procuradas por mulheres de todo o mundo. Essas coisas não devem espantar, porque um grande número de países tem avançado nessa direção. No Brasil, fornecer   esperma ou barrigas de aluguel é possível desde que autorizada pela Anvisa. Em 2022 foram importadas por aqui 1.079 amostras de sêmen humano. 

*Jornalista, professor

Nenhum comentário: