sexta-feira, 2 de junho de 2023

Sergio Lamucci - Ritmo forte do PIB esconde fraqueza da demanda doméstica

Valor Econômico

Números do primeiro trimestre devem levar a onda de revisões das estimativas para o crescimento de 2023

O resultado do PIB do primeiro trimestre mostrou um crescimento forte, bem acima das projeções dos analistas, com um alta muito expressiva e muito concentrada na agropecuária. Nos três primeiros meses do ano, a economia brasileira cresceu 1,9% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, o que significa um ritmo anualizado de quase 8%. A agropecuária avançou 21,6%, depois de quatro trimestres de queda seguida nessa base de comparação. O consenso dos analistas ouvidos pelo Valor Data apontava para uma expansão de 1,3% para o PIB e de 10,3% para a agropecuária. Pelo lado da oferta, os serviços aumentaram 0,6%, enquanto a indústria ficou quase estável, em queda de 0,1%.

Pelo lado da demanda, o resultado mostrou um tombo forte do investimento, com recuo de 3,4% em relação ao trimestre anterior. O consumo das famílias cresceu apenas 0,2%, abaixo do 0,4% dos três meses anteriores. A demanda doméstica, como se vê, teve um desempenho fraco, como nota o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral. O que puxou o PIB pelo lado da demanda foi o setor externo, uma vez que as exportações tiveram melhor desempenho que as importações, e a variação de estoques, num movimento relacionado à agropecuária.

Os números do primeiro trimestre devem levar a onda de revisões das estimativas para o crescimento de 2023. Sobral, por exemplo, que trabalhava com uma expansão do PIB de 1,4% neste ano, deve elevar a sua projeção para 1,7% ou mais, embora diga que a agropecuária tenda a devolver no segundo trimestre parte do desempenho extraordinário registrado no primeiro. A Capital Economics aumentou a sua previsão de 1% para 2,3%, enquanto o Goldman Sachs revisou de 1,75% para 2,6%.

A herança estatística que o primeiro trimestre deixa para o ano é de 2,4%, nota Sobral. Isso significa que, se o PIB terminar o ano no mesmo nível de janeiro a março, sem crescer mais nada, a economia brasileira avançará 2,4% em 2023. Para que o número do consenso de mercado do Boletim Focus do Banco Central (BC) de 1,26% seja atingido, será preciso uma recessão forte no resto do ano, diz Sobral – o PIB teria que cair 0,75% em cada um dos três trimestres restantes na comparação com os três meses anteriores, calcula ele.

No lado da oferta, a indústria teve queda de 0,1%, A indústria de transformação recuou 0,6%, o terceiro recuo seguido em relação ao trimestre anterior, enquanto a construção caiu 0,8%. O que impediu uma queda mais forte do setor foi a alta de 2,3% da indústria extrativa e de 1,7% do segmento de eletricidade e gás, água, esgoto e gestão de resíduos.

Já os serviços, que subiram 0,6%, tiveram o desempenho puxado pelo setores de transporte, armazenagem e correio e o de atividades financeiras – os dois com alta de 1,2% na comparação com os três meses anteriores. O comércio cresceu 0,3%.

Pelo lado da demanda, o resultado do PIB trouxe notícias menos favoráveis. A mais negativa foi a queda de 3,4% do investimento, a segunda queda trimestral seguida. O consumo das famílias também teve um desempenho pouco exuberante – avançou 0,2%, em desaceleração pelo terceiro trimestre seguido, apesar da força do mercado de trabalho e do volume expressivo de transferências de renda do governo via Bolsa Família. O consumo do governo, por sua vez, cresceu 0,3%. Nas contas do diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, a chamada demanda doméstica final recuou 0,5% no primeiro trimestre – o indicador reúne o investimento, o consumo das famílias e o consumo do governo, excluindo a variação de estoques.

A variação de estoques, aliás, teve contribuição expressiva para o PIB pelo lado da demanda. Nos cálculos de Ramos, o indicador colaborou com 1,2 ponto percentual do crescimento de 1,9%. O movimento está relacionado à formação de estoques na agropecuária, segundo o IBGE. O setor externo teve contribuição positiva também significativa, igualmente de 1,2 ponto, de acordo com Ramos. No primeiro trimestre, as exportações recuaram 0,4%, mas as importações tiveram desempenho bem pior, encolhendo 7,1%. A demanda doméstica final tirou 0,5 ponto do crescimento, nas estimativas do economista do Goldman Sachs.

Nesse cenário, a perspectiva é de uma série de aumentos nas projeções para o crescimento deste ano, para 2% ou mais. Mesmo com a desaceleração esperada para os trimestres seguintes, a herança estatística do primeiro trimestre sozinha já deve garantir um resultado mais forte para o PIB em 2023. A atividade econômica tem surpreendido neste ano, impulsionada pelo desempenho excepcional da agropecuária. Também ajudam a força do mercado de trabalho e as transferências de renda do governo, ainda que o consumo das famílias tenha avançado pouco. Na ponta contrária, os juros elevados seguram a atividade, na tentativa do Banco Central (BC) de derrubar a inflação. A nota de preocupação é o investimento, que precisa aumentar para o país poder avançar a taxas mais elevadas de modo sustentado. A taxa de investimento ficou em 17,7% do PIB no primeiro trimestre, abaixo dos 18,4% do PIB do primeiro trimestre de 2022.

 

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