O Globo
Intolerância mútua, alimentada por
estereótipos, atrapalha o debate público
Nas guerras culturais, movimentos sociais progressistas tendem a interpretar a oposição que recebem dos conservadores como ataque às causas que defendem, e não como rejeição ao movimento enquanto grupo organizado. Quando conservadores apresentam as feministas como radicais que se masturbam com símbolos religiosos, progressistas veem nisso um ataque às mulheres, e não ao movimento feminista. Nessa leitura, a desqualificação do movimento feminista seria uma maneira mal dissimulada de atacar o direito das mulheres defendido pelas feministas. Mas será que é isso mesmo que se passa?
As evidências das pesquisas de opinião não
mostram exatamente isso. De maneira geral, quem tem identidade conservadora
apoia amplamente questões relativas aos direitos das mulheres, embora num nível
ligeiramente menor do que quem tem identidade progressista. Em outras palavras,
os progressistas apoiam um pouco mais os direitos das mulheres, mas não num
nível muito mais alto, como querem acreditar — a exceção são temas como aborto,
que progressistas veem como direito das mulheres e conservadores como direito
do feto.
Para investigar essa questão, a More in
Common e o Monitor do Debate Político do Cebrap aplicaram um questionário junto
aos manifestantes conservadores que se reuniram na Avenida
Paulista no dia 16 de março. A pesquisa foi coordenada por mim e pelo
professor Marcio Moretto, da EACH-USP. A manifestação foi convocada pelo
ex-presidente Jair
Bolsonaro e, embora tenha se concentrado em Copacabana, no
Rio de Janeiro, também aconteceu de maneira descentralizada noutras cidades. Em
São Paulo, contou com participação de 1,4 mil pessoas.
Dos manifestantes, 92% (ver quadro abaixo)
concordaram com a afirmação de que “homossexuais devem ser respeitados em sua
orientação sexual” (69% totalmente, 23% em parte). Porém, quando pedimos para
escolherem entre duas afirmações sobre o caráter do movimento gay (LGBT+), 47%
acreditavam que “promove o homossexualismo”, e apenas 30% que “luta contra a
discriminação”.
Encontramos o mesmo padrão no feminismo.
Entre os manifestantes, 91% também concordaram com a afirmação de que
“precisamos garantir igualdade de direitos entre homens e mulheres” (71%
totalmente, 20% em parte). Porém, quando tiveram de escolher entre duas
afirmações sobre o movimento feminista, 58% consideraram que ele “promove o
ódio aos homens” e apenas 28% que “promove a igualdade entre homens e
mulheres”.
São resultados consistentes com outras
pesquisas de opinião que mostram haver bom apoio a direitos de mulheres e
homossexuais entre os conservadores. Há, no entanto, um entendimento entre eles
de que os movimentos que lutam por esses direitos têm outras agendas, ocultas —
o movimento LGBT+ promoveria o “homossexualismo” e o movimento feminista, o
ódio aos homens. Esse tipo de distorção provavelmente também se aplica ao
movimento negro e ao movimento ambientalista — e, inversamente, à maneira como
progressistas veem os movimentos conservadores.
Os resultados deveriam servir de reflexão
para conservadores e progressistas engajados nas guerras culturais. Se
conservadores conhecessem o cuidadoso ativismo LGBT+, veriam quão inapropriado
é o entendimento de que incentivam o comportamento homossexual. E, se os
progressistas conhecessem o belo trabalho das igrejas evangélicas contra a
violência doméstica, veriam quão equivocado é o entendimento de que
conservadores promovem o machismo. Ambos os lados, porém, preferem olhar para
pequenos grupos extremistas e manter acesa a caricatura do adversário.
Apesar das divergências que efetivamente
existem, os dados sugerem que as agendas de conservadores e progressistas são
menos distintas do que ambos acreditam. O antagonismo entre eles parece estar
menos ligado a diferenças substanciais e mais a sentimentos negativos
orientados a percepções distorcidas. Essa intolerância mútua, alimentada por
estereótipos, atrapalha o debate público e ameaça a própria essência do
convívio democrático.
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