O Globo
Famílias estão com o orçamento apertado por
causa da inflação elevada e precisam recompor seus gastos
Semana intensa na economia, aqui e lá fora. E
reveladora de contradições em andamento. Comecemos pelas locais.
Antes, uma questão preliminar. O Banco
Central integra ou não o governo? Mais exatamente, o BC faz parte da política
econômica? Sim e não. Sim, porque toda a diretoria do BC é indicada pelo
presidente da República. Sim, também, porque o BC decide a taxa básica de
juros, fator essencial no andamento da economia. Mas não, porque o BC tem
independência para fixar aquela taxa, podendo colocá-la em níveis que não
interessam ao governo de plantão.
Aconteceu de novo nesta semana. O governo apresentou sua proposta de mudança no Imposto de Renda, com uma medida essencial: a isenção para quem ganha até R$ 5 mil e descontos para quem vai daí até R$ 7 mil. Sobrará mais dinheiro no orçamento das famílias incluídas nessas faixas salariais. Quanto? Há divergências. Para o Ministério da Fazenda, algo como R$ 27 bilhões. Para analistas independentes, é mais que isso. Saíram vários cálculos — até prevendo perda de arrecadação de mais de R$ 50 bilhões, diferença enorme em relação à estimativa oficial.
Ficamos na dúvida, a ser debelada durante a
tramitação da proposta no Congresso. Mas há unanimidade quanto ao destino do
dinheiro: o consumo. As famílias estão com o orçamento apertado por causa da
inflação elevada e precisam recompor seus gastos. Ora, estímulo ao consumo,
nesse caso, ou facilita a alta da inflação ou dificulta a queda. Alguns
economistas chegaram a estimar o potencial inflacionário dessa isenção de
impostos.
Isso é conta para 2026, quando a reforma do
IR tiver sido aprovada, mas entra necessariamente nos cenários do Banco
Central, que tem o objetivo de colocar a inflação mais perto da meta em algum
momento do próximo ano. Ocorre que esse mesmo Banco Central está num ciclo de
alta de taxa básica de juros, justamente com o objetivo de esfriar o consumo e
cortar as asas da inflação.
Tem mais: entrou em vigor ontem um sistema
que facilita a tomada de empréstimo pelos trabalhadores com carteira assinada,
um universo de 40 milhões. Como serão empréstimos consignados, com garantia em
recursos do FGTS,
os juros cobrados pelos bancos deverão ser bem menores do que aqueles
oferecidos atualmente no crédito pessoal. Até a tarde de ontem, mais de 10
milhões haviam entrado no sistema para simular as condições do empréstimo. Dez
milhões em poucas horas!
De novo: inflação alta, orçamento apertado,
tomar dinheiro emprestado pode ser um alívio. Tem aqui uma coisa meio que
absurda: a garantia do empréstimo será o dinheiro do próprio trabalhador
depositado no FGTS. É como se alguém, tendo dinheiro no banco rendendo muito
pouco, desse esse valor em garantia para um empréstimo em que pagará juros mais
caros. Por que não permitem o saque direto na conta do FGTS?
De qualquer modo, o dinheiro tomado
emprestado, na casa dos bilhões, vai para o consumo ou para pagar dívidas mais
caras, nos dois casos aliviando os orçamentos familiares. O presidente Lula comemorou
esse consignado como um dos grandes lances de seu governo, especialmente neste
momento de baixa popularidade. E garantiu que a economia crescerá mais de 3%
neste ano.
Na mesma semana, o “seu” Banco Central elevou
a taxa básica de juros para 14,25% e anunciou pelo menos uma outra alta na
próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Isso porque considerou
ainda “incipientes” os sinais de desaquecimento da economia, que é o objetivo
do BC. Eis o ponto: o governo puxa para um lado, e seu braço independente puxa
para outro.
Guardadas as diferenças, a contradição ocorre
também nos Estados Unidos.
Trump promete acabar com a inflação e levar a economia para uma “era de ouro”.
E toca tarifas nos importados. E o Federal Reserve (Fed, o BC deles) anota que
a economia está desacelerando e registra que as tarifas provocarão alta na
inflação.
Presidentes populistas não gostam de bancos
centrais, a menos que possam mandar neles. Muitas vezes conseguem.
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