sábado, 22 de março de 2025

Juros menores ficarão acessíveis a 47 milhões - Fernando Nogueira da Costa

Folha de S. Paulo

Modelo é bem-vindo para os trabalhadores endividados amortizarem o crédito rotativo do cartão com dinheiro mais farto e barato

Eu estava atuando como banqueiro ao representar a Caixa na diretoria da Febraban (federação dos bancos) quando, em 2003, assisti a uma cena inesperada. O presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Luiz Marinho, atual ministro do Trabalho, levou aos banqueiros a proposta do crédito consignado, um tipo de empréstimo no qual as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento ou do benefício previdenciário do tomador. Devido à maior garantia, cai o custo dos empréstimos.

Fomos todos levar a proposta ao Ministério da Fazenda, em Brasília, em busca do apoio governamental necessário para o desconto nas folhas de pagamentos dos servidores públicos e aposentados. Por rivalidade ou ciúme, o então presidente da Força Sindical atuou para melar a reunião com provocações dirigidas aos banqueiros. Fizeram "cara de paisagem"...

Os bancões, de início, não se aventuraram, mas a Caixa disputou a liderança desse mercado com o BMG. A bancarrota do Banco Santos no fim de 2004 levou à compra de carteiras de crédito de outros bancos médios, acuados pelo efeito demonstração. Os bancos grandes viram o crédito consignado ser um ótimo produto, inclusive por não ser empréstimo ao governo, como pensava o HSBC.

A proporção de endividados, na ótica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), atingiu 76% em fevereiro. O cartão de crédito mais uma vez se posicionou em primeiro (84%) entre as maiores modalidades de dívida, seguido por carnês (17%) e crédito pessoal (10%).

Na economia brasileira, é necessário avançar para a diferenciação de preço à vista ao se pagar com Pix. Há um velho hábito de embutir nesse preço os custos de pagamento a prazo com cartões de crédito. Em conluio, a credenciadora fica com a diferença entre o valor cobrado do estabelecimento comercial e a soma da taxa de intercâmbio para a instituição emissora e da tarifa de bandeira.

O comerciante também ganha e incentiva os consumidores brasileiros a pagarem tipo "dez vezes sem juros" —mascarados em preços a prazo iguais aos preço à vista. Mais da metade dos usuários de cartões de crédito "perdem a conta" e entram no crédito rotativo impagável. A elevadíssima inadimplência leva aos juros exorbitantes porque bancos usam recursos de terceiros e não pode perdê-los.

Programa Crédito do Trabalhador na Carteira Digital de Trabalho, recém-lançado pelo governo federal, é uma remodelação do crédito consignado privado. Pelo risco de desemprego, essa modalidade, lançada originalmente no primeiro governo Lula, tem juros maiores diante do consignado para beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e para servidores públicos.

O principal entrave eram os bancos terem de fazer convênios com as empresas empregadoras para oferecer esse tipo de crédito. Com o novo consignado privado, não haverá mais convênio entre bancos e empresas.

Assim, os juros menores do empréstimo consignado ficarão acessíveis a mais de 47 milhões de trabalhadores registrados com carteira assinada (CLT) por meio da página da Carteira de Trabalho Digital na internet ao autorizarem o compartilhamento dos dados do eSocial diretamente com instituições financeiras habilitadas.

O trabalhador poderá ter até 35% do salário comprometido com parcelas do empréstimo consignado privado. Terá a possibilidade de usar 10% do saldo do FGTS e o total da multa recebida por demissão sem justa causa (40% do saldo FGTS) para o pagamento dos débitos, em caso de desligamento do emprego.
Essa economia digital é bem-vinda para os endividados amortizarem o crédito rotativo com o dinheiro mais farto e barato do novo consignado privado.

*Professor titular do Instituto de Economia da Unicamp

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