Folha de S. Paulo
A troca de diretas e indiretas entre
governador de SP e secretário indica que devem seguir separados até a eleição
As divergências político-eleitorais provocam
a mudança de um projeto político que até então unia os dois
Todo gesto na política tem um significado.
Quando acompanhado de palavras, uma leitura das entrelinhas ajuda a esclarecer
a intenção. Passada no raio-X, a manifestação de Gilberto
Kassab (PSD)
na sexta-feira (20) indica um afastamento de Tarcísio
de Freitas (Republicanos).
Primeiro, o contexto: no fim de janeiro, quando ficou claro que o governador abandonaria a ideia de se candidatar à Presidência para apoiar Flávio Bolsonaro (PL), o secretário de Relações Institucionais do governo de São Paulo falou que o chefe precisava ter "personalidade", criar "identidade" e não se submeter aos ditames do bolsonarismo.
Tarcísio reagiu, dizendo que não se tratava
de submissão, mas de "gratidão". Passadas mais de duas semanas, o
governador voltou ao assunto, aparentemente do nada. "Quem fala em
submissão não entende nada de lealdade", disse sem que tivesse havido nova
provocação. Provavelmente a ideia era reafirmar seu apoio a Flávio, com quem
tem encontro marcado para esta semana.
Kassab não deixou barato, divulgou extensa
nota ressaltando seus acertos na vida pública —sem deixar de apontar os
"poucos" erros—, reafirmou a articulação de candidatura própria de
seu partido a ser escolhida entre três governadores e elencou pontos do que
seria um programa de governo.
Diante disso, a conclusão lógica é a de que
Gilberto Kassab já não se sente à vontade para militar ao lado de Tarcísio de
Freitas. Percebeu a impossibilidade de vir a compor a chapa da reeleição como
vice, informou a quem possa interessar que seguirá caminho distinto daqui até a
eleição e sinalizou que deve concretizar o anúncio feito em dezembro de que
deixaria a função no Palácio dos Bandeirantes para cuidar de fortalecer o PSD.
Pode ser que não seja nada disso? Pode, mas
aí os gestos e as palavras de ambos os lados não fariam o menor sentido. E,
como sabemos, na política todo gesto tem um significado que as palavras
esclarecem nas entrelinhas quando não se quer um rompimento. Só um estratégico
afastamento.

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