Folha de S. Paulo
História política brasileira está repleta desses
momentos; análise eleitoral deve acompanhar doses de humildade
A política não é apenas a arte do possível,
mas também a ciência do imprevisível
Na política, há um fator incontrolável que
não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o
imponderável. Pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Acidentes ou
incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem
na caixa das coisas imponderáveis —prontas para saltar sobre campanhas que
pareciam seguir, firmes, o roteiro previamente traçado pelos marqueteiros.
Conto uma historinha.
Eleições de
1986. Comício de encerramento do candidato ao governo do Piauí Freitas
Neto (antigo PFL), na praça do Marquês. Desde a manhã, carros de som cruzavam
Teresina convidando o povo para o monumental show de Elba Ramalho.
A promessa de música e
festa atraía multidões. Às 18h, a praça já estava lotada. A massa urrava em
coro: "Queremos Elba! Queremos Elba!".
Os caminhões com os equipamentos de som só
chegaram em cima da hora. E então, como se convocado por alguma divindade
caprichosa, começou a cair um toró. Pipocos e faíscas tomaram conta do palco
improvisado. Os cabos, em curto-circuito, queimaram. Comício sem som?
Elba mostrou o contrato: "Sem som, não
canto".
Sob insistente apelo do candidato, propôs
cantar ao menos uma música. Arrumaram um banjo para acompanhá-la. Começando a
entoar um de seus hits —"Bate, bate, bate, coração..."—, a cantora
parou, de repente, e passou a vociferar: "Imbecis, ignorantes, malvados,
não façam isso!". No meio da multidão, a cena constrangedora: populares
abriam a boca de um jumento e despejavam nela uma garrafa de cachaça.
O comício terminou sob apupos. Três dias
depois, o candidato perderia a eleição por uma diferença de 1,66% dos votos.
Carlos Mateus, então dirigente do Instituto de Pesquisas Gallup, garantia
que Freitas
Neto ganharia o pleito por um índice em torno de 3% a mais. O episódio
correu de boca em boca, transformando-se em anedota política —e, mais do que
isso, em símbolo de um fenômeno que escapa às planilhas e aos modelos
estatísticos.
Às vezes, em minhas palestras, perguntam-me:
"Professor, não pode haver um imponderável na política?". Respondo:
"Pode, sim. Por exemplo, um jumento embriagado no Piauí".
O imponderável é a variável que subverte
tendências, desorganiza estratégias e desmonta narrativas. Está presente no
tropeço de um candidato, no lapso de linguagem, na chuva que alaga o palanque,
na falha técnica que impede a transmissão de um debate, no vídeo que viraliza
na última semana de campanha, no escândalo que emerge às vésperas da
votação. Jair
Bolsonaro (PL) foi eleito presidente da República, em 2018, por um
voto puxado pela facada.
É o instante em que a realidade invade o script.
Campanhas são construídas com base em diagnósticos:
pesquisas de intenção de voto, análise de clusters sociais, modelagens de
comportamento eleitoral, leitura de humores difusos. O marketing
político busca reduzir incertezas, antecipar cenários, simular
reações. Mas há sempre um ponto cego, uma zona de indeterminação onde a lógica
cede espaço ao acaso.
O imponderável não respeita cronogramas. Não
consulta consultores. Não aguarda a próxima rodada de tracking. Ele irrompe.
Pode ser um evento climático, uma tragédia
local, um incidente em comício, uma declaração atravessada, um gesto
interpretado como desdém. Pode ser, ainda, a emergência súbita de um tema que
reorganiza o debate público —segurança, inflação, corrupção, saúde— deslocando
o eixo da disputa e, com ele, preferências eleitorais que pareciam
consolidadas.
A história política brasileira está repleta
desses momentos. De campanhas que naufragaram na calmaria aparente e de
candidaturas que ganharam fôlego em meio à tempestade. O voto, afinal, é também
uma reação emocional ao inesperado. O eleitor não decide apenas com base em
programas e promessas; decide, muitas vezes, a partir de impressões formadas no
calor de acontecimentos que ninguém previu.
Por isso, toda análise eleitoral deve ser
acompanhada de uma dose de humildade. Entre a intenção de voto medida hoje e o
resultado apurado amanhã, há um território instável, povoado por imprevistos. É
ali que o imponderável arma suas emboscadas.
No fim das contas, a política não é apenas a arte do possível. É, também, a ciência do imprevisível.

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