A Procuradoria Geral da
República decidiu investigar as circunstâncias em que Marcos Valério, operador
do mensalão, comprou duas casas e um carro, em Belo Horizonte, e registrou em
nome da filha. Esses bens não estão entre os bloqueados pela Justiça.
No
rastro dos bens de Valério
Com patrimônio bloqueado, operador do mensalão comprou duas casas e carro no
nome da filha
Thiago Herdy, Ezequiel Fagundes
BELO HORIZONTE - A Procuradoria Geral da República (PGR) aguarda o fim do
julgamento do mensalão para investigar as circunstâncias em que Marcos Valério,
o operador do esquema, comprou duas casas milionárias no bairro da Pampulha, em
Belo Horizonte, e registrou em nome da filha mais velha, que hoje tem 21 anos e
é estudante de psicologia na capital mineira. Como mostrou O GLOBO em agosto, as
casas valem pelo menos R$ 1 milhão, cada, e não integram a lista de bens de
Valério bloqueados pela Justiça.
E este não é o único bem registrado recentemente em nome da filha. Há pouco
mais de um mês, quando já estava condenado pelo STF por corrupção ativa,
peculato e lavagem de dinheiro, Valério comprou um veículo Kia Cerato, modelo
2013, por R$ 63,5 mil, e registrou em nome da mesma filha. Atualmente, o
veículo é usado pela mulher de Valério, Renilda Santiago, como constatou esta
semana O GLOBO.
Registrar imóveis em nome da filha, em si, não é fraude. Mas é preciso
verificar se a filha tinha meios de adquirir aqueles imóveis - disse o
procurador-geral da República, Roberto Gurgel.
Para ele, é preciso "esperar que esta fase do julgamento acabe"
para tomar qualquer tipo de providência efetiva em relação ao tema.
- Sempre se terá que demonstrar a real propriedade. Se realmente os bens
forem dele, há como se tentar (a inclusão das novas propriedades no bloqueio de
bens já determinado pela Justiça) - disse o chefe do Ministério Público.
Valério: multa já chega a R$ 2,8 milhões
Os ministros do Supremo já decidiram que os bens de Valério devem ser usados
para ressarcir os cofres públicos, mas os valores só serão estipulados ao fim
da ação penal. Será preciso confirmar que os bens estão direta ou indiretamente
relacionados à prática dos crimes ligados à lavagem de dinheiro.
Independentemente disso, é certo que Valério deverá desembolsar recursos, em
função das penas que recebeu. Cálculo preliminar das condenações no STF aponta
o pagamento de multa de quase R$ 2,8 milhões. Este valor também será confirmado
ao fim do julgamento. A terceira investida sobre os bens de Valério poderia
ocorrer por meio de um pedido da PGR de fixação de indenizações ao poder
público pelos condenados no processo, alternativa ainda em estudo.
O Kia Cerato foi comprado por Valério em uma concessionária em Belo
Horizonte perto da casa onde vivia até pouco tempo com Renilda. Pelo interfone,
Renilda informou que Valério não mora mais na casa. No entanto, mesmo à
distância, ele mantém vínculo com a família. Ontem, um funcionário dele chegou
na residência para levar roupas sujas do operador do mensalão, que foram
entregues à empregada. Em outros dias, o funcionário buscou contas e levou
documentos para a mulher de Valério.
Localizada no Bairro São Luiz, a casa onde a família de Valério vive é uma
das que foram adquiridas recentemente e não está bloqueada pela Justiça. As
duas propriedades são luxuosas, têm dois andares, piscinas, estacionamento para
veículos e estão protegidas por muros altos, com direito a guarita de segurança
e câmeras de vigilância. Estão a poucos metros uma da outra e no vetor norte de
Belo Horizonte, região em franca valorização por causa da proximidade com
Cidade Administrativa do governo de Minas, construída recentemente.
Os outros bens de Valério também estão registrados em nome da filha, mas,
como também estão vinculados a registros de usufruto de Valério e sua esposa
Renilda, foram bloqueados pela Justiça. E não apenas em função da determinação
do ministro Joaquim Barbosa, que solicitou a medida em 2005, em razão de ação
cautelar proposta no STF pelo Ministério Público Federal. Nos registros de
imóveis, há menção a ações contra Valério nas cidades mineiras de Sete Lagoas,
Contagem e Brumadinho, com pedido de sequestro de bens.
Oficialmente, o operador do mensalão tem uma sala comercial no bairro Santo
Antônio, um terreno de 11 mil metros quadrados com galpão onde funciona uma
floricultura no Bairro Bandeirantes, uma casa no Bairro Castelo (onde morava
quando o mensalão foi descoberto), e um apartamento no bairro de classe média
Padre Eustáquio, comprado em 1993, com a ajuda de um financiamento. A medida
judicial não impede Valério de alugar seus imóveis.
Uma pessoa muito próxima do operador do mensalão, que esteve com ele no
início da semana, disse que ele já demonstrava estar conformado com a aplicação
de pena que poderia chegar a 30 anos de prisão. No entanto, ainda assim Valério
demonstra bastante abatimento em função do resultado final do julgamento.
Fonte: O Globo
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