sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Bernardo Mello Franco - A arminha do chanceler

O Globo

Marcelo Queiroga roubou a cena na comitiva que acompanhou Jair Bolsonaro na ONU. O ministro da Saúde perdeu a compostura diante de um protesto e fez gestos obscenos para os manifestantes. Depois foi diagnosticado com Covid-19 e teve que adiar a volta ao Brasil. Cumprirá a quarentena num hotel cinco estrelas de Nova York.

Apesar da concorrência desleal, outro ministro também conseguiu se destacar negativamente na viagem. Na mesma van em que Queiroga exibiu o dedo médio, o chanceler Carlos França fez o sinal de arminha na direção de brasileiros que criticavam o governo. A atitude causou desalento entre diplomatas que se mantêm críticos à extrema direita no poder.

França assumiu o Ministério das Relações Exteriores em abril, depois da desastrosa gestão de Ernesto Araújo. Por não ser um olavista fanático, já parecia melhor que o antecessor. Seu discurso de posse, em tom sóbrio e sem delírios terraplanistas, chegou a ser interpretado como um retorno da racionalidade ao Itamaraty. Talvez tenha sido excesso de otimismo.

Em menos de seis meses, o chanceler já dissipou boa parte da sensação de alívio. Ele começou abrindo o gabinete para parlamentares que flertam com o radicalismo de Ernesto. Depois participou das manifestações golpistas do 7 de Setembro. Chegou a viajar a São Paulo para subir no palanque em que Bolsonaro insultou dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

O gesto de arminha às vésperas da reunião da ONU, uma organização criada para buscar a paz mundial, indica que o chanceler rasgou a fantasia. Cansou de bancar o moderado ou percebeu que esse figurino não o seguraria na cadeira. Nenhuma das hipóteses o ajuda a se diferenciar do antecessor.

Um experiente embaixador considera que França imitou a marca registrada de Bolsonaro para se integrar à turma e mostrar lealdade ao chefe. Ele afirma que era ilusão imaginar um chanceler com ideias próprias no governo do capitão. Mas lembra que os diplomatas que exageram na sabujice costumam ser relegados ao ostracismo quando o poder muda de mãos. “O França ainda deve se arrepender amargamente de ter feito esse gesto”, prevê.

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