sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

É muito cedo para subir no palanque - Vera Magalhães

O Globo

Lula e ministros usam evento institucional para polarização com Tarcísio em momento desfavorável para o petista nas pesquisas

Lula deveria ser o último a querer subir tão cedo no palanque de 2026, mas o vício do cachimbo entorta a boca, e parece que, quanto mais as pesquisas se deterioram, mais o presidente parece ansioso para mostrar que ainda é “o cara”. O resultado, no entanto, tem sido o oposto.

A transformação do evento de assinatura do edital de construção do túnel imerso que ligará Santos ao Guarujá — obra que a Baixada Santista espera há cem anos — poderia ser um ótimo exemplo de relação republicana entre União e governo de São Paulo, funcionando como saudável contraponto à absoluta falta de institucionalidade com que Jair Bolsonaro tratava governadores de oposição.

Essa, inclusive, foi a forma inteligente com que Lula agiu noutros eventos com Tarcísio. O presidente também acertou o tom ao denunciar ocasiões em que outros bolsonaristas, como Romeu Zema ou Cláudio Castro, deixaram de comparecer a eventos com o governo federal por questões político-partidárias.

Mas nesta quinta-feira o script desandou. Ao fazerem questão de constranger Tarcísio com menções explícitas ou veladas à denúncia contra Jair Bolsonaro, Lula e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, trataram de marcar um “x” na testa do governador, reconhecendo que ele pode ser o adversário do petista em 2026. Que vantagem levam com isso?

Manter viva a polarização tem sido o tal vício pelo cachimbo para Lula desde que assumiu. Pode ser eficaz quando as pesquisas são favoráveis, e quando o outro lado está em baixa, como nos meses subsequentes ao 8 de Janeiro. Mas, mesmo diante da gravíssima denúncia contra Bolsonaro e da enorme probabilidade de que ele seja condenado e preso, os levantamentos de avaliação de governo são favoráveis aos nomes de oposição, como o próprio Tarcísio e outros que pensam em se aventurar na disputa no ano que vem.

Armar o palanque antes de saber com quem poderá contar, e com os números trazendo notícias perturbadoras para si em todos as regiões, estratos de renda e escolaridade, é uma atitude temerária. O presidente chamou Tarcísio para uma espécie de duelo numa cidade francamente bolsonarista, no dia em que a pesquisa Quaest apontou que o afilhado de Bolsonaro é aprovado por 61% do estado e rejeitado por 28%.

Na véspera, o mesmo instituto apontara 69% de rejeição para o petista entre os paulistas, ante apoio de 29%. Tarcísio obteve pouco mais de 56% dos votos válidos em Santos em 2022, percentual idêntico ao de Bolsonaro. Lula, pouco menos de 44%. No Guarujá os índices foram semelhantes, assim como em toda a Baixada Santista.

Ao lotar o evento que deveria ser institucional com uma claque que vaiou Tarcísio e entoou o grito de “sem anistia”, o presidente acredita que estava medindo forças com o governador e levando a melhor? Como seria a reação do público se o palanque fosse montado numa das cidades que serão interligadas pelo túnel, sem triagem prévia.

Mais: no palanque precoce estavam nomes como Silvio Costa Filho, cotado para a Articulação Política, e o presidente da Câmara, Hugo Motta, ambos do partido de Tarcísio, que Lula deveria procurar fidelizar a seu time com mais sutileza, sem tanto constrangimento público.

Ao atiçar Tarcísio para uma disputa que ele ainda hesita em topar, o presidente ajuda a oposição, que quer se desvencilhar do embargo que Bolsonaro impõe à própria sucessão. Uma direita dividida e interditada por um Bolsonaro desesperado é um dos poucos trunfos de que Lula dispõe num momento em que, de Norte a Sul, sua gestão não engrena nem consegue convencer o eleitor.

Com esse tipo de erro primário, Lula, que sempre foi reconhecido como um arguto animal político, dá sinais de cansaço e de falta de foco para buscar a recuperação de que necessita para chegar viável a 2026.

 

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