Folha de S. Paulo
Impaciência característica da modernidade
pode ser uma das causas da deterioração da popularidade de Lula
A deterioração
da popularidade de Lula impressiona,
pelo alcance (ela dá as caras até
em bastiões eleitorais do presidente) e pela intensidade (até
dezembro, o problema dele era que as avaliações positivas do governo não
subiam; agora elas despencam).
O movimento é tanto mais surpreendente porque ocorre num contexto em que normalmente não o esperaríamos. O crescimento do PIB dos últimos dois anos foi maior do que 3%, e o índice de desemprego corre perto dos mínimos históricos. Num passado não muito remoto, tais indicadores se faziam acompanhar de avaliação amplamente positiva do governo que com eles coincidisse.
Alguém poderia argumentar que o povo não é
bobo. Os bons números exibidos pela gestão Lula se amparam num aumento de
gastos públicos que não é perdurável. Verdade, mas análises de sustentabilidade
econômica nunca fizeram parte do kit de ferramentas da avaliação popular.
Sempre foram os efeitos de momento que deram as cartas.
Um fator econômico que explica ao menos parte
do fenômeno é a inflação. Os
preços, em
especial os dos alimentos, estão num patamar desconfortável para o
consumidor. E a sensação de desagrado, que é reforçada a cada ida ao
supermercado, acaba se sobrepondo a eventuais efeitos que poderiam ter impacto
mais benfazejo para Lula.
Em vários países, cientistas políticos têm
recorrido à alta da inflação para explicar a derrota da situação em eleições.
Vimos isso agora nos casos de Joe Biden e Olaf Scholz.
Não vejo como discordar, mas penso que os preços não explicam tudo. Creio que
está em ação também um ingrediente mais etéreo, uma espécie de impaciência
anímica que vai se assenhorando das pessoas.
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A tecnologia nos
acostumou mal. Computadores ampliam o horizonte da instantaneidade. Vivemos
agora num mundo em que boa parte das coisas que consumimos regularmente, de
livros e filmes a informações e refeições, está a poucos cliques de distância.
Nesse contexto, não surpreende que exijamos resultados rápidos também da
política.
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