sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Violência, saúde Pix e Lula - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desemprego e economia têm poucas citações como problema mais grave em pesquisa Quaest

Para quem se ocupa de curvas de juros, relação dívida/PIB, taxa de câmbio ou de condições financeiras em geral, a "economia" piorou bem no final de 2024.

A massa do eleitorado se ocupa disso? Por que, em pesquisas recentes, preocupações com segurança e saúde sejam muito mais citadas do que desemprego e "economia"? Por que a avaliação de Luiz Inácio Lula da Silva é tão pior que a de governadores dos estados mais populosos, de qualquer partido? Por que, faz apenas um ano, o governo Lula era melhor do que o de Jair Bolsonaro por 48% a 29% (pesquisa Quaest) e agora é pior por 36% a 45%? Qual miséria, epidemia ou promessa de golpe teria havido?

Não houve mudança na inflação, na virada do ano, bastante para explicar o desprestígio de Lula 3.

Para 34% dos moradores de São Paulo, violência "é o problema mais grave que o estado enfrenta". Em segundo lugar, vem a saúde, para 19%. Em terceiro, enchentes, para 12%. Está na pesquisa Quaest de fevereiro. "Desemprego" é o problema mais grave para 6%. Para 5%, é a "economia".

Para quem vive em Minas, mais grave é a saúde, para 29%; depois, a violência, com 15%. Violência ou saúde estão no topo da lista também para moradores de Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Goiás.

Não parece o retrato de país mais preocupado com a "economia", um país em que os salários crescem (acima da inflação) como não ocorria faz mais de década (ainda a 3,7% ao ano em janeiro).

A formulação da pergunta e sua posição na sequência do questionário pode alterar respostas. Na pesquisa CNT/MDA, o "pior desempenho" de Lula é na "economia" para 31,8%, na "segurança pública" para 19,9% e na "saúde" para "12,8".

Mas o que o entrevistado entende por "economia" e qual teria sido a piora? A economista Zeina Latif escreveu no jornal "O Globo" que a revolta do Pix pode ter sido uma versão digital, menor, das ruas de junho de 2013 (então, a popularidade de Dilma Rousseff caiu quase pela metade, da casa dos 60% para a dos 30%, em dias).

A campanha da direita sobre o Pix, com mentiras ou suspeitas bem dirigidas, talvez tenha levado parte do eleitorado a refletir sobre o que acha de Lula 3. Quando passamos a falar de um assunto, temos ideias e mudamos, sabem psicólogos, sociólogos e, faz tempo, até padres católicos (mas não muitos politólogos).

Além de talvez ter provocado o medo de nova ameaça qualquer do Estado, o caso Pix pode ter revivido a má lembrança do "imposto das blusinhas" e o ruído das revoltas de ricos contra impostos. Pode ter chamado a atenção para o atraso da isenção do IR. O salto dólar alto pareceu um mau sinal no céu.

Tudo isso pode ter provocado um momento de reflexão sobre o que Lula 3 propôs de novo ou dado a impressão de que não há esperança de novidade, reforçada pela mesmice do discurso de Lula, notada nas pesquisas (além do mais, parte da população era muito jovem sob Lula 1 e 2).

Dólar e juros altos no atacado em certo momento aparecem no crédito ao consumidor. Ainda não foi o caso, de modo notável, em juros; aliás, o crescimento do crédito livre e da banca privada foi grande até agora, novidade em parte surpreendente, assim como foi relevante a alta de consumo, salário, emprego e benefícios sociais.

Se não há apenas surto de mau humor, Lula 3 vai ter de mudar muito a sua conversa para virar o jogo. Marketing apenas não basta.

 

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