sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Em inflexão, Lula ajusta discurso às pesquisas - Andrea Jubé

Valor Econômico

Em entrevista, presidente constrói novo discurso sobre o combate à violência

“É importante colocar os bandidos na cadeia”, exortou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nessa quinta-feira, em entrevista ao programa “Balanço Geral Litoral”, da TV Record, especializado em casos policiais. Não parecia o mesmo presidente, que raramente aborda temas como violência e criminalidade em suas falas.

Era o mesmo mandatário petista, porém, envergando um novo figurino, mais apropriado ao choque de realidade causado pelas recentes pesquisas de opinião que identificaram uma queda expressiva e inédita na avaliação do governo.

No mesmo programa de TV, ao estilo “Cidade Alerta”, Lula afirmou que o governo quer fazer uma “revolução” na segurança pública, e criticou governadores - em um recado velado ao governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil) - que se opõem à proposta do governo federal de ampliar as atribuições da Polícia Federal (PF) e de modernizar a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

O objetivo é que as instituições possam atuar conjuntamente, em situações previstas em lei, com as polícias civil e militar, e ainda, com as guardas municipais, no âmbito do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Em apertada síntese, é o que diz a emenda constitucional (PEC) da Segurança Pública, que o governo deve enviar ao Congresso depois do Carnaval.

Falando ao eleitor paulista, Lula citou exemplo dessa integração das polícias, no município de Votuporanga (SP), em que a PF e a polícia militar, juntas, apreenderam 1 mil toneladas de maconha. “A gente vai ter o dobro de força contra o crime organizado”, defendeu, pedindo ao Congresso a aprovação do texto.

A inflexão lulista não tem mistério. Explica-se pelo susto que o presidente, auxiliares e aliados tomaram com a recente rodada de pesquisas, em que os principais institutos de opinião revelaram os altos índices de reprovação do governo. Um dos dados que mais surpreendeu os governistas foi a pesquisa Quaest, demonstrando que a rejeição a Lula ultrapassa os 60% nos três maiores colégios eleitorais, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em São Paulo, onde o PT encolheu e a oposição é hegemônica, a desaprovação a Lula chegou a 69%.

Rodada do Datafolha de janeiro, mostrou que 21% consideravam, espontaneamente, a saúde o principal problema do país, seguida da segurança pública (12%). Tradicionalmente identificada como uma agenda da direita, e uma das principais bandeiras do ex-presidente Jair Bolsonaro, a segurança pública sempre foi uma área onde a esquerda perdeu de goleada.

Desde o início do governo, Lula era aconselhado a evitar a pauta, ao argumento de que era atribuição dos governadores, e manter distância do tema poderia blindá-lo dos problemas. Nos últimos anos, entretanto, a percepção entre a população de escalada da violência, com assaltantes tirando a vida de cidadãos para roubar celulares, sobrepõe-se a índices que, eventualmente, indicam redução no número de homicídios.

Face a essa realidade, Lula adotou nova postura diante do tema e discursou, nessa quinta-feira, como se tivesse despertado de uma hibernação. “Todo mundo sabe que em todos os Estados da federação a segurança pública é um problema, todo mundo nesse país está preocupado com a violência, com o roubo de celular, com o roubo de carro, com o genocídio [Sic], com o feminicídio”, afirmou. As declarações foram feitas em Santos (SP), durante o evento de lançamento do edital para a construção do túnel que ligará o município ao Guarujá, obra em parceria dos governo federal e paulista.

Assistiam Lula, na primeira fila, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), Geraldo Alckmin. O primeiro é potencial adversário de Lula na eleição de 2026. Já Alckmin tem se projetado como o quadro mais competitivo da esquerda na corrida ao Palácio dos Bandeirantes.

O palco escolhido para a inflexão do discurso de Lula sobre segurança foi estratégico: a Baixada Santista, um dos redutos de maior violência no Estado, dominado por facções criminosas. No começo de 2024, o local foi alvo da Operação Verão, da Secretaria de Segurança de São Paulo, que culminou em 56 mortes em confrontos com a polícia, além de 1.025 presos, e 2,6 toneladas de drogas apreendidas. Foi encerrada depois que oito policiais militares efetuaram 188 tiros de fuzil contra três suspeitos. Pesquisas internas mostraram que parcela expressiva dos paulistas aprovou a ação policial, a despeito das críticas de excesso do uso de violência da parte do Estado.

Antes dessa quinta-feira, que emerge como um divisor de águas na retórica de Lula sobre segurança, o governo era alvo de críticas de aliados pelo silêncio e letargia em torno da agenda. Até então, a principal iniciativa havia partido do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, autor da PEC da Segurança Pública, que enfrentava resistências até mesmo no governo, e dormitou, por meses, nos escaninhos da Casa Civil.

Nos últimos meses, entretanto, Lewandowski saiu em campo em busca do apoio dos governadores, que temem interferência do governo federal nas polícias civil e militar. O ministro ouviu críticas, fez mudanças e construiu o texto mais redondo possível, que seguirá ao Congresso. De alvo de desdém inicial, a PEC de Lewandowski agora virou trunfo de Lula.

 

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