domingo, 18 de janeiro de 2026

Os limites de uma ação no Irã. Por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Assim como fez na Venezuela, Trump também precisa ajustar seus objetivos no Irã

Donald Trump e sua equipe exibiram criatividade e habilidade na Venezuela, considerando seus anunciados objetivos econômicos. No Irã, sejam quais forem os objetivos, é difícil vislumbrar como poderão ter êxito. Antes de capturar Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump colocara ênfase no combate ao narcotráfico, para justificar a campanha contra o regime bolivariano. Depois da captura, a ênfase se deslocou para o ganho econômico decorrente do controle do petróleo venezuelano.

Outros integrantes do regime também foram acusados pelos EUA de envolvimento com o narcotráfico, como o ministro do Interior e Justiça, Diosdado Cabello. Daí a necessidade de rever o objetivo para declarar a operação um sucesso. Trump obteve a captura de Maduro e a colaboração de sua vice, Delcy Rodríguez, para o plano de controlar o petróleo, em troca de manter o restante do regime intacto. Então, mudou seu objetivo declarado, para ajustá-lo ao que foi possível fazer sem intervenção armada de grande escala, que os americanos não aceitam.

Assim como na Venezuela, Trump precisa ajustar seus objetivos no Irã a essa limitação. Ele definiu como objetivo inicial parar a repressão contra os manifestantes. Diante dos maiores protestos desde a Revolução Islâmica de 1979, a teocracia não tem como parar a repressão, sob pena de cair.

Trump deu a impressão de que seria esse o caminho, ao publicar na sua rede social, na terçafeira: “Patriotas iranianos, continuem protestando. Tomem suas instituições. A ajuda está a caminho”.

Segundo fontes, Trump chegou a ordenar a preparação de um ataque, provavelmente, envolvendo mísseis e bombardeiros, mas recuou depois que seus assessores não lhe garantiram que bombardeios levariam à queda do regime.

O premiê Binyamin Netanyahu alegou que a teocracia não cairia com ataques pontuais, mas só com uma longa guerra. Israel não repôs a munição despendida nos ataques iranianos de junho e se sente vulnerável. Arábia Saudita e Catar pediram que Trump não atacasse, também temendo retaliações.

Para justificar o recuo, ele alegou que a morte de manifestantes tinha estancado. O regime lhe comunicou que suspendera as execuções anunciadas. Mas a repressão, que já matou milhares de pessoas, continua. O grupo de ataque do portaaviões Abraham Lincoln está sendo deslocado do Mar do Sul da China para o Oriente Médio, para dar mais opções ao presidente. Mas não há evidências de que ele saiba como honrar sua promessa aos manifestantes, que estão pagando com o próprio sangue.

 

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