Folha de S. Paulo
Se o governador anda conspirando com
Michelle, não é para ser candidato em São Paulo
Ele só se destacou porque, para os
bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo
A última
pesquisa Quaest mostrou que a candidatura de Flávio
Bolsonaro vem se tornando um fato consumado dentro do eleitorado de
direita. Seus números ainda são piores que os de Tarcísio, mas melhoraram. O
número de eleitores que acha que Jair errou em indicá-lo ainda é alto, mas
caiu.
Ainda é pouco para ganhar de Lula, mas Flávio
tem esperança de que a tendência de crescimento continue. É uma aposta
arriscada.
Em primeiro lugar, porque Tarcísio continua
candidato.
Na semana passada, a primeira-dama de São Paulo postou uma mensagem dizendo que o Brasil (e não São Paulo) precisa de "um novo CEO, meu marido". Michelle Bolsonaro "curtiu" a mensagem. Bolsonaristas suspeitam que Tarcísio mandou a primeira-dama postar e combinou com Michelle a demonstração de apoio.
Se Tarcísio anda conspirando com Michelle,
não é para ser candidato ao Governo de São Paulo. Conta, inclusive, com um
séquito de formadores de opinião que não terão qualquer escrúpulo em dizer que
a candidatura de Flávio prova que Tarcísio nunca foi um bolsonarista de
verdade. Vão fingir que não viram que foi Jair que rejeitou Tarcísio, e não o
contrário. E tentarão um rebranding de Michelle como moderada mesmo se ela
continuar casada com o novo hóspede da Papuda. Não me surpreenderei se algum
colunista insinuar que o casamento dos dois é aberto, vejam só, Jair e Michelle
até estão morando em lugares separados.
Em segundo lugar, Flávio Bolsonaro precisa
lidar com o fato de ser um candidato muito ruim.
Até hoje não sabemos direito por que a denúncia
da rachadinha com a família do chefe do Escritório do Crime, um
escândalo que envolvia Flávio, Jair e Michelle, só apareceu depois da eleição
presidencial de 2018. Agora imaginem o que teria sido a campanha daquele ano se
soubéssemos disso ou se tivéssemos descoberto que Jair
Bolsonaro tinha comprado uma mansão com dinheiro vivo, como Flávio
comprou.
E se a população descobrir, além disso, que
Flávio se livrou das acusações graças a Dias Toffoli, esse aí que anda no
noticiário? E que, em agradecimento ao STF, Flávio escreveu nesta Folha que o STF não teve
alternativa, diante da incompetência jurídica de Sergio Moro, a não ser soltar
Lula ("Moro
Soltou Lula", 21 de fevereiro de 2022)?
Aqui já imagino Flávio se defendendo:
"OK, eu sou um idiota que desmaia em debate, mas, até aí, o Tarcísio
também é uma porcaria". Nada tenho eu a objetar ao senador.
O atual governador paulista só se destacou
pela competência no governo Bolsonaro porque, para os bolsonaristas, CEO quer
dizer Carluxo, Eduardo e Olavo: nesse meio aí, qualquer um se destaca. Tarcísio
poderia, sim, ter construído uma imagem de moderado que correspondesse à
realidade, mas foi covarde e submisso ao Jair nos últimos anos. Não deve
adquirir mais coragem se passar a depender politicamente do apoio da mulher do
sujeito.
Resumindo, a sombra de Tarcísio dificulta a decolagem
de Flávio, que, de qualquer forma, já é um avião bem vagabundo.
Estamos nessa porque a direita brasileira
ainda não conseguiu sair do buraco em que se meteu em 2018. Agora é esperar
para saber qual dos dois a turma de sempre vai mentir que é moderado no final
do ano.

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