segunda-feira, 2 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Guerra abala regime de terror no Irã, mas não garante seu fim

Por O Globo

Líder de um dos regimes mais cruéis do planeta está morto, porém fatos ainda poderão frustrar as ambições de Trump

Talvez não haja evidência mais contundente do significado da morte do aiatolá Ali Khamenei para o mundo que a irrupção espontânea de manifestações de júbilo por Teerã e outras cidades iranianas com a notícia — ainda que o país estivesse (e esteja) sob bombardeio de forças americanas e israelenses, que deflagraram ataques com o fito declarado de derrubar a teocracia e acabar em definitivo com suas pretensões nucleares.

Khamenei comandou por quase quatro décadas um dos regimes mais cruéis do planeta — de 1981 a 1989 como presidente, de lá para cá como líder supremo. Só neste ano, para sufocar protestos iniciados em dezembro, a teocracia massacrou um contingente estimado em dezenas de milhares. Mantém sob feroz opressão minorias religiosas, mulheres e a população LGBT+. Imiscui-se na vida dos cidadãos a ponto de determinar o que podem ler, ouvir, assistir ou como devem se vestir. Patrocinou ao longo desses anos um eixo de grupos terroristas que espalhou dor não apenas pelo Oriente Médio, mas de Bangkok a Buenos Aires, passando por locais como Madri, Nova Délhi ou Sydney. Sempre matando civis inocentes.

Dezenas de líderes e comandantes militares iranianos foram mortos na ofensiva de Estados Unidos e Israel. A reação iraniana se voltou contra Israel, mas também contra aliados americanos como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. Há temor de que a guerra se espalhe. Seus artífices — Donald Trump e Benjamin Netanyahu — conclamaram a população iraniana a ir às ruas para derrubar o regime. Tentam se aproveitar do momento de fraqueza sem precedentes em quase cinco décadas de teocracia. Economicamente, as sanções e a corrupção endêmica têm piorado as condições de vida dos iranianos. Politicamente, os protestos abriram fissuras na elite e até na todo-poderosa Guarda Revolucionária que sustenta a ditadura. Militarmente, os ataques de junho, que destruíram instalações nucleares e o poderio defensivo iraniano, demonstraram a vulnerabilidade do país e tornaram possível a ofensiva de sábado.

Trump na certa foi incentivado pelo êxito dos ataques e pela facilidade com que derrubou o ditador venezuelano, Nicolás Maduro (embora Venezuela e Irã sejam incomparáveis). Também deve apostar no fim da teocracia como bandeira nas eleições de meio de mandato em novembro. Mas a eficácia eleitoral da iniciativa é questionável. Ele foi eleito com um discurso isolacionista, prometendo acabar com as “guerras eternas” ao estilo de Iraque e Afeganistão — intervenções americanas cujo objetivo inicial era acabar com ditaduras, mas que resultaram em atoleiros ao custo de milhares de vidas e bilhões de dólares. Desde a posse, porém, já deflagrou oito ataques externos sem aval do Congresso. Terá de se explicar aos eleitores e, caso a campanha iraniana e seus efeitos no mercado de petróleo se estendam, suas ambições podem vir a ser facilmente frustradas pelos fatos.

Khamenei já cuidava havia algum tempo de sua sucessão, e os primeiros passos foram dados para reunir o conselho que elegerá o novo líder supremo. O presidente Massoud Pezeshkian afirmou na televisão que manterá os ataques às “forças inimigas”, demonstrando que não aprendeu a lição. A esperança é que, como o abalo agora é mais forte, derrube a teocracia. Mas não há garantia.

Governo deveria esquecer portaria que restringe comércio nos feriados

Por O Globo

Adiamento da entrada em vigor pela quinta vez demonstra que medida não tem cabimento

Tornou-se constrangedora a forma como o governo federal tem insistido na portaria descabida que modifica regras para o trabalho no comércio durante os feriados. A previsão era que ela entrasse em vigor neste mês, mas foi mais uma vez suspensa. Na semana passada, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, criou um grupo com representantes de empresários e trabalhadores para apresentar uma proposta consensual sobre o tema em até 90 dias. Esforço desnecessário. A ideia já deveria ter sido descartada há muito tempo.

Editada em 2023, a nova norma estabelece que supermercados, farmácias e lojas só podem abrir em feriados por meio de acordo ou convenção coletiva firmada entre sindicatos e empresas. Ela revoga a portaria editada em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, permitindo a abertura sem necessidade de negociação. É como deve ser. O funcionamento do comércio nos feriados facilita a vida dos cidadãos e representa importante fonte de recursos para cidades turísticas. Não há por que mexer numa regra consolidada que dá certo.

A inconveniência e a inutilidade da nova portaria ficam evidentes pela sucessão de adiamentos. A entrada em vigor chegou a ser anunciada para março de 2024. Passou para maio, daí para julho, depois foi transferida para julho de 2025 e em seguida para março de 2026. Apesar do impacto inexorável no comércio, na economia e na rotina dos brasileiros, o Ministério do Trabalho anunciou a medida sem discussão com os setores envolvidos. Não surpreende tanta celeuma. Se fosse boa ideia, certamente já teria sido adotada. É pouco provável que o grupo de trabalho consiga em 90 dias, em ano de eleições, aquilo que o governo não conseguiu até agora.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sustenta que, se a portaria vingar, há risco de lojas fecharem nos feriados, especialmente em lugares onde não há sindicatos. Também haverá aumento de custos relacionados ao trabalho, como pagamento de benefícios e encargos adicionais, além da dificuldade para definir os feriados em que o comércio funcionará. Pequenos comerciantes tendem a ser os mais afetados.

Na época em que anunciou a portaria, Marinho afirmou atender a uma reivindicação dos sindicatos. É legítimo que representantes dos trabalhadores levem suas pautas ao Planalto. Mas, apesar dos laços históricos do PT com o movimento sindical, o governo precisa olhar para todos os brasileiros. Há outros envolvidos, e é evidente que não há consenso, ou não haveria tanta relutância.

Embora algumas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, já disponham de legislações próprias e acordos que permitem o trabalho no comércio durante os feriados, outras sentirão o impacto da medida. É incompreensível que, num momento de desaceleração da economia, o governo acolha iniciativas que freiem o comércio e reduzam a arrecadação. Além de improdutiva, a portaria é inoportuna. Há problemas muito mais urgentes a resolver. O governo faria bem se a esquecesse.

Trump testa sua nova ordem mundial em ataque ilegal

Por Folha de S. Paulo

Aposta na queda da teocracia pode dar certo, mas nada sugere plano coerente para lidar com eventual mudança de regime

No Irã, americano ignora lei internacional e consequências de ação que expõe Oriente Médio ao caos

Há diversos argumentos para justificar a contenção da teocracia instaurada em 1979 pelos fanáticos xiitas de Ruhollah Khomeini que derrubaram a abusiva monarquia do xá Reza Pahlavi.

O país é uma ameaça, tendo gastado anos fomentando prepostos armados contra os Estados Unidos e Israel, desenvolvido um arsenal de mísseis balísticos capazes de ir cada vez mais longe e flertado com a bomba atômica.

Trata-se de um regime odioso que oprime sua população, em especial as mulheres. A repressão à mais recente onda de protestos, no começo deste ano, deixou milhares de mortos.

No mundo de regras que Donald Trump tem ajudado a enterrar, tudo isso podia ser enfrentado com negociação, pressão econômica e, no cenário "ad extremum", a força. O barômetro para modular o que fazer sempre foi a urgência da ameaça.

Tendo trombeteado a obliteração do programa nuclear iraniano em um bombardeio em junho do ano passado, Trump não tinha pressão específica para atacar agora senão a oportunidade.

O republicano foi convencido por Tel Aviv e pelo seu entorno mais ideológico de que a hora para buscar o fim do regime hostil era agora. Afinal, a teocracia nunca esteve tão enfraquecida.

Concorre também o mau momento doméstico de Trump. Como em 1998 Bill Clinton lançou mísseis contra o Iraque em meio a seu processo de impeachment, o republicano está acossado pelo caso Jeffrey Epstein, pelas críticas à sua política migratória e por incertezas na economia.

Com a eleição congressual à vista, nada como uma guerra para galvanizar atenção. Pode dar certo, mas o pacote comprado por Trump na sua ação em conjunto com Israel embute muitos riscos.

O assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e da cúpula militar do rival cria uma justificativa do emprego da força.

O precedente havia sido testado em escala reduzida na captura de Nicolás Maduro e sua mulher na Venezuela, e agora ganha ares de bangue-bangue global. Contrarie Trump por qualquer motivo, mesmo comezinho, e morra.

Eis o resumo da ordem mundial do americano. E há a falta de um plano coerente para lidar com a eventual mudança de regime, que sem tropas em solo está sendo deixada na mão dos esmagados manifestantes de janeiro. Há real chance de o novo governo ser igual ou pior que o anterior.

Nesta aurora do conflito, o Irã reafirmou a teocracia e seus ritos sucessórios, além de ampliar a retaliação a alvos como os ricos entrepostos árabes do golfo Pérsico. Talvez Trump queira uma solução Venezuela para a crise, mantendo o regime e negociando com os novos donos do poder.

Dada a animosidade histórica, questões ideológicas e a geopolítica do Oriente Médio, é uma aposta alta. Se perder, Trump legará ainda mais caos à turbulenta região e, dada a importância energética do petróleo e do gás que de lá saem, ao mundo.

O aprendizado de Milei para reformar a economia

Por Folha de S. Paulo

Argentino dobra-se a negociações políticas e extrai do Congresso a primeira reforma trabalhista em 50 anos

O texto final traz flexibilidade na jornada de trabalho e potencial alívio nos custos empresariais com contratação e demissão

O impulsivo Javier Milei, presidente da Argentina, aprendeu em seus dois anos de gestão que o diálogo é o caminho mais eficaz para a adoção de sua agenda liberal.

Após impropérios contra a classe política e tentativas de impor a desregulamentação econômica por decreto em 2024, o líder populista de direita aceitou negociar e conseguiu extrair do Congresso a primeira reforma trabalhista do país desde 1976.

Aprovada pela Câmara dos Deputados no último dia 20 por 135 votos a 115, a nova lei foi submetida e passou pela segunda vez no Senado na sexta (27) de forma quase protocolar.

O texto final difere do projeto originado na Casa Rosada; nas negociações, Milei engoliu ao menos 20 mudanças. Mas foram mantidos os meios para modernizar as relações de trabalho e reduzir a informalidade, que hoje condena 43,3% dos trabalhadores à privação de direitos básicos.

O resultado expresso nos mais de 200 artigos do diploma traz potencial alívio nos custos empresariais com a contratação e a demissão de empregados e flexibilidade na jornada de trabalho —que pode chegar a 12 horas diárias, com reconhecimento das horas extras, desde que respeitado o limite de 48 horas semanais.

A ampliação da lista de serviços essenciais preservados de greves e o direito de o trabalhador optar por receber salário em pesos, moeda estrangeira, alimentos ou moradia mudam as regras de remuneração e impõem limites aos prejuízos para a população gerados por decisões sindicais.

O polêmico fim do Tribunal do Trabalho, com o repasse de processos à Justiça comum, sobreviveu à tramitação no Legislativo por ser capaz de diminuir a chamada "indústria do litígio". Essa e outras mudanças, porém, abrem brechas para as centrais sindicais contestarem judicialmente a constitucionalidade da iniciativa.

Tal contratempo pode retardar a adoção da nova lei, mas dificilmente resultará na supressão de um arcabouço trabalhista amplamente debatido e aprovado pela maioria dos deputados —no mesmo momento em que transcorriam uma greve geral no país e protestos nas portas do Congresso contra as medidas.

Não há dúvidas sobre a insistência dos lobbies empresariais em favor da reforma. Fato é que Milei abarcou o apoio quase unânime das bancadas de centro e direita, infligiu mais uma derrota ao peronismo e removeu parte expressiva da insegurança e dos riscos aos investimentos na Argentina. Sobretudo, vergou-se à legitimidade conferida pelas negociações políticas.

Assembleia sindical no Supremo

Por O Estado de S. Paulo

Ao STF, guardião da Constituição, cabe apenas declarar a ilegalidade dos penduricalhos. Em vez disso, a Corte acolhe a pressão de magistrados inconformados com a perda de privilégios

Os relatos feitos ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as condições de trabalho dos magistrados seriam engraçados se não fossem ofensivos aos brasileiros comuns. Segundo as entidades de representação dessa elite do serviço público, os juízes de primeiro grau não têm carro oficial, refeitório, café nem água. A situação não melhora muito na segunda instância: aos desembargadores, que mal têm um lanche, só lhes dão um carro do tribunal. E essa vida franciscana, dizem os meritíssimos, tira o brilho da carreira – aquela que atrai milhares de candidatos sempre que abre um concurso.

Durante a sessão de análise da suspensão do pagamento dos chamados penduricalhos, o plenário do STF mais parecia uma assembleia sindical. A categoria está em ebulição: a Corte começou a julgar duas decisões liminares, de Flávio Dino e de Gilmar Mendes, que atacaram as verbas indenizatórias criadas por atos administrativos. Na prática, essas verbas, sobre as quais não incidem Imposto de Renda nem contribuição previdenciária, são dribles que furam o teto constitucional, de R$ 46,4 mil, e implicam, não é de hoje, nos supersalários: ganhos mensais que, não raro, ultrapassam os R$ 100 mil. É política remuneratória ao arrepio da lei.

Para defender o indefensável, a magistratura e as carreiras do sistema de Justiça, compostas por promotores, procuradores, defensores públicos, advogados públicos, além de membros de tribunais de contas, trocaram os argumentos jurídicos pelas bravatas sindicais. E aí vale tudo: falácias, como uma suposta falta de atratividade da carreira; chantagens, como o risco de paralisia do Judiciário por falta de mão de obra; e falsas simetrias, como dizer que o “chão de fábrica” está depauperado, reivindicando um suposto direito de reajuste anual, haja vista que até o salário mínimo tem recomposição periódica.

A elite do funcionalismo público está chateada e não gosta que chamem de penduricalhos os seus auxílios, indenizações ou gratificações de toda sorte. Têm razão: não é penduricalho, e sim captura do Orçamento público por interesses privados. Trata-se de uma progressiva apropriação do dinheiro do erário, que fez com que o teto virasse piso, ao custo de nada menos do que R$ 20 bilhões ao ano, segundo um estudo do Movimento Pessoas à Frente e da República.org.

O STF assumiu o papel de moralizador da balbúrdia. Mas é impossível ignorar que a Corte faz parte do problema. Por quatro anos, uma liminar do ministro Luiz Fux garantiu o pagamento do auxílio-moradia e só caiu após um acordo garantir um reajuste de salário em 2018. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que, com suas resoluções, permitiu a profusão de penduricalhos, é sempre comandado pelo presidente do Supremo. E as cortes de Brasília, incluindo o STF, indicam ex-presidentes das associações classistas aos conselhos superiores, colocando as raposas para cuidar do galinheiro.

O Supremo, embora queira fazer crer o contrário, ajudou a furar o teto. E, agora, num movimento mais de marketing político para melhorar sua imagem do que de controle de constitucionalidade, a Corte diz que pretende reinstituir a autoridade do artigo 37, inciso XI, da Constituição. Mas há sinais trocados: de um lado, o Tribunal dá início a um julgamento que pode pôr fim aos penduricalhos e, de outro, instala uma mesa de negociação, com integrantes de todos os Poderes, para discutir essa política remuneratória.

O adiamento do julgamento, o anúncio de um grupo de trabalho interinstitucional para discutir a “eficiência, transformação e modernização” do Estado – leia-se, uma reforma administrativa – e a discussão de uma política de transição indicam que, apesar da aparente urgência, não há pressa. Ora, não cabe ao STF conciliar com as associações classistas ou fazer acordo com os Poderes para atender ao lobby dos togados e da elite do funcionalismo. Aos ministros compete apenas zelar pelo cumprimento da Constituição, derrubando os penduricalhos de uma vez por todas.

Enfim, o desfecho do caso Marielle

Por O Estado de S. Paulo

Quase oito anos depois do crime, os responsáveis pelo assassinato foram condenados. Mas as condições que tornaram o processo lento e falho e que quase resultaram em impunidade permanecem

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente condenou os assassinos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Depois de quase oito anos, o Estado brasileiro respondeu quem matou, quem mandou matar e por que mandou matar a parlamentar, executada com tiros de submetralhadora, no centro do Rio de Janeiro, na noite do dia 14 de março de 2018. Passado tanto tempo, a pena de até 76 anos imposta aos mandantes e seus comparsas é um alento à família e também à sociedade, que cobrava justiça num crime político de imenso significado.

Todo o processo expôs a promiscuidade entre o crime organizado, a política e a polícia no Rio de Janeiro. Os condenados eram autoridades públicas: o ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Domingos Brazão; seu irmão e ex-deputado federal Chiquinho Brazão; o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira; o ex-delegado-geral da Polícia Civil Rivaldo Barbosa; e Robson Calixto, ex-PM e ex-assessor de Domingos. Não se trata de amadores: políticos e agentes das forças de segurança arquitetaram, ordenaram e tentaram acobertar o assassinato.

Como afirmou o ministro relator, Alexandre de Moraes, que foi acompanhado pelos ministros Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino, a vereadora do PSOL foi morta porque representava um obstáculo ao poder político e aos negócios ilícitos dos irmãos Brazão: a venda de terrenos e imóveis em loteamentos ilegais em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro. Como milicianos, decidiram executá-la. E, ao longo de seis anos de investigações no Rio de Janeiro, contaram com a ajuda do então chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, que obstruía a Justiça enquanto consolava as famílias das vítimas.

O aparato estatal fluminense falhou, e não se pode condenar quem veja conluio nisso tudo. Não à toa, Dino criticou a condução do caso, que, segundo ele, “foi mal investigado de maneira dolosa”. O ministro afirmou ainda que houve lentidão e negligência. Foi apenas após o depoimento do ex-PM Ronnie Lessa, executor confesso de Marielle e delator, que se descobriu a motivação do crime. A citação de uma autoridade com foro privilegiado – no caso, Chiquinho Brazão – tirou o caso da polícia fluminense, do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) e do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

Convém reconhecer que o envio do caso a Brasília não se deu de forma harmoniosa ou sempre republicana. Isso porque a execução de Marielle alcançou repercussão internacional e ganhou dimensão política superlativa, fazendo com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva explorasse o caso política e eleitoralmente. Ocorre que solucionar esse crime político não é mérito de um agente político: é um dever do Estado. Mas, ao que tudo indica, nem mesmo os ministros do STF entenderam isso: no julgamento, pronunciaram votos que mais pareciam discursos políticos.

O ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, disse que houve mistura da “questão política com misoginia, racismo e discriminação”, por ser Marielle “uma mulher preta e pobre”. Já Cármen Lúcia associou a morte da vereadora ao “machismo”, questionando “quantas Marielles o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de justiça”. Ora, nada disso guarda conexão com os fatos ou com o Direito: restou provado que a atuação política de Marielle, e não seu sexo, motivou a bárbara execução.

Dito tudo isso, não há certeza de que a condenação dos irmãos Brazão tenha dado lições às instituições, tanto no Rio de Janeiro como em Brasília. Nada sugere que as condições que permitiram a procrastinação do processo e que quase resultaram em impunidade tenham sido superadas. A elucidação da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes é um ponto de partida, e não de chegada, para a reconstrução das forças de segurança pública e a refundação do sistema de Justiça fluminense. É também um exemplo de como a Justiça precisa reencontrar o equilíbrio, o distanciamento e a fundamentação técnica.

A caravana passa

Por O Estado de S. Paulo

UE anuncia vigência provisória de acordo com o Mercosul, a despeito da gritaria francesa

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou na sexta-feira passada que o acordo comercial firmado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul passará a valer em caráter provisório.

Excelente, a notícia coroa os esforços dos países do Mercosul, cujos Parlamentos já aprovaram o tratado de livre-comércio com os europeus (caso de Argentina e Uruguai) ou estão em vias de fazê-lo – no Brasil, o acordo já teve o sinal verde da Câmara e está para ser confirmado também pelo Senado.

Do lado europeu, o anúncio de Von der Leyen demonstra que, a despeito da recalcitrância, sobretudo francesa, a UE finalmente desperta para a necessidade de agir de modo pragmático.

Verdade seja dita, o bem-vindo pragmatismo europeu ganhou um empurrão involuntário do presidente dos EUA, Donald Trump. Os desmandos tarifários do republicano, mesmo que recentemente invalidados pela Suprema Corte americana, seguem abalando as relações globais de comércio, que há meses estão sob o signo da incerteza.

Desprestigiada pelo outrora parceiro estável e cada vez mais inundada por toda sorte de produtos chineses, a Europa precisa sair da letargia. Ou supera o preconceito em relação aos produtos do Mercosul e aceita que o agronegócio sul-americano neste momento é mais eficiente que o superprotegido agro europeu, ou ficará em ainda mais desvantagem em relação aos EUA e à China.

Com o anúncio de adoção provisória do tratado UE-Mercosul, o acordo comercial entre os blocos regionais que correspondem a cerca de um quarto do PIB global, e nos quais vivem mais de 700 milhões de pessoas, poderia passar a valer, no melhor dos cenários, já em abril.

Além das ratificações ainda pendentes nos Legislativos brasileiro e paraguaio, há trâmites burocráticos a serem formalizados para que o acordo possa finalmente passar a valer.

Será um primeiro e grande passo, mas não o último. O acordo só pode ser totalmente concluído depois que o Parlamento Europeu der seu consentimento para tal, processo que levará tempo. Isso porque os eurodeputados opositores conseguiram, ainda em janeiro, aprovar por 334 votos a favor e 324 contrários uma moção que exige que o Tribunal de Justiça da UE determine se o acordo com o Mercosul é compatível com outros tratados da União Europeia. Tal parecer pode levar até dois anos para ser emitido.

Foi em reação à judicialização do tratado que a Comissão Europeia resolveu adotá-lo em caráter provisório. De acordo com Von der Leyen, a decisão se deu após “conversas profundas sobre essa questão com os Estados-membros e com os deputados”.

A França, como era de se esperar, reagiu mal à notícia. O presidente Emmanuel Macron classificou o anúncio de Von der Leyen como uma “má surpresa” e uma “decisão unilateral”. Novos protestos ruidosos de agricultores franceses contra produtos do Mercosul certamente seguirão ocorrendo.

A realidade, contudo, segue se impondo, e por mais que haja gritaria, a caravana UE-Mercosul passa.

Ataque dos EUA ao Irã terá impactos na economia global

Por Valor Econômico

O maior canal das turbulências na economia brasileira é o financeiro, com ameaça de alta significativa do dólar

As incursões militares do presidente Donald Trump abrem um novo capítulo no Irã e no mundo sem um ditador sanguinário, mas levantarão novas incertezas econômicas globais. Ataques aéreos conjuntos de EUA e Israel, dois dias após uma rodada de negociações com o país, mataram o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, o líder da poderosa Guarda Revolucionária, Mohammed Pakpour, e outros chefes militares. Trump conclamou o povo iraniano a "tomar o governo em suas mãos", disse que a ofensiva militar durará "o tempo que for necessário" enquanto mísseis e drones iranianos alvejavam Bahrein, Emirados Árabes, Catar, Israel e Kuwait. O fluxo de cargueiros no Estreito de Ormuz, no sul do Irã, por onde transitam 20% do petróleo mundial, cessou.

O mundo sem Khamenei está melhor, mas a ação de Trump lança o Oriente Médio em destino desconhecido e não garante o fim do regime de terror iraniano. No Irã, pelo menos 7 mil pessoas foram assassinadas em protestos recentes. Durante as mais de quatro décadas em que comandou o país, financiou o terror pelo mundo, da Argentina à Europa, sem falar de Israel.

Trump mostrou preferência por ataques aéreos fulminantes, sem deslocamento de tropas para áreas de intervenção. Atos de força irrestrita, como a captura de Maduro, na Venezuela, foram suficientes para levar a casta do regime chavista a um acordo com os EUA pelo qual permaneceriam no poder. Demonstrações desse poder ofensivo no Irã podem não ter o mesmo efeito. Mas há divergências entre facções na Guarda Revolucionária, e uma saída "pelo alto", como na Venezuela, ainda é possível. Trump disse ontem que o governo interino iraniano reivindicou negociação, sinal de fraqueza esperado, com o qual concordou.

Uma resistência prolongada, no entanto, coloca problemas difíceis de resolver para os EUA. Se Teerã fechar o Estreito de Ormuz e bombardear países vizinhos e cargueiros de petróleo, fracassará a tática de Trump de vencer a guerra apenas pela esmagadora hegemonia do poder aéreo. Nenhuma das intervenções anteriores na região, todas mal-sucedidas, prescindiu de tropas de ocupação no terreno. Pesquisa recente da YouGov mostrou que só 27% dos americanos apoiavam uma ofensiva militar contra o regime dos aiatolás. Não há também o apoio bipartidário, como o reunido por George W. Bush para atacar o Iraque.

Com a perspectiva de caos em alta e do fornecimento do petróleo em xeque, ondas de turbulência atingirão a economia mundial. Sem resolução rápida do conflito, as cotações do óleo podem chegar a US$ 100 o barril ou mais, segundo analistas. Na guerra dos 12 dias, em junho, o barril do Brent subiu para US$ 80 (hoje está em US$ 73). As consequências para a economia global seriam menor crescimento, mais inflação, juros maiores e dólar em alta.

Com o petróleo a US$ 100 o barril, analistas estimam que a inflação global em um ano suba 0,7 ponto percentual. Economistas do Barclay's calculam que a cada 10% de aumento das cotações, a economia americana crescerá menos 0,1 a 0,2 ponto percentual em 12 meses. O dólar terá um impulso maior, de 0,5 a 1 ponto percentual de valorização (Financial Times, ontem). Os bancos centrais teriam mais um fator de incerteza a acrescentar, especialmente o Federal Reserve. A balança das ações do banco tem pendido para a suposta fraqueza do mercado de trabalho e poderá se deslocar para o lado da inflação, que chegaria a 4% com a barril a US$ 120. O corte de juros seria interrompido, com estímulo à alta do dólar. Os efeitos gerais de um choque no petróleo seriam estagflacionários (menor expansão com inflação).

As consequências podem não ser tão intensas, porém. O Irã produz pouco mais de 3% da oferta global (3,45 milhões de barris por dia) e a Opep, organização do cartel do petróleo, decidiu ampliar em 206 mil barris/dia sua produção, para evitar a disparada das cotações. Em seu primeiro governo, Trump desmanchou o Plano de Ação Global Conjunta, de 2015, o acordo feito pelos EUA, membros do Conselho de Segurança da ONU e Irã para monitorar o processo de enriquecimento do urânio e evitar que o país atingisse nível capaz de permitir a fabricação de artefatos nucleares.

Com negociações, seria possível hoje fazer novo acordo com um esquema de vigilância mais severo que deixasse o governo do Irã com margem política para não significar capitulação. Trump fechou as portas ao exigir o desmantelamento completo do programa. A ofensiva militar subsequente é um salto no escuro.

O Brasil controla o preço doméstico do petróleo, e os repasses de eventuais altas não são imediatos. O maior canal de transmissão para a economia brasileira das turbulências é o financeiro, em que a alta do dólar frearia a queda em curso da inflação e levaria o Banco Central a rever o ritmo de redução das taxas de juros.

Escalada na tensão global

Por Correio Braziliense

Bombardeios americanos contra o Irã marcam fim da contenção e colocam Oriente Médio e economia mundial em alerta

A eclosão de um conflito direto entre as forças dos Estados Unidos e do Irã no último dia de fevereiro de 2026 marca o fim de uma era de contenção e o início de uma jornada imprevisível para a segurança global. Quando duas potências com capacidade bélica expressiva se colocam em rota de colisão, o mundo inteiro sente os efeitos — seja nos mercados, seja na segurança, ou na política. O que antes eram ameaças retóricas e sanções econômicas evoluiu para ofensiva militar aberta, justificando-se sob a bandeira da "mudança de regime" e da neutralização das ambições nucleares de Teerã.

A decisão da Casa Branca de autorizar bombardeios contra o aparato militar iraniano e instalações de mísseis coloca o Oriente Médio em um estado de alerta extremo. O objetivo declarado de "arrasar a indústria de mísseis" do Irã carrega o risco de uma escalada no conflito. O Irã, embora sob forte pressão econômica interna e protestos populares, detém uma estrutura de segurança resiliente e uma rede de aliados regionais capaz de transformar um ataque em uma guerra regional prolongada.

Diante da morte do seu líder supremo, Ali Khamenei, o Irã prometeu "a maior ação ofensiva da história da República Islâmica". O presidente Donald Trump rebateu e afirmou que os Estados Unidos atacarão o Irã com "uma força nunca antes vista", caso haja retaliação.

A ampliação do conflito pode comprometer rotas estratégicas de energia, pressionar o preço do petróleo e, por consequência, alimentar a inflação em diversos países. Qualquer abalo tende a repercutir de forma imediata nos custos de transporte, na produção industrial e no poder de compra das populações.

A principal arma de Teerã não é apenas o seu arsenal de drones, mas a geografia. O Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do petróleo mundial, está sob ameaça direta de fechamento ou bloqueio parcial. Analistas já projetam o barril de Brent batendo nos US$ 100 caso a interrupção no fornecimento se prolongue.

No campo diplomático, o conflito impõe desafios adicionais. O Brasil, historicamente, defende soluções negociadas e o fortalecimento do multilateralismo. Em meio à polarização crescente no cenário internacional, manter uma postura equilibrada, comprometida com o diálogo e com o direito internacional torna-se tarefa delicada. O Itamaraty já condenou os ataques e pediu a proteção de civis. O desafio será equilibrar as relações com os EUA sem sacrificar parcerias comerciais estratégicas no Oriente Médio e nos Brics.

O momento exige prudência e responsabilidade das lideranças globais. A diplomacia não é sinal de fraqueza, mas instrumento essencial de contenção de danos e construção de estabilidade. A história demonstra que conflitos prolongados raramente produzem vencedores claros; ao contrário, deixam um rastro de perdas humanas, econômicas e institucionais. Para o Brasil e para o mundo, a escalada entre Estados Unidos e Irã é um lembrete contundente de que a paz internacional é um ativo frágil.

O mundo precisa reencontrar o espaço do diálogo

Por O Povo (CE)

A cuidadosa postura adotada pela diplomacia brasileira, como de resto fez a maioria dos países não envolvidos com o conflito, apresenta um apelo ao diálogo que talvez nem faça sentido no momento atual. Mas é a postura correta

O regime em vigência no Irã é indefensável, não há como justificar as ações de um governo que impõe sua vontade absoluta sobre o povo, tirando-lhe a liberdade nos vários aspectos que a ela dizem respeito. Ao longo do tempo, acumulam-se casos de cidadãos e cidadãs vítimas de punição rigorosa, em circunstâncias até com a perda da própria vida, pelo "crime" de não pensar como as autoridades querem e, às vezes, pelo simples fato de não obedecerem a costumes e comportamentos de fundamento religioso. Coisa inaceitável para o mundo civilizado.

Apesar de tudo que está dito acima com clareza, o ataque articulado das forças militares de Israel e dos Estados Unidos, que levou a centenas de assassinatos no Irã, dentre elas a do líder supremo, Aiatolá Ali Khamenei, precisa de melhores informações para ser entendido como totalmente aceitável pela comunidade internacional.

Algo precisava ser feito para resgatar a dignidade, até, da população iraniana diante do sofrimento que lhe impõe uma ditadura teocrática, mas, há dúvida se o melhor caminho a adotar seria o uso da violência no plano em que isso se deu. Deixando um rastro de destruição e mortes, além da perspectiva de desdobramentos que espalharão geograficamente seus efeitos ao longo dos próximos dias. Pelo menos.

É uma crise de consequências inevitáveis no plano global, começando, para simplificar a compreensão geral sobre isso, pelo fechamento do Estreito de Ormuz, anunciado pelas autoridades iranianas e que se estenderá, num primeiro momento, pelo menos até o dia de hoje. Por ali passa 20% do petróleo que move o comércio mundial, o que representa, de imediato, um impacto no preço de um produto fundamental à economia de todos os países, praticamente sem exceção.

A cuidadosa postura adotada pela diplomacia brasileira, como de resto fez a maioria dos países não envolvidos com o conflito, direta e indiretamente, apresenta um apelo ao diálogo que talvez nem faça sentido no momento atual. No entanto, é o correto a dizer, mesmo que sendo apenas um gesto protocolar e o efeito prático esperado seja nenhum. Não sairemos da encalacrada na qual nos encontramos sem a recuperação das instâncias que até outro dia apresentavam alguma capacidade de abrir espaço para fazer da conversa a arma mais eficaz para solução dos grandes conflitos.

As guerras e confrontos que se espalham mundo afora, algumas delas já nem noticiadas diante do grau de normalidade absurda a que chegou o cenário, parecem muito justificadas pelo esvaziamento da Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo.

Talvez o momento tenso e que exige saídas urgentes para poupar vidas e evitar mais mortes e mais perdas não recomende que o assunto seja trazido agora à pauta, mas, assim que as condições permitam, os líderes responsáveis precisam discutir uma forma de recuperar o status que a ONU um dia teve de espaço de solução para as grandes crises sem que a eliminação física do rival se apresente como condição inicial, às vezes única, para busca de uma vitória.

 

 

 

 

 

 

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