Valor Econômico
Supersalários, contrato com escritório de
familiares, transações milionárias e blindagem corporativista criam caldo de
cultura para revolta
Passados mais de dez anos, até hoje se discute por que um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus levou milhões de pessoas às ruas de todo o país em junho de 2013.
Assim como acontece na química, certos fenômenos históricos são fruto de uma energia acumulada que, a partir de uma faísca ou descarga elétrica, ultrapassa um ponto crítico e se precipita numa reação abrupta e violenta, abalando todo o sistema que parecia em equilíbrio.
Na quinta (26), o ministro Gilmar Mendes
proferiu discurso em comemoração aos 135 anos do Supremo. Das onze páginas
lidas em plenário, foram feitos uma reconstituição histórica da atuação do STF
desde a proclamação da República, uma autoelogiosa pregação sobre sua atuação
nos últimos anos e, por fim, um ataque àqueles que, na sua visão, criticam
injustamente as práticas da Corte.
É inegável o papel que os ministros do
Supremo tiveram ao afirmar a autonomia dos governadores e prefeitos contra a
atitude negacionista do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.
Da mesma forma, o STF não se curvou ao medo
das fardas e dos tanques e, de forma inédita, condenou um ex-presidente e seus
auxiliares de alta patente nas Forças Armadas por tentativa de golpe de Estado.
Por terem “literalmente, salvado milhares de
vidas” e ao evitarem “a debacle da democracia brasileira”, os ministros do STF
deveriam, no entender do ministro, ser tratados com “maior parcimônia” pela
imprensa brasileira.
“Caso um alienígena chegasse ao Brasil e
acompanhasse apenas o noticiário dos últimos dias, ele provavelmente imaginaria
que todos os problemas do país se restringem ao Supremo, e que essa seria a
única instituição brasileira a merecer aprimoramentos”, considerou Gilmar
Mendes.
Para o decano do STF, “um profundo senso de
dever público (...) guia a atuação de cada um de seus integrantes”, que exercem
seu trabalho “com altivez e integral dedicação - muitas vezes sob um custo
pessoal altíssimo e pesados sacrifícios individuais em prol do país”.
Também não haveria por que questionar a
conduta de seus colegas de Corte: “a impessoalidade e independência que
caracterizam nossa atuação não se dobram a pressões e interesses de qualquer
natureza”, assegurou.
Quem lê essas palavras deve se questionar,
isso sim, em que planeta vive Gilmar Mendes. Afinal, os acontecimentos dos
últimos meses exigem esclarecimentos sobre dois dos membros do Supremo - mas as
decisões tomadas pelos seus pares vão na direção oposta, da defesa corporativista
dos colegas sob suspeita.
Quando investigações policiais (e não uma
imprensa ressentida, como insinuou Gilmar Mendes) revelam que um réu fazia
pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões para o escritório da esposa e dos filhos
de um ministro e o mesmo acusado realizou aportes de R$ 35 milhões num
empreendimento que tinha outro ministro e seus irmãos como sócios, é urgente
que as duas autoridades venham a público demonstrar que essas relações não são
o que toda a sociedade desconfia: pagamento de propina em troca de proteção
judicial.
Ao silêncio constrangedor dos ministros se
soma a cumplicidade na resposta que o STF tem dado aos casos.
Afastar Dias Toffoli da relatoria do processo
do Master não elimina as dúvidas sobre as suas relações com Daniel Vorcaro.
Pior ainda foi a decisão de Gilmar Mendes de vetar a quebra de sigilo fiscal e
bancário da empresa do ministro pela CPMI do Crime Organizado.
Aliás, o mesmo Gilmar Mendes que no discurso
de 135 anos do STF louvou o habeas corpus como “escudo universal contra
qualquer violência ou coação por ilegalidade ou abuso de poder” usou do mesmo
instrumento para travar uma investigação parlamentar sobre uma possível
ilegalidade ou abuso de poder praticada por seu colega.
Na mesma preleção, Gilmar Mendes também
destacou - numa fala de improviso, não registrada no discurso oficial - “a
importância histórica do inquérito das fake news”. Esse mesmo expediente, de
tão questionada legalidade, foi usado pelo mesmo ministro Alexandre de Moraes
para constranger, com uma investigação policial, servidores da Receita Federal
acusados de pesquisar dados sobre integrantes do STF e seus parentes.
Enquanto a mancha da suspeição se espalha
sobre todo o STF, entidades da sociedade se mobilizam. Na semana passada a OAB
pediu publicamente o fim do inquérito das fake news. Hoje, diversas entidades
se reúnem na Faculdade de Direito da USP para proclamar que “ninguém está acima
da lei”.
É preciso que o STF se mova antes que seja
tarde demais. Um caldo de cultura, fermentado com notícias diárias sobre
supersalários na magistratura, se forma contra o Poder Judiciário brasileiro.
As eleições de outubro para o Senado terão
como principal tema a necessidade de fazer o impeachment de ministros do STF. E
a população brasileira está a ponto de aderir a qualquer populista que se
levantar à direita com uma motoserra ou à esquerda com eleições diretas para a
escolha de juízes, como aconteceu na Argentina e no México.

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