terça-feira, 26 de abril de 2022

Andrea Jubé: O peixe e os candidatos morrem pela boca

Valor Econômico

Aliados dizem que indulto não abalou imagem presidencial

Existe ao menos um consenso no comando das campanhas dos candidatos que despontam em primeiro e segundo lugar nas pesquisas sobre a sucessão presidencial: o caminho está pavimentado para o triunfo. Somente erros do próprio candidato o desviarão da rota da vitória eleitoral.

O presidente Jair Bolsonaro tem ouvido de aliados que, na atual conjuntura política, e diante de seu desempenho nas pesquisas, “ele só perde a reeleição para ele mesmo”.

No campo do adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviu de lideranças petistas e de aliados de outros partidos, durante jantar recente em Brasília, que “ele só perde a eleição para ele mesmo”.

Em resumo, a dupla de favoritos nas pesquisas foi aconselhada por aliados a falar menos, ou a pensar duas vezes antes de falar nos últimos dias.

Até a semana passada, Bolsonaro vinha seguindo recomendação dos principais caciques do Centrão de manter a postura de moderação adotada logo após a crise provocada pelos atos contra a democracia de 7 de Setembro do ano passado.

Naquele Dia da Independência, Bolsonaro ameaçou o Supremo Tribunal Federal (STF) e atacou integrantes da Corte. “Ou o chefe desse Poder enquadra o seu [ministro], ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”, avisou Bolsonaro, em recado ao presidente do STF, Luiz Fux, em alusão às decisões do ministro Alexandre de Moraes.

Havia menos de um mês, Moraes havia determinado a prisão do ex-deputado Roberto Jefferson, aliado de Bolsonaro. Horas depois, em ato na Avenida Paulista, o presidente chamou Moraes de “canalha” e avisou que não cumpriria decisões do magistrado. Também desafiou a Justiça Eleitoral: “não é uma pessoa ou o Tribunal Superior Eleitoral que vai dizer que esse processo é seguro, porque não é “, sobre o voto eletrônico.

A aliança com o Centrão era recente e Bolsonaro ouviu de caciques do bloco que deveria baixar o tom porque pesquisas internas indicaram queda de popularidade decorrente do comportamento agressivo contra as instituições democráticas, como o STF ou o Congresso Nacional.

O ex-presidente Michel Temer entrou em campo como bombeiro e Bolsonaro divulgou uma carta, dois dias depois dos insultos ao STF, afirmando que nunca teve intenção de “agredir quaisquer Poderes”, que suas declarações ocorreram no “calor do momento” e que suas diferenças com Alexandre de Moraes seriam resolvidas dali em diante na esfera judicial.

Foi o que aconteceu por muito tempo. Em uma das crises posteriores, quando Moraes intimou Bolsonaro a depor presencialmente na Polícia Federal (PF) sobre o vazamento de um inquérito envolvendo suspeita de violação das urnas eletrônicas, o presidente comunicou o ministro que não compareceria ao ato. Mas o fez em petição da Advocacia-Geral da União (AGU) e a PF aceitou os argumentos da ausência presidencial.

Na quinta-feira, a resposta ao STF à condenação do deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) a uma pena de oito anos e nove meses de prisão se deu em uma instância legal, decorrente de prerrogativa constitucional do presidente da República.

A reação de Bolsonaro foi considerada polêmica e suscitou questionamentos, mas não houve ofensas verbais ao STF. Sondagens internas, encomendadas pelo Centrão, revelaram que não houve desgaste significativo na imagem do presidente por causa do indulto concedido ao aliado.

Em outra frente, Lula ouviu críticas veementes de aliados pelas declarações polêmicas recentes sobre aborto e estimulando militantes a assediarem políticos e seus familiares em suas residências. Especialmente em relação à fala sobre o aborto, a leitura foi de que Lula foi tecnicamente correto, mas a abordagem foi inoportuna. No dia seguinte, o petista se retificou em entrevista a uma rádio do Ceará: “A única coisa que eu deixei de falar, na fala que eu disse, é que eu sou contra o aborto. Eu tenho cinco filhos, oito netos e uma bisneta”, destacou. “O que eu disse é que é preciso transformar essa questão do aborto numa questão de saúde pública”, esclareceu.

Advertido pelos aliados, Lula optou pelo silêncio na polêmica referente ao perdão concedido por Bolsonaro a Daniel Silveira. Adversários criticaram seu silêncio sobre o tema, mas aliados comemoram a postura estratégica. A leitura interna foi de que seria equivocado entrar na nova crise provocada por Bolsonaro com o STF, enquanto o presidente se distancia de problemas reais do brasileiro como fome, inflação e desemprego.

Mas se Lula se blindou da crise do indulto bolsonarista, seus aliados do PT insistem no erro ao lavarem roupa suja em praça pública. Todas as desavenças da área de comunicação estampam as páginas dos jornais diariamente, expondo as entranhas das rivalidades internas e das disputas de poder na coordenação de uma ainda pré-campanha.

Bolsonaro também tem que lidar com o embate interno entre seus aliados dos núcleos político e militar. Os militares foram alijados das decisões estratégicas da campanha e Bolsonaro tem que administrar o fogo amigo nos corredores do Palácio do Planalto.

Mas se Lula acertou ao falar menos diante da nova armadilha bolsonarista, Bolsonaro alarmou os caciques do Centrão ao voltar a subir o tom contra o STF. Ontem, na abertura do Agrishow feira de tecnologia agrícola em Ribeirão Preto, o presidente sugeriu que pode desobedecer eventual ordem judicial do Supremo sobre demarcação de terras indígenas. “Se ele [ministro Edson Fachin] conseguir vitória disso [marco temporal], me resta duas coisas: entregar as chaves para o Supremo, ou falar que não vou cumprir [a decisão]”, disse Bolsonaro, sob efusivos aplausos.

Os alvos de Bolsonaro são estratégicos e tumultuam a cena eleitoral: Fachin é presidente do TSE e Moraes presidirá as eleições, após suceder a Fachin em agosto. Em resumo, aviso não faltou aos candidatos: na política, o peixe também morre pela boca.

 

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