quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Amigo cidadão - Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

O aviso de Kakay vai além de amizade responsável, alerta que a esquerda não percebeu as transformações que exigem mudanças nos propósitos e na forma de fazer política

Um ditado antigo diz "amigo do rei que o avisa, além de amigo, é bom cidadão". Ao avisar que o isolamento do PT e do presidente Lula pode levar os eleitores a caírem na tentação por regime autoritário de direita, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, foi amigo e cidadão. Sua manifestação vai além de amizade responsável, alerta que a esquerda não percebeu as transformações tecnológicas, sociais, culturais, econômicas e ecológicas que ocorreram nas últimas décadas, exigindo mudanças nos propósitos e na forma de fazer política. O mundo entrou no século 21, mas ideias da esquerda continuam em séculos passados. Isso não é problema para a direita conservadora, mas é a negação da esquerda progressista.

A esquerda não viu que os trabalhadores do setor moderno foram incorporados entre os beneficiários do progresso capitalista e, no lugar de revolução, agora defendem privilégios que adquiriram e não são distribuíveis a todos. Por isso, na Europa e nos Estados Unidos se opõem aos imigrantes e no Brasil excluem os pobres, tratados como "inmigrantes", imigrantes sociais. Não percebe que o individualismo consumista move mais vontades e paixões políticas do que o sentimento de classe e de solidariedade. Demorou a entender os limites ecológicos ao crescimento econômico e, quando passou a falar no tema, defende apenas a conservação da natureza, sem oferecer uma alternativa de bem-estar com sustentabilidade.

A esquerda continua querendo se diferenciar da direita ao prometer política distributiva, sem perceber que, na atual era de limites, a distribuição de benefícios exige sacrifício dos que já foram beneficiados. Não entendeu que a sociedade se divide não apenas entre capitalistas e trabalhadores, mas entre esses dois de um lado e as massas pobres excluídas de outro, em um sistema de apartação: condomínios e favelas, "escolas casa grande" e "escolas senzala". A esquerda não apresenta esperança que emancipe a população pobre da necessidade de sobreviver graças a bolsas que já são propostas incorporadas pela direita. Não está trazendo esperança para os jovens que preferem a liberdade do empreendedorismo à segurança por leis em que não confiam. 

Não percebeu que o avanço técnico que antes gerava abundância por aumentar a produção dos mesmos bens, agora aumenta necessidades por inovar criando novos bens cuja oferta está limitada por razões ecológicas; nem percebeu que o Estado se esgotou fiscal, moral e gerencialmente, não permitindo mais a mágica de oferecer benefícios públicos no presente jogando o pagamento para as gerações futuras, sob forma de depredação da natureza, inflação e dívida. Não entende que a justiça social só caminha sobre economia eficiente que depende da responsabilidade fiscal do governo e do talento e empreendedorismo de indivíduos.

A esquerda não viu que seu fracasso eleitoral decorre menos de sua incompetência em comunicar-se pelas novas redes sociais e muito mais por falta de propostas, esperanças e sonhos sintonizados com a realidade do individualismo e dos limites de recursos ecológicos e fiscais, que já não permitem aumentar benefícios sem reduzir privilégios, e que a única maneira de avançar a civilização é oferecer uma utopia diferente daquela a que se acostumou e nostalgicamente não ousa livrar-se dela. 

Não percebe que, ao optar pelo eleitoralismo de vantagens individuais imediatas, cai no campo em que a direita leva vantagem. Que a defesa de direitos identitários obscurece a percepção da desigualdade que divide cada identidade conforme a classe social do indivíduo. Não percebe que as lúcidas defesas de avanços nos costumes começaram a incomodar aos arraigados valores morais e às crenças religiosas que a população tem o direito de manter.

Não percebeu que uma utopia possível e necessária consiste em acenar com um sistema nacional de educação com qualidade e equidade, independentemente da renda e do endereço, filhos de pobres e ricos na mesma escola com qualidade entre as melhores do mundo. Além da visão do capital monetário, não percebeu os tempos do capital conhecimento, por isso prefere apoiar greves dos trabalhadores da educação que apoiar os interesses dos alunos. Prefere continuar como o partido do sindicato de professores em vez de ser o partido da educação.

Em seu conservadorismo ideológico e apego ao passado, sua prisão ao eleitoralismo e aos privilegiados, a esquerda não parece capaz de entender que o amigo que avisa ao rei é amigo e cidadão.

*Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

 

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