Valor Econômico
Mesmo que a reversão da queda da aprovação do
governo Lula não seja trivial, é presunção assumir que a chance de reeleição do
presidente seja reduzida
A aprovação do governo Lula na pesquisa da
Datafolha alcançou 24% em fevereiro de 2025, o nível mais baixo dos seus três
mandatos. Após se manter relativamente estável em 2023 e 2024, a aprovação
recuou 11 pontos percentuais (pp) frente à pesquisa de dezembro, com diminuição
de 14 pp entre os que têm mais de 60 anos, 15 pp entre aqueles com menor
escolaridade, 15 pp nos eleitores com renda inferior a dois salários-mínimos e
20 pp nos que votaram em Lula no segundo turno.
Apesar de não ser possível apontar com precisão as causas da abrupta queda da aprovação do governo no início de 2025, vários fatores ampliaram a insatisfação da sociedade nos últimos dois anos:
Alta dos preços de bens e
serviços, em particular de alimentos: o declínio da
aprovação vai de encontro ao aumento do salário em termos reais desde 2023,
ainda mais em um ambiente de forte melhoria das condições do mercado de
trabalho e de expressivo crescimento. Não obstante, a popularidade entre a
população mais pobre pode ter sido afetada negativamente pelo impacto da
elevada inflação de alimentos, uma vez que esse público destina parte
considerável da sua renda para alimentação. Mesmo com o seu declínio gradual, a
alta inflação acumulada nos últimos anos em diversos países, inclusive no
Brasil, tem sido umas das críticas mais contundentes contra os seus
governantes, contribuindo para as derrotas eleitorais de alguns deles.
Novos programas de governo
não avançaram: a
conexão dos pobres com Lula advém do seu discurso historicamente favorável a
esse segmento, sobretudo após o Bolsa Família. Como esse programa atrai cada
vez menos votos para Lula, pois todos os grupos políticos defendem sua
preservação, parte da queda da aprovação do governo pode se dever à ausência de
novas iniciativas a favor dos pobres. Projetos como os Programas Pé de Meia e
Mais Acesso a Especialistas, bem como a ampliação do Farmácia Popular e os
estímulos à expansão do crédito consignado, têm tido impacto limitado na
popularidade devido à demora nas suas implementações.
Sociedade mais conservadora: o perfil cada
vez mais conservador da população pode explicar a maior desaprovação de um
governo de partidos com agenda mais liberal, como o direito de aborto e a
defesa de vantagens para as minorias. A florescente representatividade de
evangélicos no Congresso reforça essa agenda e as críticas ao governo.
Mensalão ensinou que é prematura a crença de
que a forte queda de popularidade no meio do mandato impede reeleição
Oposição às equivocadas
propostas da esquerda: a progressiva valorização do empreendedorismo pode
estar aumentando o ceticismo dos brasileiros sobre o desejo do presidente de
uma maior participação do Estado na economia. Do mesmo modo, a contrariedade de
Lula com sua falta de influência em empresas que outrora tiveram controle
estatal amplifica o receio de recrudescimento dos malfeitos envolvendo o setor
público.
Corrupção mais perceptível: a maior
insatisfação pode refletir a sensação de aumento da corrupção na atual gestão.
A defesa do presidente a favor da presença de políticos e de seus indicados nas
estatais reforça esse sentimento em um contexto de recorrentes notícias de
malversação de recursos públicos.
Captura do setor público: a ampliação das
renúncias tributárias e dos benefícios a grupos privilegiados, como o pagamento
para a elite do funcionalismo público de salários muito além do teto
constitucional, tem sido muito explorada na imprensa e nas redes sociais, o que
amplia a revolta da população contra os privilégios excessivos concedidos pelo
setor público.
Mau uso do dinheiro
público: o
maior número de ações do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Polícia Federal
contra o desvio de verbas públicas pode estar reforçando a insatisfação com os
malfeitos e a má utilização de recursos escassos.
Perda de apoio entre
eleitores do presidente em 2022: parte dos votos de Lula veio de
eleitores contrários às propostas da esquerda, mas que votaram na sua
candidatura por aversão ao risco de eventos não democráticos. Terminada a
eleição, a insatisfação desse grupo ressurgiu de imediato.
Maior endividamento público: embora entenda
os seus próprios privilégios como direitos, parte da população começa a
responsabilizar o governo pelos gastos disseminados que tornam as contas
públicas deficitárias e geram impactos negativos sobre a inflação e o
crescimento.
Comunicação deficiente: as falhas no
diálogo com a sociedade têm gerado desgastantes desmentidos do governo,
facilitando as críticas de uma oposição mais ágil e acostumada às mídias
sociais. Essa situação é recorrente, como na crise do Pix, quando a Receita
publicou medida para obter mais informações sobre as transferências. A
divulgação de que o objetivo da medida era o de aumentar a tributação dos mais
pobres ampliou a insatisfação, exigindo que um atordoado governo desistisse da
proposta.
Falta de preparo em
entrevistas: o
improviso de Lula nas suas manifestações cria embaraços, desgastando a imagem
do governo. Exemplos como as críticas aos intermediários do setor de petróleo e
os discursos de estar melhor hoje aos 79 do que 30 anos atrás são vistos como
enganosos.
Menor presença do presidente
na mídia e em viagens domésticas: a posse na Secretaria de Comunicação
do responsável pelo marketing da campanha de Lula em 2022 trouxe a orientação
para o presidente assumir maior protagonismo na mídia e viajar mais pelo país
para reverter o declínio da sua popularidade. A antecipação prematura da
campanha eleitoral é, porém, um fator negativo.
Mesmo que a reversão da queda da aprovação do governo Lula não seja trivial, é presunção assumir que a chance de reeleição do presidente seja reduzida. O escândalo do Mensalão em 2004 - quando a oposição e muitos membros do governo davam como certa a derrota de Lula nas eleições seguintes - ensinou que é prematura a crença de que a forte queda da popularidade no meio do mandato impede a reeleição. Assim como em 2004, conjecturas dessa natureza são equivocadas, até porque, faltando 20 meses para a eleição de 2026, não surgirá nome aglutinador na direita enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro disser que é candidato.
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