quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pronunciamento na TV não pode ser propaganda

O Globo

Lula não violou lei eleitoral ao repetir em rede nacional anúncios já feitos antes, mesmo assim está errado

O pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de segunda-feira — o primeiro do ano — não trouxe nenhuma novidade, a não ser o tom informal adotado sob a orientação do marqueteiro Sidônio Palmeira, secretário de Comunicação que assumiu em janeiro. Em pouco mais de dois minutos, Lula anunciou, em meio a expressões coloquiais e metáforas, dois programas que já haviam sido anunciados: o Pé-de-Meia, que cria uma poupança para incentivar a permanência de jovens na escola, e o Farmácia Popular, que fornece medicamentos gratuitamente.

“Venho aqui para falar de dois assuntos muito importantes. Uma dupla que não é sertaneja, mas que está mexendo com o Brasil: O Pé-de-Meia e o novo Farmácia Popular”, disse Lula. “É para os jovens brasileiros que trago a primeira boa notícia. O pagamento da poupança de R$ 1 mil do programa Pé-de-Meia entra amanhã na conta e rendendo.” A iniciativa já havia sido anunciada, até porque o programa está em evidência desde que foi questionado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por não ter sido incluído no Orçamento (valores chegaram a ser bloqueados). Sobre o Farmácia Popular, Lula afirmou que os beneficiários poderão ter acesso gratuito a todos os 41 itens (antes eram 39), que agora incluem fraldas geriátricas. A “novidade” também já havia sido anunciada.

Sem disfarce, Lula usou o pronunciamento para exaltar programas de áreas sensíveis, como educação e saúde, e a própria administração. “Depois de dois anos de reconstrução de um país que estava destruído, estamos trabalhando muito para trazer prosperidade para todo o Brasil”, afirmou. De acordo com reportagem do GLOBO, seus pronunciamentos se tornarão mais frequentes, com o intuito de conter a acentuada queda de popularidade. Pelo último Datafolha, a avaliação positiva do governo caiu 11 pontos em apenas dois meses, de 35% para 24%. A negativa subiu de 34% para 41% — pior desempenho de Lula em seus três mandatos.

A economia, em especial a alta de preços, tem sido apontada como o principal fator para a queda. O governo erra ao pensar que tudo se resume a falha de comunicação e que basta Lula falar mais no rádio e na TV. Por mais que haja problemas na comunicação do Planalto, é difícil divulgar um governo que não tem muito o que mostrar. Ao chegar à metade do mandato, o governo Lula ainda busca uma marca. Até agora, o que tem a apresentar são programas reciclados de administrações anteriores, quase sempre defasados para os tempos atuais. Os erros do governo têm sido percebidos claramente pela população. A popularidade de Lula caiu até entre seus eleitores mais fiéis.

Embora o pronunciamento em cadeia nacional não viole as leis eleitorais neste momento do mandato, está errado Lula reivindicar tempo de TV para reprisar seus programas e exaltar sua administração. Essa modalidade de comunicação não existe para veicular peças de propaganda de olho na reeleição, mas para o chefe de Estado transmitir mensagens de relevo para a nação (até agora, seus pronunciamentos se davam em datas comemorativas). Lula deveria ir à TV quando realmente tivesse algo a falar. A julgar pelas pesquisas, os brasileiros não estão interessados em anúncios de fundo eleitoreiro, mas em resultados concretos. Dois anos e dois meses já são tempo suficiente para ter algo a mostrar.

Guardas Municipais com poder de polícia são positivas para segurança

O Globo

Decisão do STF traz base jurídica à atuação, mas ela precisa ser coordenada com forças estaduais

Foi fundamental a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que permite às Guardas Municipais atuar no policiamento ostensivo e fazer prisões em flagrante. Essas corporações, hoje presentes em 1.322 dos 5.570 municípios brasileiros, se tornaram um reforço crítico para as polícias militares e civis, subordinadas aos governos estaduais. Sobretudo nas grandes metrópoles, onde a sensação de insegurança tem crescido, o poder de polícia lhes dá condição de assumir papel mais ativo nas políticas de segurança pública. Com o aval do STF, bastam agora leis municipais para ampliar seu alcance operacional.

O STF estendeu a atuação das Guardas Municipais ao julgar um recurso da prefeitura paulistana contra a rejeição, pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, de um pedido para que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) pudesse atuar em ações ostensivas. Em 2021, O Supremo já liberara o uso de armas de fogo pelas Guardas Municipais. Mas ainda faltava sustentação legal para que elas obtivessem poderes básicos de polícia. Não falta mais. O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), pretende agora rebatizar a GCM com o nome de Polícia Metropolitana.

No Rio, o prefeito Eduardo Paes (PSD) enviou à Câmara de Vereadores um projeto de lei complementar para, em paralelo à Guarda Municipal, criar a Força de Segurança Municipal, armada, com a missão de policiar regiões onde há grande incidência de crimes. A ideia é que a nova força, com 4,2 mil agentes, atue nos 5,3% da área da cidade onde se concentram 50% dos roubos e furtos, de acordo com estudo do Centro de Ciência Aplicada à Segurança Pública, da Fundação Getulio Vargas.

Ainda que meritória, a iniciativa despertou dúvidas pertinentes, como relata reportagem do GLOBO. A criação de duas categorias de guarda municipal na mesma cidade, com salários e regimes de trabalho distintos, já suscitou questionamento na Justiça. A forma de recrutamento dos novos agentes, por meio de contrato provisório sem concurso público, é outro ponto controverso. “Seria mais fácil e barato treinar os guardas municipais atuais no uso de armas”, diz o coronel Paulo César Amendola, fundador e primeiro comandante da Guarda Municipal do Rio.

Qualquer proposta de ampliação das forças municipais precisa ser criteriosa. O policiamento deve ser planejado com base em dados para distribuir os diferentes tipos de polícia da forma mais eficiente possível — como tenta fazer o projeto de Paes. O ideal é que prefeitos e governadores esqueçam diferenças político-partidárias para permitir uso integrado das polícias, de acordo com suas vocações. Operações de vulto contra organizações criminosas não têm a mesma natureza do combate ao crime de rua. O ministro Luiz Fux, relator do processo que ampliou a atuação das Guardas Municipais, está certo ao afirmar que “essa cooperação é importantíssima” para enfrentar a crise de segurança pública do país.

Governo arrisca ao apostar no crédito para recuperar prestígio

Valor Econômico

O estímulo à tomada de empréstimos, num contexto em que o BC tem que colocar as taxas de juros muito altas para deter a inflação, pode empurrar pessoas e empresas para maior endividamento a custos elevados

O crédito parece ser uma das novas armas do governo Lula para recuperar a popularidade. Mas é também um terreno pantanoso, e se choca com o esforço do Banco Central (BC) de conter a inflação, ao enfraquecer a política monetária, obrigando ao aumento maior dos juros. O presidente prometeu anunciar em breve “a maior política de crédito já feita neste país, e nós vamos fazer porque queremos que este país cresça”. Apenas adiantou que serão medidas para o “pequeno empreendedor, o médio empreendedor e o pequeno empresário” - segmentos em que tem notória avaliação negativa.

Antes disso, se esforçou para viabilizar o consignado para trabalhadores com carteira assinada. Para isso, teve que abrir mão de dois pontos caros aos petistas e que são bastante criticados pelo mercado e pela população alvo da medida. Um deles foi evitar fixar uma taxa máxima de juros para a operação. Além disso, teve que manter o saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que caiu no gosto das pessoas.

Empregados domésticos e trabalhadores autônomos poderão se candidatar ao novo consignado do setor privado porque a contratação ocorrerá por intermédio do e-Social, o que ampliou a base de potenciais beneficiados. No novo modelo, caberá ao trabalhador contratar a operação. No formato atual, é preciso que uma empresa se articule com um banco para oferecer o empréstimo com desconto em folha para seus funcionários. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, aposta que o novo consignado privado oferecerá recursos a taxas cerca de 50% inferiores às de um empréstimo comum.

Para as micro e pequenas empresas, há pelo menos uma nova alternativa de crédito em discussão, como antecipou o Valor (3/1). A ideia é que o empreendedor possa tomar o empréstimo oferecendo como garantia aquilo que vai receber em pagamentos via Pix. As parcelas dos empréstimos serão descontadas do fluxo. Questões tecnológicas dificultam, porém, executar essa ideia no curto prazo.

O governo vai precisar atrair o setor financeiro para implantar esses projetos, dadas as limitações orçamentárias, como ficou comprovado no caso do Plano Safra. O Tesouro suspendeu, desde sexta-feira, as concessões dos financiamentos agrícolas subvencionados no Plano Safra 2024/25, porque o Projeto de Lei Orçamentária de 2025 não foi ainda votado pelo Congresso. Linhas de custeio e de investimentos foram afetadas.

Não há recursos disponíveis para bancar a equalização das taxas prevista no Plano. Quando ele foi anunciado, a Selic estava em 10,5%, e hoje subiu para 13,25%, com perspectiva de novas altas e impacto nas despesas do governo com os financiamentos subsidiados. Estima-se que de R$ 25 bilhões a R$ 50 bilhões em recursos subsidiados ficaram bloqueados com a decisão. Continuam liberados recursos para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Quem fez as contas da variação da Selic já esperava a interrupção dos financiamentos. Nem por isso deixa de causar barulho e mal-estar. A suspensão chega em um momento em que a segunda safra de milho está sendo plantada, a colheita da soja está em curso e a de arroz está começando. Em outras culturas, como o café, é época de produtores fazerem alguns manejos no cultivo. A suspensão afeta um setor não muito amistoso com o governo, o agronegócio, com o qual se conta para sustentar a economia neste ano e para reduzir a inflação dos alimentos.

Diante desse estrago, o governo correu para providenciar uma medida provisória para liberar R$ 4 bilhões em crédito extraordinário para a equalização, valor que, segundo Haddad, está sujeito aos limites do arcabouço fiscal. No entanto, o mercado calcula que serão necessários R$ 5 bilhões extras no Orçamento deste ano para a subvenção do Plano Safra, o que significa mais problemas à frente. Originalmente, o governo previu ao redor de R$ 14 bilhões para a equalização dos juros neste ano, que claramente serão insuficientes.

Os bancos privados estão mais cautelosos e dificilmente entrarão na onda do governo em relação aos empréstimos. As grandes instituições acabam de divulgar bons resultados em 2024, impulsionados pelo crédito. As previsões para este ano são, porém, mais modestas diante da cautela inspirada pelas piora das previsões para o cenário econômico e o receio de aumento da inadimplência.

Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil (BB) tiveram um lucro combinado de R$ 112,7 bilhões em 2024, com aumento de 16,4% na comparação com o ano anterior. Os quatro fecharam o ano com carteira ampliada de crédito combinada de R$ 4,3 trilhões, que cresceu 13%. Mas as previsões para este ano são menores. Pesquisa da Febraban fala em crescimento pela metade, de 8,5%. Grandes bancos preveem expansão ainda menor, ao redor de 6,5%.

A aposta do governo no crédito também se choca com a política monetária, em que o BC tem de colocar taxas de juros muito altas para deter a inflação. O estímulo à tomada de empréstimos, nesse contexto, pode empurrar pessoas e empresas para maior endividamento a custos elevados. Há dúvidas se as medidas em estudo vão, de fato, reduzir as taxas.

Lula faz de TV e rádio palanque atrás de popularidade

Folha de S. Paulo

Pronunciamento durante uma crise é razoável, mas apelar a declarações quinzenais, como governo cogita, é mera propaganda

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) requereu o uso de rede nacional de meios de comunicação a fim de alardear que promove dois programas de assistência social.

Um deles foi criado em seu primeiro mandato, em 2004, o Farmácia Popular. Faz quase duas semanas, o Ministério da Saúde anunciara que o número de medicamentos ou outros produtos gratuitos passara de 39 para 41.

O outro, o Pé-de-Meia, desde março de 2024 prevê pagar até R$ 3 mil por ano a estudantes do ensino médio matriculados em escolas públicas, de famílias inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais e que tenham frequência mínima à escola.

São programas meritórios. Que mereçam, agora, divulgação em pronunciamento oficial se deve apenas ao fato de que a popularidade de Lula baixou a nível inédito em seus três mandatos.

Depois de se recuperar de uma cirurgia, o presidente retomou no início de fevereiro suas viagens pelo país com o objetivo de recuperar também o seu prestígio. Em muitas delas, concede entrevistas a rádios e TVs locais.

Quase sempre, repete o mote de que vai colocar mais dinheiro na mão dos mais pobres. Desde fins de janeiro, afirma que lançará o "maior programa de crédito da história deste país" —"uma bomba" ainda não anunciada "para não quebrar o encanto"— com linhas que beneficiariam trabalhadores privados (a expansão do consignado), além de pequenos e médios empresários.

Nesta semana, o governo deixou entender que vai liberar o saque imediato de parte dos recursos restantes no FGTS para trabalhadores que haviam optado pela retirada anual e, assim, deveriam cumprir uma quarentena antes de poder ter acesso ao dinheiro.

Em 22 de janeiro, o ministro Ruy Costa (Casa Civil) dissera de modo desastrado que o governo faria "intervenções" a fim de baratear os alimentos. Desde então, Lula reafirma com frequência que terá "conversas" com empresários de modo a conseguir preços menores, sem sucesso algum. Na semana passada, afirmara que o preço elevado dos combustíveis se deve ao "assalto" praticado por intermediários.

Parece evidente que um governo desnorteado e agora atônito pelo tombo nas pesquisas já não mede palavras a fim de reverter sua rejeição. Assim, difunde informações erradas sobre combustíveis e dissemina esperanças falsas quanto a seu poder de controlar preços de alimentos.

Desdenha ainda explicitamente do equilíbrio macroeconômico e espalha a crença de que a distribuição de dinheiro e crédito fartos podem sustentar o crescimento da economia.

É razoável que um governante faça pronunciamentos em momentos de crise ou emergências. É aceitável que, vez e outra, apresente diretrizes. Mas cogitar, como faz o governo petista, que tais declarações informais sejam quinzenais é mera propaganda, um abuso que instituiria o palanque nacional de rádio e TV.

Majorana 1 e a promessa da computação quântica

Folha de S. Paulo

Se confirmada, a inovação tecnológica da Microsoft ampliaria horizontes em áreas como inteligência artificial e medicina

Conta já algumas décadas a proposta de computação quântica, com processadores revolucionários capazes de encapsular o poder de supercomputadores em chips que cabem na palma da mão. O Majorana 1, anunciado pela Microsoft na semana passada, carrega a pretensão de dar o passo decisivo nessa vereda.

Falta clareza sobre a extensão da caminhada ainda por fazer. Se alegações da companhia forem corroboradas com mais dados e obtiverem consenso de outros especialistas, seu artefato poderá revelar-se o equivalente, para essa informática do futuro, do que foi o transístor para a computação como a conhecemos.

Seria desnecessário esmiuçar a física por trás do avanço. Basta dizer que, em lugar de elétrons com que semicondutores processam os zeros e uns da informação digital, o dispositivo da Microsoft lança mão de propriedades peculiares de quasipartículas teorizadas há nove décadas pelo italiano Ettore Majorana.

O termo "quasipartícula" dá boa ideia de quanto a inovação se distancia do senso comum. Trata-se de entidade que conjuga a um só tempo uma partícula e sua própria antipartícula, correspondendo a um outro estado da matéria –nem sólido, nem líquido, nem gasoso.

Tirando partido dessa superposição, a computação dita topológica lograria processamento paralelo muito mais rápido que sequências lineares de zeros e uns. A Microsoft afirma ter alcançado o grau de miniaturização, velocidade e controle de erros necessário para construir chips com 1 milhão de bits quânticos, os qubits.

O Majorana 1, entretanto, contém apenas oito qubits. Galgar as seis ordens de grandeza num processador de tamanho razoável representa desafio de engenharia longe de trivial. A empresa precisou de 17 anos de estudos para chegar ao modesto dispositivo agora divulgado, e teve alguns tropeços no trajeto.

Em 2018, pesquisadores associados ao grupo da Microsoft amargaram a retratação de um artigo científico porque outros especialistas refutaram sua interpretação dos dados. No caso ora em tela, houve quem apontasse, por exemplo, o risco de que impurezas nos materiais sejam as responsáveis pelos efeitos medidos.

Não se exclui, decerto, que o Majorana 1 tenha de fato cruzado o Rubicão da computação quântica. Se comprovado, terá impulsionado a tecnologia até o limiar de uma nova era para o desenvolvimento de materiais, a medicina de precisão e a inteligência artificial, entre outros campos com apetite voraz por processamento.

‘Tudo de graça’

O Estado de S. Paulo

Pressionado pela queda na popularidade, Lula faz comício travestido de pronunciamento oficial e oferece ‘tudo de graça’ a um eleitor que já não se deixa seduzir facilmente pelo seu falatório

No pronunciamento que fez em rede nacional de rádio e televisão anteontem, o presidente Lula da Silva exibiu mais um elemento do manual de marketing adotado pelo novo ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Sidônio Palmeira. Nessa cartilha da comunicação presidencial, produzida sob a lógica de comitê eleitoral, revogam-se todas as disposições legais, morais ou políticas em desfavor de uma comunicação pública, republicana, impessoal e apartidária. O mundo mágico de Lula da Silva e de Sidônio Palmeira é outro.

Em pouco mais de dois minutos, o presidente leu o roteiro do seu marqueteiro não como chefe de Estado, mas como candidato; fez um comunicado não como uma prestação de contas ou informação de interesse público destinada à população, mas como uma peça de propaganda eleitoral; apresentou dois programas de seu mandato não como novidade ou celebração de um marco digno de tal, mas como uma das patranhas tipicamente lulopetistas que servem de louvação aos poderes sobrenaturais de Lula da Silva.

“Uma dupla que não é sertaneja, mas que está mexendo com o Brasil: o Pé-de-Meia e o novo Farmácia Popular”, anunciou o presidente, numa fala permeada com imagens de cortes e cenas de atores reproduzindo momentos dos dois programas. Sobre o primeiro, informou-se o pagamento da poupança para os jovens do ensino médio – represado em parte pela marotagem do governo de destinar recursos do programa fora da previsão orçamentária – e descreveu-se uma “ação extraordinária” que “está ajudando 4 milhões de jovens a permanecerem na escola”. A segunda notícia já fora anunciada pela agora ex-ministra da Saúde, Nísia Trindade, isto é, a gratuidade de 100% dos medicamentos do programa, além da oferta de fraldas geriátricas. “Tudo de graça”, resumiu Lula da Silva.

É da graça marqueteira, concentrada num presidente em campanha permanente, que se sustenta a cartilha do seu ministro da Propaganda. Na realidade onírica do lulopetismo, “tudo de graça” não se resume apenas a uma informação literal ou a uma frase de efeito, mas se revela uma ideia-força por meio da qual funciona o modo petista de governar: num País “reconstruído” por Lula da Silva, ao Estado convém dar dinheiro e medicamentos “a quem mais precisa”. Nesse esforço de um presidente convicto de que é o pai dos pobres, ignora-se que, a despeito dos méritos de tais iniciativas, nada, na prática, é de graça – o País paga a conta de qualquer benefício concedido pelo governo, legítimo ou ilegítimo.

Pelo que diz, como diz e quando diz, o pronunciamento é tudo menos um comunicado tradicional ao País, como os brasileiros se acostumaram a ver sempre que um presidente ou algum de seus ministros recorre à rede nacional de rádio e TV. É evidente que, em nome da boa comunicação pública, instituições e autoridades devem modernizar o formato de seus informes. Mas o que está em curso é de outra natureza: trata-se de campanha eleitoral antecipada. Não havia nenhuma urgência que demandasse um pronunciamento oficial do presidente da República. A única urgência óbvia é a queda acentuada da popularidade de Lula.

O ministro da Propaganda mostrou a Lula da Silva que os tempos são outros. Engolfado pelo mau momento nas pesquisas, balançado por uma coalizão instável e hostil e pressionado pela proximidade cada vez maior do ciclo eleitoral de 2026, o governo resolveu agir – do modo lulopetista, claro. Não à toa, a peça publicitária mirou em dinheiro no bolso e medicamento de graça, com foco no brasileiro pobre, aquele que passou a engrossar o índice de desaprovação ao presidente e ao governo.

À certa altura do pronunciamento-comício, Lula da Silva diz algo que trai suas aspirações: “Seguimos ao lado de cada brasileiro e de cada brasileira: para levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”. A frase completa mostra que o presidente se referia à “reconstrução de um País que estava destruído”. Mas, na cosmologia lulopetista, trata-se, no fundo, de uma tentativa de fazer o governo, esse sim, sacudir a poeira e tentar dar a volta por cima.

O inverno da democracia

O Estado de S. Paulo

Ao alinhar os EUA à Rússia na ONU contra a Ucrânia, Trump dá o tom da nova era geopolítica. O mundo está mais confortável para os autocratas, o que desafia as democracias remanescentes

Nenhuma imagem poderia ser mais ilustrativa da nova era geopolítica que o painel de votação na Assembleia Geral da ONU de uma resolução movida pela Ucrânia e apoiada pela Europa, no terceiro aniversário da invasão russa àquele país, anteontem, reconhecendo a Rússia como agressora, pedindo uma paz justa e apoiando a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Junto à Rússia, Bielorrússia, Coreia do Norte, Nicarágua e outros 14 países, os EUA votaram contra. Outros 93 países apoiaram – o Brasil se absteve – e a resolução foi aprovada. Mas não vale o papel em que está escrita. Seu real valor é documentar que agora os EUA estão lado a lado com a Rússia.

Alguns líderes e analistas ainda tentam racionalizar essa atitude. Uns dizem que seria uma manobra para atrair a Rússia, tirando-a da esfera de influência da China, tal como fizeram os EUA em 1972, na presidência de Richard Nixon, ao atrair a China para tirá-la da esfera de influência soviética. Outros afirmam que seria um incentivo para motivar os europeus a ampliar seus investimentos em defesa, reduzindo a dependência em relação aos EUA. A realidade, contudo, é mais simples e cruel: o relógio geopolítico parece voltar à era dos impérios, em que grandes potências redesenhavam o mundo conforme seus interesses comerciais e coloniais.

Em relação às negociações bilaterais sobre a Ucrânia, por exemplo, isso significa que Vladimir Putin continuará afirmando seus objetivos maximalistas – anexar os territórios sob seu controle, alijar a Ucrânia da Otan e mutilar suas capacidades militares – em troca de ofertas econômicas para os EUA, enquanto o tíquete da Ucrânia para a mesa de negociações com Washington são seus recursos naturais.

Essa visão implica uma transição da cooperação multilateral para uma ordem multipolar, na qual a China projeta sua esfera de influência sobre o Leste Asiático e a Rússia sobre a Europa Oriental. O objetivo de Trump é buscar um equilíbrio favorável aos EUA, afirmando uma posição dominante nesse arranjo e ao mesmo tempo evitando conflitos diretos.

Nesse mundo de rivalidade entre grandes potências, a primeira meta de Trump é estabelecer a hegemonia sobre o Hemisfério Ocidental, numa espécie de novo “Destino Manifesto”, e limitar a influência russa e chinesa sobre regiões estratégicas como a Ásia Central ou a África através de relações bilaterais que enfraquecerão ainda mais organizações internacionais como a ONU e outras instituições criadas no pós-guerra.

A dinâmica internacional será marcada por uma fragmentação crescente, mais insegurança territorial, proliferação nuclear e novos realinhamentos determinados menos por valores e ideais comuns do que por necessidades econômicas e de segurança.

A consequência será um mundo mais confortável para os autocratas. Em sua rivalidade, Trump, Putin e Xi Jinping estão unidos por seus desejos de expansão territorial, seu combate aos “inimigos internos” e seu desprezo pelas democracias liberais.

A traição dos EUA à ordem liberal que eles promoveram por quase um século não significa necessariamente seu fim. As forças liberais nos EUA estão sob pressão, mas não desapareceram. Em cerca de um ano e meio o país realizará suas eleições de meio de mandato. A Europa, fragilizada pelo baixo crescimento, excesso de regulações, defesas defasadas e crescimento dos partidos extremistas, ainda tem uma economia dez vezes maior que a da Rússia e equiparável em tamanho à dos EUA, uma base industrial sofisticada, um amplo mercado de exportações e um ambiente jurídico seguro para os negócios. E ela pode buscar alianças com outras democracias liberais no mundo, como Japão, Coreia do Sul, Austrália ou Canadá.

As Guerras Mundiais e a guerra fria provaram que o autoritarismo é autodestrutivo. Até esse desfecho, contudo, a traição dos EUA, a democracia mais rica e poderosa do mundo, cobrará um altíssimo preço dos próprios americanos e do chamado mundo livre – que, para atravessar esse inverno, precisa resistir e redobrar a aposta na democracia liberal, que tanto progresso trouxe à humanidade.

O pior da inflação está por vir

O Estado de S. Paulo

Diretor do Banco Central diz que IPCA ainda vai piorar até convergir para a meta até 2026

O surto inflacionário, que atinge com especial intensidade os alimentos, ainda vai piorar antes de começar a apresentar alguma melhora, trazendo desafios extras para os próximos meses. Essa foi a principal mensagem do sucessor de Gabriel Galípolo na Diretoria de Política Monetária do Banco Central (BC), Nilton David, em recente evento com representantes do mercado financeiro. David assumiu o cargo em janeiro, quando Galípolo passou a presidir o BC.

A preleção do novo diretor do BC não difere dos prognósticos recentes do Comitê de Política Monetária (Copom) de que a inflação encerrará o primeiro semestre acima do teto da meta e somente a partir daí tenderá a se estabilizar e baixar. David salientou que até o terceiro trimestre de 2026 passará a convergir para a meta. Apesar da previsão ruim, a declaração indica disposição da autoridade monetária de manter a mira voltada à meta de 3% ao ano para o IPCA, com tolerância de 1,5 ponto porcentual (p.p.).

Com 4,56% no acumulado em 12 meses, a taxa continuou a estourar a meta em janeiro, mesmo com queda suave de 0,27 p.p. em relação a dezembro. Como janeiro foi um ponto fora da curva, devido à redução no custo da energia elétrica, as estimativas são de que o índice tenha voltado a subir em fevereiro. Considerando efetivos os discursos recentes de David e Galípolo, e não simples retórica, o BC continuará a subir os juros para frear a inflação. A taxa de março está desde dezembro pactuada pelo Copom: 14,25% ao ano, 1 p.p. acima do nível atual, mantidas as circunstâncias observadas no fim de 2024.

Nilton David não deu pistas sobre a reunião de maio, mas será esse o teste decisivo da gestão Galípolo, depois das duas decisões do Copom de certa forma antecipadas em dezembro. Até agora Lula da Silva, que durante dois anos torpedeou o BC sob a gestão de Roberto Campos Neto, tem mantido, ao menos em público, atitude condescendente com seu indicado para o comando do banco. Já disse que não esperava “milagres”, que “não é possível dar um cavalo de pau num navio como o Brasil” e que Galípolo precisa de tempo para “consertar os juros”.

Não tardará para Lula agir como Lula e retomar a pressão e a “briga eterna”, segundo sua própria definição, pela queda de juros mesmo diante da insegurança do cenário macroeconômico e fiscal. Nilton David lembrou, no evento, da defasagem nos efeitos de uma política monetária contracionista. Pode-se acrescentar, sem receio de errar, que a atuação solitária do BC, sem o respaldo do Executivo no necessário equilíbrio fiscal, torna a missão ainda mais árdua.

O Banco Central tem a perspectiva de controlar a inflação até o terceiro trimestre de 2026. É o que o banco chama de “horizonte relevante” para fazer com que a taxa se mantenha abaixo de 4,5%, limite máximo permitido para a meta de 3% ao ano. O diretor do BC afirmou que a política monetária pode estabilizar o IPCA “ao redor” de 4%. Difícil imaginar que o Planalto acompanhe com paciência o processo. Do mercado vêm sinais de confiança: o último relatório Focus trouxe leve recuo na projeção da Selic, de 15,25% para 15% neste ano, embora a mediana para o IPCA tenha subido pela 19.ª semana consecutiva, para 5,65%. Já de Lula, é quase certo que haverá mais pressão.l

Governo e BC com embates na agenda

Correio Braziliense

Não adianta apostar na diminuição do deficit primário, a partir do corte de gastos, se esse movimento prejudica políticas públicas fundamentais

Pressionado pela atuação da oposição conservadora nas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento em cadeia nacional, de rádio e TV, para reforçar os programas lançados em sua terceira passagem pelo Planalto. A estratégia parece ser "bater na mesma tecla" — ou seja, levar ao conhecimento da população as políticas públicas do governo, ainda que elas não sejam exatamente novidades no noticiário.

Uma delas é o Programa Pé-de-Meia, proposta que pretende combater o êxodo escolar no ensino médio a partir do pagamento de R$ 200 mensais aos estudantes, além de R$ 1 mil ao término do ano letivo. Outra é a gratuidade para todos os 41 medicamentos do Farmácia Popular — ponto também ressaltado por Lula na gravação, que, evidentemente, tem parte da motivação voltada às eleições de 2026.

Esses esforços trazem reflexos diretos também na economia brasileira. Basta acompanhar o que dizem os corredores do governo: o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, tem sido mais tolerante à ampliação dos gastos públicos — a já conhecida política de aumentar o investimento na segunda metade do mandato presidencial, usada por todos os governos, independentemente do espectro ideológico. 

Desde que retornou à Presidência, Lula tem acusado o Banco Central (BC) de agir politicamente ao manter a taxa básica de juros (Selic) em dígito duplo (atualmente, está em 13,25%, seu maior patamar desde agosto de 2023). Trata-se da principal arma do banco para controlar o índice geral de preços. 

Certamente, a sinalizada alta nos gastos públicos combinada à queda de arrecadação — a partir das propostas de aumento da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, do Pé-de-Meia e do consignado para empregados no setor privado — não ajuda em nada na improvável mudança de paradigma do BC. Na verdade, o cabo de guerra tende a se intensificar.

Há, porém, um outro lado nessa discussão acerca do problema fiscal. O histórico do Boletim Focus do BC, que traz as expectativas do mercado financeiro, não é de sucesso nas previsões desde que Lula retornou ao Planalto, ainda que resultados atingidos tenham sido melhores do que o esperado.

Em fevereiro de 2023, o setor previa um deficit primário (a diferença entre as receitas e despesas do governo, sem considerar a dívida) de 1% ao fim de 2024. O resultado oficial foi de 0,1%. Quanto ao crescimento econômico, o Focus também passou longe. Previu 1,5% para 2024, mas, segundo o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), divulgado pelo BC em fevereiro, a expansão foi de 3,8%.

No frigir dos ovos, o governo precisa investir para entregar melhorias à vida do cidadão. Não adianta apostar na diminuição do deficit primário, a partir do corte de gastos, se esse movimento prejudica políticas públicas fundamentais. Por outro lado, o controle da dívida pública é peça fundamental para atrair investimento privado. 

Esses são os pratos da balança que Fernando Haddad e o governo Lula como um todo precisam equilibrar até o fim do mandato. Além da maior efetividade na comunicação entre o Planalto e a população, como o próprio presidente reconhece.

 

 

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