O Globo
Lula troca
alguns de seus ministros numa humilhante fritura pública que desqualifica o
próprio governo. Em setembro de 2023, sem uma só palavra de agradecimento, ele
demitiu a atleta Ana Moser do
Ministério dos Esportes, colocando em seu lugar o deputado André Fufuca (PP-MA).
Tratava-se de trocar competência na equipe por votos do Centrão na Câmara.
Numa operação semelhante, em 1996, o
presidente Fernando
Henrique Cardoso viu-se obrigado a dispensar a ministra Dorothea
Werneck, da Indústria e Comércio. Visitou-a, comoveu-se e registrou em seu
Diário:
— Fui ficando com raiva de mim mesmo.
O cavalheirismo foi uma das marcas da presidência de FH.
Depois da dispensa de Ana Moser, a
descortesia mudou de patamar. Em janeiro passado, Lula trocou o ministro da
Secretaria de Comunicação, Paulo Pimenta,
submetendo-o a fritura pública, desqualificando seu trabalho. Como Pimenta é um
velho companheiro do PT, seria
um tipo especial de jogo jogado.
Num novo lance, fritou a ministra Nísia
Trindade. Há mais de uma semana ela dava expediente enquanto circulavam rumores
de que seria substituída pelo colega Alexandre
Padilha. Há dias, em Itaguaí, Lula disse que “de vez em quando a gente
erra, mas na maioria das vezes a gente acerta e escolhe um ministro de
qualidade”. A gente quem, cara-pálida? Quem escolhe os ministros é o presidente
da República.
Esse tipo de tratamento para os ministros que
serão dispensados ofende também os que permanecem e inibe eventuais
postulantes. Chegar ao ministério pode ser uma ambição de pessoas qualificadas,
mas o risco de uma dispensa humilhante não vale a pena correr. Para um
candidato desqualificado, tanto faz, pois seus interesses são outros.
Há algo imperial nos maus modos de Lula. Na
segunda-feira, ele revelou que, numa conversa com um presidente da Petrobras,
soube que a empresa pretendia comprar uma sonda coreana e disse-lhe:
— Não vai comprar. Se você comprar, a mesma
caneta que te colocou na presidência vai te tirar da presidência. Nós vamos
fazer aqui.
Lula não revelou quando ocorreu esse diálogo,
mas falava de corda em palácio de enforcado. A construção de sondas para
explorar petróleo gerou a Sete Brasil, empresa que faliu em dezembro passado,
deixando um espeto de R$ 36 bilhões e recordações de uma tenebrosa caixinha,
revelada na colaboração do ex-ministro Antonio
Palocci, designado para administrá-la.
A postura imperial de Lula espelha a conduta
de dois presidentes excêntricos: João Figueiredo (1979-1985) e Jair
Bolsonaro (2019-2022).
Dispensar ministro é coisa que exige alguma
etiqueta dos presidentes e de suas vítimas. Lula tem sido brindado com a
elegância dos colaboradores que demitiu. Nenhum deles saiu atirando.
Em 1953, Getúlio
Vargas demitiu por telegrama o ministro da Educação, Ernesto Simões
Filho, que estava na Europa. O governo começava a ir mal das pernas, e Simões
recusou-se a reclamar, com uma frase que vale tanto para quem sai, como para
quem tira:
— Perdi a pasta, mas não perdi a educação.
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