quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A fritura de Nísia - Bernardo Mello Franco

O Globo

No sétimo mês de governo, Lula declarou que não demitiria Nísia Trindade do Ministério da Saúde. “Tem ministros que não são trocáveis. Tem pessoas e funções que são uma coisa da escolha pessoal do presidente da República”, disse. “A Nísia não é ministra do Brasil, ela é minha ministra”, acrescentou.

A titular da Saúde estava na mira do Centrão, que tentava derrubá-la para pegar a chave do cofre do SUS. Sem filiação partidária, ela conseguiu resistir aos torpedos disparados do Congresso. Ontem sucumbiu ao fogo amigo do Planalto.

Nísia passou dois anos e dois meses no cargo. Enfrentou diversas crises, mas só se tornou “trocável” quando pesquisas apontaram um tombo na popularidade do governo. Transformada em bode expiatório, ela viu sua cadeira virar alvo de cobiça no PT. Agora será substituída pelo deputado Alexandre Padilha, que deixa o abacaxi da articulação política para assumir um dos maiores orçamentos da Esplanada.

A escalação de ministros é prerrogativa do presidente, mas Lula deveria ter poupado sua auxiliar da fritura pública. Respeitada no meio acadêmico, Nísia foi exposta a uma demissão em câmera lenta. Na semana passada, sua pasta teve que emitir uma nota oficial para informar que ela ainda integrava o governo. A ministra acompanhou a própria queda pela imprensa, sem que o chefe se dignasse a procurá-la.

O constrangimento chegou ao ápice ontem, quando Nísia foi ao palácio anunciar um acordo com o Butantan para a produção de vacinas. A ministra falou em tom de despedida e foi ovacionada pela plateia. Lula permaneceu em silêncio e não leu o discurso que sua assessoria havia preparado. Horas depois, o Planalto confirmou a troca e informou que “o presidente agradeceu a ministra pelo trabalho e dedicação”. Ele poderia ter feito isso diante das câmeras, mas optou pela demissão por escrito.

Primeira mulher a comandar o Ministério da Saúde, Nísia herdou uma pasta arrasada pelo governo Bolsonaro. Sua gestão teve problemas, como a explosão dos casos de dengue em 2024, mas expurgou o negacionismo e tirou o país do mapa do sarampo. Já seria o suficiente para que ela tivesse direito a uma saída mais honrosa.

 

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