quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

A culpa que Nísia não tem - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A desaprovação do governo é fruto do conjunto de uma obra mal concebida pelo presidente

troca de ministros é prerrogativa do presidente da República, assim como a escolha de auxiliares é da responsabilidade dele. Portanto, quem errou não foi Nísia Trindade, mas quem a nomeou para comandar a pasta da Saúde sem incluir a cláusula de vitrinista no contrato.

Profissional experiente e respeitada na área, foi chamada justamente pelo prestígio acumulado. Se esperava que ela tivesse também predicados marqueteiros, Luiz Inácio da Silva (PT) equivocou-se de pessoa.

Uma vez constatada a distância entre a expectativa e a performance, uma substituição seria natural não fosse a forma grosseira no andamento da decisão. A ministra se viu exposta no noticiário municiado com a lista dos casos em que teria falhado, como se fosse dela a culpa pelo tombo na popularidade de Lula.

Exemplos fornecidos pelo governo que, assim, encaminhava o descarte. Competente em seu campo de atuação, Nísia recebeu o carimbo de incompetente por não ter sabido fazer o que nunca disse que saberia: política, um universo movido a máquinas de moer carne para quem não é do ramo.

Nísia Trindade entrou numa fria. É possível que tenha se arrependido, mas a deselegância do tratamento fica na conta de Lula que, ao perceber o mal-estar, fez circular a versão de que se aborreceu com o vazamento de informações sobre demissões de ministros.

Mais uma vez a tentativa de tirar o corpo fora. Sem sucesso, pois apenas reforça a ideia de um governo onde reina a bateção de cabeça. Sendo real a queixa, temos um presidente que admite não ter controle sobre a própria equipe. Ainda assim, aos primeiros rumores ele poderia ter barrado a ofensiva e não o fez.

Lula deixa correr frouxa a boataria sobre sua insatisfação com o desempenho de ministros porque lhe é conveniente atribuir culpas ao alheio pela desaprovação do governo, cujas falhas não são isoladas. Trata-se do conjunto de uma obra mal concebida e mal executada, que não será consertada mediante o acionamento pontual do maçarico palaciano.

 

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