Folha de S. Paulo
Pretensões do presidente sobre a Groenlândia
não têm motivação racional
Entregar soberania da ilha aos EUA não pode
ser considerado opção viável
Já passa da hora de traçar uma linha vermelha para Donald Trump. O uso de tarifas para retaliar países europeus que se manifestaram contra a pressão que os EUA exercem para que a Dinamarca lhes ceda a Groenlândia é um claro sinal de que o apetite do presidente americano é insaciável. Nem menciono ações dos EUA contra nações com as quais Washington tinha desavenças históricas, como Venezuela, Irã ou Cuba. Trump agora está se voltando contra seus mais tradicionais aliados.
Se hoje é a Groenlândia, território associado
à Dinamarca, um dos 12 membros fundadores da Otan,
que está na mira da Casa Branca, amanhã poderá ser o Canadá, que Trump já disse
que gostaria de ver como o 51º estado dos EUA. Embora o Agente Laranja não
goste de florestas, poderá até sobrar para a amazônia.
É o caso também de perguntar se o americano
se encontra em seu juízo perfeito, porque não parece haver muita motivação
racional para seu comportamento. Se sua preocupação é com defesa, os EUA já
têm, no âmbito dos acordos bilaterais e da Otan, todo o acesso militar à
Groenlândia de que precisam. O comando espacial norte-americano já mantém ali
a base de
Pituffik e, ao que tudo indica, ninguém faria objeções à
reabertura das mais de 15 bases que os EUA já tiveram no território e decidiram
fechar.
Fica assim a suspeita de que sejam razões
egoicas —e do ego de uma criança de quatro anos— que estejam movendo Trump. Ele
quer dar ao "Make America Great Again" uma dimensão territorial. Já
disse que considerou a compra do Alasca pelos EUA no século 19 uma grande
cartada. Mandou uma enigmática carta ao premiê da Noruega insinuando que o fato de ele
não ter ganhado o Nobel da Paz pode ser outro fator. Trump provavelmente
considera que Suécia, Dinamarca e Noruega são todos a mesma coisa.
Entendo a preocupação da União
Europeia (UE) de não escalar a crise, mas não me parece que
entregar a ilha seja uma opção. A política do apaziguamento não funcionou nos
anos 1930 e provavelmente não funcionaria agora.
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