O Globo
Vorcaro e Toffoli se encontraram mais de dez
vezes, segundo relatório da PF
Numa troca de mensagens com a namorada, Daniel
Vorcaro diz que, apesar da oposição de André Esteves à venda do Master
ao BRB,
funcionários da XP e do BTG pediam para tirar fotos e davam a ele os parabéns,
dizendo que era a “anarquia do sistema”. Nunca uma expressão foi tão
apropriada.
Vorcaro não apenas fraudou o sistema financeiro vendendo títulos sem lastro e passando a conta ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para se proteger, comprou uma rede de aliados tão ampla que sua queda também será vista como a “queda do sistema”.
Por meio do seu operador financeiro, ele
comprou cotas do resort da família do ministro Dias
Toffoli em 2021, no valor de R$ 20 milhões. Em 2023 e 2024, Vorcaro e
Toffoli se encontraram mais de dez vezes, segundo relatório da PF — Vorcaro
recebeu até convite para o aniversário do ministro. Nesse mesmo período,
mensagens mostram Vorcaro cobrando urgentemente seu operador para transferir
mais R$ 15 milhões ao resort da família de Toffoli, sem qualquer justificativa
razoável. No ano seguinte, Toffoli assumiu a relatoria do caso e tomou uma
série de decisões atípicas: determinou sigilo máximo do processo, tentou
centralizar a custódia das provas antes da perícia, escolheu peritos próprios e
elaborou perguntas personalizadas aos investigados.
O escritório da família de Alexandre
de Moraes recebeu R$ 79 milhões do Banco Master antes da liquidação —
pouco mais da metade de um contrato superior a R$ 130 milhões. A principal
advogada do escritório, Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, tem
reputação modesta no mercado. O valor do contrato foi considerado sem
precedentes e muito acima do que custaria contratar as bancas mais prestigiadas
do país. O contrato tem objeto vago, e as repartições explicitamente listadas
no documento — Banco Central, Cade, Receita Federal e Procuradoria-Geral da
Fazenda — disseram
não ter registro algum de atuação do escritório em nome do Master.
Moraes esteve ao menos duas vezes na mansão
de Vorcaro, segundo o site Metrópoles. As mensagens apreendidas pela PF no
celular do banqueiro e reveladas ontem registram outros dois encontros em abril
de 2025. Segundo reportagem do GLOBO, Moraes procurou o presidente do Banco
Central ao menos quatro vezes para pedir a aprovação da venda do Master ao BRB
— número que o jornal Estado de S. Paulo elevou para ao menos cinco conversas,
com Moraes chegando a ligar seis vezes num único dia.
As principais vítimas do Master não foram os
investidores individuais cobertos pelo FGC, mas grandes fundos de previdência
que compraram papéis sem lastro. A Amapá Previdência
(Amprev) investiu R$ 430 milhões em letras financeiras do Master, sem cobertura
do FGC, tornando-se o segundo fundo de pensão mais exposto aos papéis do banco,
atrás apenas do Rioprevidência.
O diretor da Amprev, Jocildo Lemos, foi
indicado pelo presidente do Senado, Davi
Alcolumbre, tendo antes sido tesoureiro da campanha eleitoral do senador. O
Conselho Fiscal da Amprev conta ainda com a participação de Alberto Alcolumbre,
irmão do presidente do Senado.
Ao mesmo tempo que aliados do senador fizeram
investimentos milionários no Master, toda investigação sobre o banco foi
barrada no Senado. Alcolumbre não deu prosseguimento a um pedido de CPI do
Master protocolado pelo senador Eduardo Girão,
com 51 assinaturas, e a um pedido de CPMI do Master protocolado pelo
deputado Carlos Jordy,
com 280 assinaturas. Chegou a fazer manobras para não votar o veto presidencial
ao PL da Dosimetria para não ser obrigado a dar andamento aos pedidos de CPI e
CPMI.
Ciro Nogueira,
ex-ministro de Bolsonaro e presidente do PP, foi apresentado à namorada de
Vorcaro como um de seus “grandes amigos de vida”. Em agosto de 2024, Ciro
apresentou uma emenda à PEC da autonomia financeira do Banco Central para
elevar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Se tivesse
sido aprovada, a captação do Master teria disparado, e o impacto financeiro da
quebra do banco teria sido muitas vezes maior do que foi.
Logo depois da proposição da emenda, Vorcaro
escreveu à namorada:
— Ciro soltou um projeto de lei que é uma
bomba atômica no mercado financeiro!
A rapidez com que Vorcaro soube da emenda
chama a atenção: o documento foi criado às 17h57, modificado às 18h09, e a
mensagem para a namorada foi enviada às 19h44.
Em setembro de 2025, às vésperas de o Banco
Central barrar a venda do Master ao BRB, um
requerimento de urgência impulsionou um projeto que permitiria ao
Congresso destituir o presidente e diretores do Banco Central — manobra descrita
por técnicos do BC como a maior pressão política já sofrida pela instituição. A
articulação partiu do deputado Cláudio Cajado, aliado de Ciro no PP.
Toffoli, Moraes, Alcolumbre e Ciro são apenas
um pedaço da história. As revelações que emergiram até o momento mostram compra
de apoio, ameaça a adversários, invasão de sistemas e muita corrupção de
funcionários públicos e autoridades. O retrato que vai se formando é de um
sistema todo apodrecido. Esse retrato terá efeitos eleitorais bem visíveis em
outubro — e esses efeitos não serão bons.

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