sexta-feira, 6 de março de 2026

A anarquia do sistema, por Pablo Ortellado

O Globo

Vorcaro e Toffoli se encontraram mais de dez vezes, segundo relatório da PF

Numa troca de mensagens com a namorada, Daniel Vorcaro diz que, apesar da oposição de André Esteves à venda do Master ao BRB, funcionários da XP e do BTG pediam para tirar fotos e davam a ele os parabéns, dizendo que era a “anarquia do sistema”. Nunca uma expressão foi tão apropriada.

Vorcaro não apenas fraudou o sistema financeiro vendendo títulos sem lastro e passando a conta ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para se proteger, comprou uma rede de aliados tão ampla que sua queda também será vista como a “queda do sistema”.

Por meio do seu operador financeiro, ele comprou cotas do resort da família do ministro Dias Toffoli em 2021, no valor de R$ 20 milhões. Em 2023 e 2024, Vorcaro e Toffoli se encontraram mais de dez vezes, segundo relatório da PF — Vorcaro recebeu até convite para o aniversário do ministro. Nesse mesmo período, mensagens mostram Vorcaro cobrando urgentemente seu operador para transferir mais R$ 15 milhões ao resort da família de Toffoli, sem qualquer justificativa razoável. No ano seguinte, Toffoli assumiu a relatoria do caso e tomou uma série de decisões atípicas: determinou sigilo máximo do processo, tentou centralizar a custódia das provas antes da perícia, escolheu peritos próprios e elaborou perguntas personalizadas aos investigados.

O escritório da família de Alexandre de Moraes recebeu R$ 79 milhões do Banco Master antes da liquidação — pouco mais da metade de um contrato superior a R$ 130 milhões. A principal advogada do escritório, Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, tem reputação modesta no mercado. O valor do contrato foi considerado sem precedentes e muito acima do que custaria contratar as bancas mais prestigiadas do país. O contrato tem objeto vago, e as repartições explicitamente listadas no documento — Banco Central, Cade, Receita Federal e Procuradoria-Geral da Fazenda — disseram não ter registro algum de atuação do escritório em nome do Master.

Moraes esteve ao menos duas vezes na mansão de Vorcaro, segundo o site Metrópoles. As mensagens apreendidas pela PF no celular do banqueiro e reveladas ontem registram outros dois encontros em abril de 2025. Segundo reportagem do GLOBO, Moraes procurou o presidente do Banco Central ao menos quatro vezes para pedir a aprovação da venda do Master ao BRB — número que o jornal Estado de S. Paulo elevou para ao menos cinco conversas, com Moraes chegando a ligar seis vezes num único dia.

As principais vítimas do Master não foram os investidores individuais cobertos pelo FGC, mas grandes fundos de previdência que compraram papéis sem lastro. A Amapá Previdência (Amprev) investiu R$ 430 milhões em letras financeiras do Master, sem cobertura do FGC, tornando-se o segundo fundo de pensão mais exposto aos papéis do banco, atrás apenas do Rioprevidência.

O diretor da Amprev, Jocildo Lemos, foi indicado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tendo antes sido tesoureiro da campanha eleitoral do senador. O Conselho Fiscal da Amprev conta ainda com a participação de Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado.

Ao mesmo tempo que aliados do senador fizeram investimentos milionários no Master, toda investigação sobre o banco foi barrada no Senado. Alcolumbre não deu prosseguimento a um pedido de CPI do Master protocolado pelo senador Eduardo Girão, com 51 assinaturas, e a um pedido de CPMI do Master protocolado pelo deputado Carlos Jordy, com 280 assinaturas. Chegou a fazer manobras para não votar o veto presidencial ao PL da Dosimetria para não ser obrigado a dar andamento aos pedidos de CPI e CPMI.

Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro e presidente do PP, foi apresentado à namorada de Vorcaro como um de seus “grandes amigos de vida”. Em agosto de 2024, Ciro apresentou uma emenda à PEC da autonomia financeira do Banco Central para elevar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Se tivesse sido aprovada, a captação do Master teria disparado, e o impacto financeiro da quebra do banco teria sido muitas vezes maior do que foi.

Logo depois da proposição da emenda, Vorcaro escreveu à namorada:

— Ciro soltou um projeto de lei que é uma bomba atômica no mercado financeiro!

A rapidez com que Vorcaro soube da emenda chama a atenção: o documento foi criado às 17h57, modificado às 18h09, e a mensagem para a namorada foi enviada às 19h44.

Em setembro de 2025, às vésperas de o Banco Central barrar a venda do Master ao BRB, um requerimento de urgência impulsionou um projeto que permitiria ao Congresso destituir o presidente e diretores do Banco Central — manobra descrita por técnicos do BC como a maior pressão política já sofrida pela instituição. A articulação partiu do deputado Cláudio Cajado, aliado de Ciro no PP.

Toffoli, Moraes, Alcolumbre e Ciro são apenas um pedaço da história. As revelações que emergiram até o momento mostram compra de apoio, ameaça a adversários, invasão de sistemas e muita corrupção de funcionários públicos e autoridades. O retrato que vai se formando é de um sistema todo apodrecido. Esse retrato terá efeitos eleitorais bem visíveis em outubro — e esses efeitos não serão bons.

 

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