sábado, 7 de março de 2026

André Mendonça salvará o STF? por Thaís Oyama

O Globo

A partir de agora, é sobre ele que recairá o peso de decisões capazes de afetar os rumos das eleições

Mendonça era o “patinho feio” do STF — ou ao menos assim era visto por um grupo de colegas da Corte. Terrivelmente evangélico, indicado por um ex-presidente desprestigiado e condenado por golpismo, isolado e sem traquejo no palco do plenário, levou tempo até delimitar seu território e passar a abrir divergências com o grupo dominante, formado por Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Agora, quis o destino que caíssem no colo dele os dois processos com maior potencial de impacto político neste ano eleitoral, os radioativos casos do INSS e do Master. Mendonça começou firme nos dois. Em janeiro, já havia autorizado a quebra de sigilos do filho do presidente Lula, o Lulinha (cujo nome, doravante, deverá vir acompanhado da cifra de R$ 20 milhões, valor que movimentou em quatro anos, segundo a CPMI do INSS). Na última quarta-feira, Mendonça mostrou como pretende conduzir o caso Master ao determinar a prisão preventiva — leia-se, a perder de vista — de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro que se gabava de ser recebido pelo presidente Lula, aparecer sem avisar na casa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ser “amigo de vida” do senador e prócer do Centrão Ciro Nogueira e de ter encontros recreativos com um ministro do STF que, de tão poderoso, é a única figura da República a ostentar apelido no aumentativo.

De Alexandre de Moraes, Vorcaro, a contar pelas mensagens extraídas de seu celular pela PF, parecia se considerar praticamente irmão siamês. Em referência a um site de notícias com quem vivia um aparente momento de litígio, ameaçou: “Vão entrar no inquérito das fake news”, como se o relator do inquérito em questão fosse não Moraes, mas ele próprio (o site, segundo a PF, era o DCM, suspeito de ter negociado publicações de notas favoráveis ao banqueiro, acusação que o veículo nega. A inclusão do site no rol de investigados da PF adiciona aos autos, que já continham menções a representantes dos três Poderes, integrantes do quarto, considerando que o epíteto ainda valha para a imprensa).

Ao mandar prender figura tão influente, Mendonça contrariou a opinião da Procuradoria-Geral da República, que curiosamente não viu urgência em deter um ex-banqueiro que invadia sistemas de segurança e pretendia quebrar os dentes de um jornalista cujo trabalho lhe desagradou. Com medidas assim, Mendonça sinalizou que, sob sua relatoria, as questões de poder não se sobreporão às jurídicas. Para um STF afogado na desonra, foi uma lufada de ar fresco.

Agora, diante da revelação feita pela jornalista Malu Gaspar, do GLOBO, de que Vorcaro, poucas horas antes de sua primeira prisão, enviou o que soa como pedido de socorro ao ministro cuja mulher foi por ele beneficiada com um contrato de R$ 130 milhões, ganha força a possibilidade de Moraes vir a ser investigado. Nessa hipótese, no âmbito criminal, André Mendonça tenderia a ser o responsável pelo inquérito, dada sua condição de prevento.

A responsabilidade de lidar com ações de explosivo potencial eleitoral, mais a possibilidade de comandar uma inédita investigação de colega, exige extraordinária independência, rigor processual e coragem institucional. São credenciais que nem sempre assentaram bem em Mendonça. Como advogado-geral da União e ministro da Justiça, ele por mais de uma vez curvou a interpretação da lei às vontades de Jair Bolsonaro — como quando pediu à PF a abertura de investigações contra críticos do então presidente com base na Lei de Segurança Nacional.

Se não cai bem no ministro o figurino de herói da República, ademais já bastante desgastado pelos colegas que tentaram envergá-lo antes, isso não muda o fato de, a partir de agora, recair sobre ele o peso de decisões capazes de afetar os rumos das eleições e o futuro do STF. O tempo dos juízes-heróis já passou, e Mendonça pode não ser um deles — mas é o que de melhor o país dispõe neste momento.

 

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