Valor Econômico
Ocorrido com “Sicário” só é comparável, possivelmente, com uma morte suspeita, 30 anos atrás: a de PC Farias
Os novos capítulos do escândalo envolvendo o
banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master comprovam, mais do que a gravidade, o
quase ineditismo do tsunami com potencial para destruir a República, ou boa
parte das instituições. O ocorrido com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão,
o “Sicário”, potencial delator, só é comparável, possivelmente, com morte
suspeita, 30 anos atrás: a de Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Fernando
Collor.
A essa altura dos acontecimentos, outra percepção é de que a soma das crises envolvendo o Master e os desvios nas aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que dominam o Congresso e contaminam o humor dos brasileiros, deve culminar em mais uma eleição “antissistema”, nos moldes da disputa de 2018, que elegeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e vários “outsiders”.
Em paralelo, se o governo acha que poderá
faturar, eleitoralmente, com a bandeira da redução da jornada 6 x 1, pode se
equivocar como se deu com a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$
5 mil - ativo que ainda não alavancou a aprovação do governo. É o que sugerem
pesquisas às quais a coluna teve acesso, e de que falaremos logo mais.
No meio de um enredo cinematográfico, “PC
Farias” foi acusado de corrupção, fugiu do país, foi capturado na Tailândia.
Cumpriu menos de um ano de pena, e estava em regime semiaberto quando foi
encontrado morto em sua casa de praia em Alagoas, ao lado da namorada, Suzana
Marcolino, ambos com tiros no peito, em 23 de junho de 1996. Um novo depoimento
dele ainda era aguardado no Supremo Tribunal Federal (STF). A polícia suspeitou
de crime passional, mas não descartou “queima de arquivo”.
De volta ao presente, Sicário" foi preso
junto com Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na terceira fase da Operação
Compliance Zero. Ele seria o operador do banqueiro para monitorar desafetos,
extrair dados de sistemas sigilosos e executar ações de intimidação. Caberia a
ele “moer” uma empregada e “quebrar os dentes” de um jornalista. Horas depois
de ser preso, ele foi encontrado desacordado na cela em Belo Horizonte. A
Polícia Federal disse que ele tentou se matar, e abriu inquérito para
investigar. Levado ao hospital, entrou em protocolo de morte cerebral.
As cenas protagonizadas por “Sicário” fazem
parte de uma trama criminosa sem paralelos na história recente da República,
que ampliou o sentimento na população de descrédito nas instituições. A
percepção de políticos experientes, e até de um dirigente partidário ouvido
pela coluna, é que o escândalo Master/Vorcaro, somado às fraudes do INSS, devem
transformar as eleições deste ano em uma reedição da disputa eleitoral de 2018,
quando as urnas privilegiaram os candidatos “antissistema”.
Pesquisas internas de partidos, não
registradas na Justiça Eleitoral, mas que circularam, nos últimos dias, entre
caciques do centro e da direita e no mercado financeiro, apontaram para essa
direção. Uma liderança partidária descreveu detalhes de um destes
levantamentos. Apresentado a uma cartela com várias respostas, o entrevistado
foi questionado sobre qual seria o maior desafio do país neste momento: 32%
escolheram o impeachment de ministros do STF.
Para surpresa de políticos da direita, a
preocupação com segurança pública ficou em segundo lugar, com 28% das
respostas. Na terceira colocação, ficou a defesa da soberania brasileira, que
foi alvo de ataques como o “tarifaço” do presidente americano Donald Trump. De
acordo com a mesma fonte, a redução da jornada de trabalho 6 x 1 foi a
alternativa de apenas 5% dos entrevistados - um sinal amarelo para o governo.
Se a maioria responde que o maior desafio do
país é o afastamento de ministros do STF do cargo, este resultado indica a
descrença dos brasileiros nas instituições, principalmente, no Poder
Judiciário. Uma derrota para uma instituição que foi responsável pela combativa
atuação em defesa da democracia nas eleições de 2022.
Políticos que viram este levantamento
concluíram que a insatisfação com o STF favorece a vitimização de Bolsonaro,
que cumpre pena pela tentativa de golpe de Estado, ao mesmo tempo em que
explica o crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à
Presidência, nas pesquisas eleitorais.
Outra conclusão é de que a sucessão de crises
agrava o desalento do cidadão. Além de nomes de ministros do STF aparecerem
envolvidos nos escândalos de Vorcaro, há denúncias de vendas de sentenças em
investigação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e em tribunais de Justiça
estaduais, ao mesmo tempo em que as revelações dos pagamentos de supersalários
de juízes e do Ministério Público, acima de R$ 100 mil, chocam a população, num
país em que 31 milhões de brasileiros ganham até um salário mínimo por mês.
Os escândalos alcançam os outros Poderes.
Deputados e senadores são investigados por desvios de emendas parlamentares, e
o Executivo é cobrado pelos desvios no INSS. Nessa crise, o filho mais velho de
Lula, Fábio Luís da Silva, surge como um investigado explosivo para o governo.
Há um esforço para transformar Lula no candidato “antissistema”. Será difícil
convencer um eleitor cansado de guerra.

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