Folha de S. Paulo
Deixa-nos o legado do debate de ideias, da
capacidade de ouvir, da conciliação
O seu exemplo há de ser levado em conta na
polarização que divide o país
Recordar é viver. No caso de Raul
Jungmann, 73, que nos deixou neste domingo (18), é viver um exemplo de
vida. Tanto no plano pessoal como na vida pública.
O motivo desta manifestação é para que, em
tempos de velocidade e fugacidade das informações e acontecimentos, este
depoimento possa atravessá-los para que todos os que vierem depois possam
conhecer, saber e praticar o exemplo que ele nos deixou.
Não apenas nós, que assinamos este artigo, somos testemunhas do seu exemplo. Certa e seguramente ele poderia ser assinado e referendado por centenas, senão milhares de seres da vida privada e da pública que com ele conviveram. Basta verificar os inúmeros depoimentos que já vieram à luz revelando imensa tristeza por tão significativa perda.
Deixa-nos um legado: o do diálogo, da conciliação,
da capacidade de ouvir, do respeito com que ouvia os argumentos contrários, do
debate de ideias e de programas para o país. E note-se que Raul Jungmann sempre
foi chamado para ocupar posições político-administrativas de significativa
controvérsia. Ministro do Desenvolvimento Agrário, da Defesa, da Segurança
Pública, sempre atuou pautado pela ideia da busca de uma composição.
Conciliador, era também assertivo quando
buscava convencer seu interlocutor e igualmente quando exercia suas funções.
Mas suas posições não eram ancoradas em nenhuma raivosidade pessoal ou
ideológica. No seu horizonte estavam o interesse do povo brasileiro e do país.
Foi assim também quando deputado federal, ocasião em que presidiu comissões de
grande polêmica. Exerceu-as, todas, com expressiva moderação.
No Ministério do Desenvolvimento Agrário,
soube conciliar interesses dos postulantes da reforma
agrária com os proprietários no país. No Ministério
da Defesa, conjugou, sem preconceitos, a área militar com a civil. No
Ministério da Segurança Pública, produziu extraordinário trabalho de
coordenação das atividades dos secretários estaduais com vistas ao combate ao
crime individual e ao organizado. Nessa área, tanto sucesso teve que logo nos
levou a ideia, afinal convertida em lei, do Sistema Único de Segurança Pública,
o Susp, que hoje, ainda, quer-se levar para o texto constitucional.
Esse foi, resumidamente, o trajeto do nosso
pranteado Raul Jungmann na atividade político-administrativa. Más também no
plano pessoal nos lega uma lição. Jamais praticou nenhum desvio de conduta que
pudesse retirar a sua consistente respeitabilidade.
Mesmo nos últimos meses de seu martírio
manteve postura de grande dignidade. Com ele estivemos há cerca de cinco meses,
quando nos contou de sua doença. Mas, com a coragem de sempre, nos disse:
"Esta é a maior luta que enfrento na minha vida. Mas vencerei". A
doença o derrotou, mas a sua coragem pessoal e cívica, a sua honestidade
intelectual persistem. Esta não desapareceu nem desaparecerá.
Seu exemplo há de ser levado em conta em
momentos em que a chamada polarização
divide o país. Ao invés do diálogo para gerar concordância, o embate por
meio de palavras ásperas para gerar divisões e discordâncias insuportáveis.
Que a imagem e a conduta de Raul permaneçam
no pensamento de todos os brasileiros. E que Deus o tenha.
Michel Temer
Ex-presidente da República
Aldo Rebelo
Ex-ministro da Defesa
Carlos Marun
Ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo
Sérgio Etchegoyen
Ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional
Moreira Franco
Ex-ministro de Minas e Energia e da Secretaria-Geral da Presidência

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