sábado, 17 de janeiro de 2026

Quando a polarização vence o cálculo. Por Juliana Diniz

 O Povo (CE)

Todos os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro têm suas fragilidades, são políticos com debilidades que podem ser trabalhadas por um bom marketing e Flávio, o nome em evidência, não parece ser exceção à regra

Acreditamos que a política partidária é movida por interesses estratégicos e racionalidade, mas a realidade mostra que, não raro, é no campo do blefe, do arremedo e da sorte que decisões importantes são resolvidas. Há apostas que parecem estapafúrdias e que, no entanto, por fatores previsíveis e por outros imprevisíveis, acabam se consolidando com opção. Eu incluiria a candidatura possível de Flávio Bolsonaro nesse horizonte.

Ainda é cedo, e é preciso que se tenha isso em mente, especialmente porque Tarcísio de Freitas ainda não jogou a toalha. Seu silêncio, a falta de apoio explícito a Flávio, a postagem ambígua da esposa, a simpatia (não tão ambígua) de Michelle Bolsonaro, a preferência declarada dos partidos do Centro e da elite econômica; são muitos fatores que indicam ao governador de São Paulo que a paciência pode recompensá-lo, de modo que o cenário é instável.

Apesar disso, cada semana que passa, cada pesquisa de intenção de voto, cada movimento de candidato de Flávio contribuem para estabilizar as expectativas. Como disse Felipe Nunes, à frente do instituto Quaest, se há um plano para viabilizar Tarcísio, o timing está se perdendo.

Para o PT, o cenário com um dos Bolsonaro como candidato é o melhor possível, especialmente diante da evidência estatística da competitividade de Tarcísio de Freitas num eventual segundo turno. Todos os filhos de Jair têm suas fragilidades, são políticos com debilidades que podem ser trabalhadas por um bom marketing, e Flávio não é exceção à regra. Suas dificuldades são pessoais, de performance, e de história, com um fio de casos mal contados sobre sua evolução patrimonial. Na perspectiva do petismo, seria o antagonista ideal num Brasil polarizado e traumatizado pelos excessos do bolsonarismo.

Nesse ponto, acho que uma reflexão merece ser feita, sobre a resiliência do capital eleitoral de Jair Bolsonaro. A indicação de Flávio em fim de dezembro foi um ato desesperado num contexto de extrema pressão, mas também revela um instinto aguçado de sobrevivência de um político que já deu provas de boa leitura da oportunidade. A resposta rápida dos eleitores de direita ao nome do filho de Bolsonaro, revelada pela pesquisa Quaest, anima o campo bolsonarista e acende um alerta: e se a tal da polarização nos pregasse mais uma peça?

São muitas incertezas num cenário de areia movediça, mas é preciso levar a candidatura a sério. Por enquanto, a maior dificuldade é familiar. Michelle Bolsonaro tem força política crescente e está descontente em ficar no segundo plano. Nada mais prejudicial a um plano de volta ao poder do que a desunião interna, temperada por ressentimentos familiares mais delicados (e em grande parte desconhecidos).

 

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