sábado, 17 de janeiro de 2026

O mal que a Ideologia faz. Thaís Oyama

O Globo

Não dá para falar de esporte sem falar em desempenho físico, e é por isso que o sexo biológico importa na discussão

Em 2021, na Olimpíada de Tóquio, a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard acabou sem medalhas, mas recebeu honras de estrela por ser a primeira mulher trans a participar do torneio. Na entrevista coletiva com as levantadoras de peso que subiram ao pódio — a chinesa Li Wenwen, medalha de ouro; a britânica Emily Campbell, prata; e a americana Sarah Robles, bronze —, um repórter americano pediu-lhes para dizer como se sentiam naquela “noite histórica” em que uma atleta trans estreava numa Olimpíada, e na modalidade delas. Nenhuma das três abriu a boca. Nove segundos de silêncio depois, Sarah tomou um gole de água, pegou o microfone e disse “Não, obrigada”. A frase viralizou nas redes sociais como um meme aplicável a situações em que se dá uma resposta polida para evitar o preço de proferir uma sincera.

Estudos recentes mostraram que atletas nascidas com sexo masculino mantêm vantagens físicas permanentes sobre mulheres biológicas mesmo depois da transição de gênero. Em outras palavras: bloqueadores hormonais não apagam totalmente os rastros da natureza, sobretudo se ministrados depois da puberdade, caso de Hubbard. Com base nesses estudos, o Comitê Olímpico Internacional prometeu anunciar nos próximos meses novas regras para a participação de atletas trans no torneio. Kirsty Coventry, ex-nadadora olímpica que assumiu a liderança do COI em 2025, tem defendido que as novas normas priorizem a “proteção da categoria feminina” — a seu ver, prejudicada nas competições com adversárias trans. É uma constatação que chega com atraso olímpico, dado que a vantagem competitiva de atletas nascidas homens sobre mulheres biológicas é, em muitos casos, observável a olho nu.

O exemplo mais gritante, fora das Olimpíadas, é a nadadora americana trans Lia Thomas, que, de 554ª colocada quando competia numa liga masculina de nado livre, virou sensação do esporte ao passar a competir no circuito feminino universitário pela Universidade da Pensilvânia. A Pensilvânia não tem leis estaduais proibindo a entrada de mulheres trans em times femininos, ao contrário de outros 25 estados americanos — quadro que pode mudar dependendo da decisão da Suprema Corte, que voltou ao tema na última terça-feira. Celebrada como primeira mulher trans a conquistar um título no principal circuito do esporte universitário dos Estados Unidos, Thomas começou sua transição aos 20 anos — a maior parte do seu desenvolvimento físico se deu como homem.

Da mesma forma, no Brasil, a jogadora de vôlei Tifanny Abreu iniciou sua transição aos 28 anos — até essa fase, jogava em quadras masculinas. Tiffany — desde o ano passado, primeira mulher trans campeã da Superliga, com o Osasco — é, para simpatizantes e ativistas da causa trans, um ícone de superação, exemplo de resiliência e da “luta contra a transfobia no esporte”. O fato de só ter batido recordes e conquistado relevância depois que começou a jogar em quadras femininas não vem ao caso — e mencioná-lo é interpretado como mais pura expressão de transfobia.

Mas não dá para falar de esporte sem falar em desempenho físico — e é por isso que o sexo biológico importa na discussão. Nem terraplanistas de gênero negam as razões por que existem as categorias esportivas masculina e feminina. Pela mesma lógica, separar mulheres trans de atletas do sexo feminino não é “projeto de apagamento social”, mas uma questão a debater no terreno da fisiologia do desempenho — as diferenças corporais que pesam no resultado. Transformar o assunto em disputa ideológica é a melhor forma de empurrar o problema para longe da solução: evitar que atletas do sexo feminino sejam obrigadas não só a competir com rivais detentoras de vantagens intransponíveis, como ainda achar isso bonito.

 

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