sábado, 17 de janeiro de 2026

A revolução pelas beiradas. Por Ivan Alves Filho

A comida é de paz. A palavra companheiro vem do latim cum panis. Platão fez do seu Banquete uma ocasião de confraternização. O próprio Jesus Cristo, um asceta, amava cear com seus apóstolos. Comer é, por excelência, um gesto de convívio humano. E com ares de divindade.

O escritor português José Fialho de Almeida disse uma vez que “um povo que defende os seus pratos nacionais está defendendo o seu território”. Não por acaso, um de seus melhores livros, O país das uvas, uma reunião de contos, se desenrola em parte na área vinícola de Vila de Frades, no seu Alentejo natal. 

De fato, comer pode ser também um tremendo ato de resistência. Assim, quando a Monarquia proibiu as reuniões públicas na França, em julho de 1847, os oposicionistas tiveram a ideia de organizar vários banquetes através do país como forma de angariar adeptos para a causa republicana, sobretudo. O primeiro banquete reuniu mais de mil pessoas nos jardins do Chateau-Rouge, em Montmartre. Francês não dorme no ponto quando o assunto é alimentação ou repas. Na hora dos brindes, os comensais aproveitavam para criticar a Monarquia, não poupando sequer a figura do rei, Luís Felipe. As crônicas da época indicam que mais de 70 banquetes se seguiram a esse primeiro encontro de Montmartre. E a l9 de fevereiro de 1848 o monarca cometeria um erro por assim dizer fatal: ordenou a suspensão de um grande banquete, previsto para aquele mesmo dia em Paris.

Há males que vêm para bem. Cinco dias depois, o infeliz Luís Felipe foi para o final da fila, isto é, estava no chão. Não soube cozinhar a situação a fogo baixo ou à feu doux, como dizem os franceses, e o caldo entornou. Os republicanos colocariam tudo em pratos limpos dali para frente. A História relata que homens como o socialista Louis Blanc, um defensor de associações de trabalho em meio operário, e o poeta Alphonse de Lamartine, um dos precursores do Romantismo em seu país, assumiram então temporariamente o governo. Foi quando se estabeleceu, pela primeira vez na França, o sufrágio universal. Um avanço e tanto, sem dúvida, provando que comida combina com Democracia.

Mas, aparentemente, tudo que envolve comida implica uma certa confusão, para além de conter sabor e certa dose de prazer, naturalmente. Ou o saudoso Dom Helder Câmara, nascido no Ceará, terra do baião de dois e da carne de sol com pirão, não afirmou que “quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. Vá entender.

O rei de França ainda tentou, em manobra quase desesperada, abdicar em favor do seu neto. Confesso que esqueci o nome do jovem. Compreensível, creio eu. Mas o gesto do monarca terminou sendo em vão e Luís Felipe fracassou redondamente. Pelo menos não perdeu a cabeça, como seu pai, o Duque de Orleães, guilhotinado pelos revolucionários republicanos de 14 de julho de 1789. Para alguns, muito triste. Para outros, nem tanto. Para o próprio Duque, péssimo, realmente péssimo. São coisas da vida. Quem mandou brincar com fogo?

Seja como for, pressionado pelos novos donos do poder – ou dos banquetes, vá lá –, Sua Majestade jogou a toalha...

Ivan Alves Filho, historiador

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