Por Victor Correia, Francisco Artur de Lima e Fabio Grecchi / Correio Braziliense
Presidente se reúne com Ursula von der Leyen,
no Rio de Janeiro, e antecipa assinatura do pacto entre blocos
Apesar de o acordo de livre comércio entre Mercosul e a União Europeia ser
oficialmente assinado hoje, em Assunção, Paraguai, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva antecipou-se à celebração e assumiu o protagonismo ao receber,
ontem, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, para uma
reunião no Rio de Janeiro. O encontro entre eles, no Palácio do
Itamaraty, foi interpretado como uma forma de destacar a preponderância do
Brasil nas negociações. Exceto no governo de Jair Bolsonaro, em 25 anos de negociações,
os maiores esforços para que o acerto entre os dois blocos saísse foram nas
presidências de Lula e de Dilma Rousseff.
O encontro com a presidente da CE embute, também, uma insatisfação. O Paraguai, que agora preside o Mercosul, havia convocado para a celebração da assinatura apenas os ministros de Relações Exteriores dos países do bloco, mas mudou os planos na última hora para incluir os presidentes, o que desagradou Lula — que decidiu não comparecer ao evento de hoje. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, mas os demais chefes de Estado estarão no evento: Santiago Peña (Paraguai), Javier Milei (Argentina), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia) confirmaram participação.
Lula também faz questão de deixar claro, por
conta da reunião com Van der Leyen e a ausência na celebração em Assunção,
alguns aspectos. O primeiro é que o Brasil é o grande fiador do acordo,
uma vez que países como Argentina (com Milei) e Uruguai (com o ex-presidente
Lacalle Pou) em vários momentos demonstraram desinteresse em que Mercosul e UE
se acertassem. Outro é que, por causa desse descaso, a assinatura do
acordo não foi celebrada na presidência brasileira do Mercosul, encerrada em
dezembro do ano passado. A cerimônia chegou a ser convocada para coincidir com
a cúpula do bloco, mas foi adiada após novos entraves impostos por países como
a França e a Irlanda.
A ausência de Lula tem, ainda, outras camadas
de protesto em relação aos parceiros que aparecerão na foto oficial que marcará
o fechamento do acordo Mercosul-UE. Uma é que foi ele, pessoalmente, que
trabalhou junto à primeira-ministra Giorgia Meloni para virar os
votos da Itália, que inicialmente apoiava, mas, depois, se colocou contra o
acerto. A mudança teve peso decisivo e o voto italiano na UE abriu a porta
para que os dois blocos finalmente se entendessem — deixando França e Irlanda
isolados.
Há, ainda, a insatisfação de Lula com a invasão
da Venezuela pelos Estados Unidos e o sequestro do ditador Nicolás Maduro e da
mulher dele, Cilia Flores. Enquanto Milei, por exemplo, exultou com a operação
militar e o Paraguai concordou com ela timidamente, o Brasil condenou a
agressão e deixou claro que trata-se de uma ameaça a todos os países do
continente.
Multilateralismo
Depois do encontro com Von der Leyen, eles
fizeram um pronunciamento conjunto no qual Lula destacou que os benefícios do
acerto são uma clara declaração de apoio às relações multilaterais — claro
contraponto ao que vem pregando internacionalmente o governo de Donald Trump.
"O acordo que será assinado amanhã (hoje) em Assunção, no Paraguai, é bom
para o Brasil, é bom para o Mercosul, é bom para a Europa e é muito bom, sobretudo,
para o mundo democrático e para o multilateralismo. A UE e o Mercosul
compartilham valores como o respeito à democracia, ao Estado de Direito e aos
direitos humanos. Mais diálogo político e mais cooperação vão garantir padrões
elevados de respeito aos direitos trabalhistas e a defesa do meio
ambiente", frisou.
Lula também citou a dificuldade na
finalização do acordo. "Foram mais de 25 anos de sofrimento e tentativa de
um acordo", enfatizou, destacando que tornou a celebração da conexão
comercial entre Mercosul e UE uma prioridade do atual mandato. Disse também que
o tratado, nos termos atuais, não prejudica o papel do Estado em áreas como
saúde, desenvolvimento industrial, inovação e agricultura familiar, mantendo a
autonomia das nações envolvidas, e que haverá mais empregos e oportunidades dos
dois lados do Atlântico.
Ele também ressaltou que seu governo não quer
que as exportações beneficiadas sejam apenas as do agronegócio. "Não nos
limitaremos ao eterno papel de exportador de commodities. Queremos produzir
e vender bens industriais de maior valor agregado. O acordo prevê dispositivos
que incentivam empresas europeias a ampliarem seus investimentos",
observou.
Para a presidente da CE, a oficialização do
acordo ocorrerá devido ao esforço de Lula. "O compromisso pessoal e a
paixão que o senhor (Lula) mostrou nas últimas semanas (para assinar o acordo),
caro presidente, foram realmente enormes. Muito obrigada por direcionar e
entregar esse acordo histórico", afirmou Von der Leyen.
Para a representante europeia, o acordo
comercial fortalecerá a relação entre os continentes na área de investimentos
em recursos minerais. "Saúdo o fato de a Europa e o Brasil estarem
avançando em direção a um acordo político muito importante sobre
matérias-primas críticas. Ele (o acordo Mercosul-UE) enquadrará nossa
cooperação em projetos de investimento conjunto em lítio, níquel e terras
raras", enumerou.
Von der Leyen salientou que os investimentos
relacionados às terras raras e a minerais vão fomentar a transição energética
para uma matriz mais "limpa".
Mínimo baixo
Lula afirmou, ontem, que o salário mínimo no
Brasil é "muito baixo" e que, desde que foi criado — em 1936, no
governo de Getúlio Vargas, por meio da Lei 185 —, não cumpriu a
função de garantir que os trabalhadores tenham direitos fundamentais como
moradia e alimentação. O comentário foi na cerimônia que
lançou a medalha comemorativa dos 90 anos da criação do piso salarial, na Casa
da Moeda, Rio de Janeiro.
"Não estamos fazendo apologia ao valor
do salário mínimo. O valor é muito baixo no Brasil. Estamos fazendo apologia,
aqui, da ideia de um presidente da República que, em 1936, criou a
possibilidade de se estabelecer um salário que garantisse aos trabalhadores os
direitos elementares a que todos nós temos direito: a gente morar, a gente
comer, estudar e ter o direito de ir e vir", afirmou Lula.
Segundo o presidente, "desde que foi
criado, o salário mínimo não preenche os requisitos da intenção da lei".
Atualmente, o é de R$ 1.621 e uma das promessas de campanha do
presidente, implementada no início do governo, foi o aumento anual do salário
mínimo acima da inflação.
Lula também fez um alerta sobre os usos da
inteligência artificial (IA), especialmente em ano eleitoral, e citou casos de
imagens sexualizadas que circulam no X (antigo twitter), produzidas pela ferramenta
Grok, da própria plataforma, sem regulamentação. "Vocês, mulheres, tomem
cuidado com essa tal de inteligência artificial. Ela é capaz de tirar uma foto
sua, sentada — do jeito que vocês estão aqui —, e colocar você pelada no
celular. É isso que é a IA. Se preparem, porque a podridão não está nem
começando na inteligência artificial. E todos nós gostamos de coisas
fáceis", advertiu.
Usuários do X passaram a produzir as imagens
sexualizadas, inclusive de crianças, depois de a plataforma iniciar o serviço
de geração de imagens do Grok. A ferramenta chegou a ser banida em países como
Malásia e Indonésia. Nações europeias começaram investigações sobre as imagens.
O dono da plataforma, o bilionário Elon Musk, inicialmente desdenhou das
acusações, mas, nesta semana, o X anunciou medidas para impedir a geração das
imagens.
Lula também disparou críticas contra as bets,
plataformas on-line de apostas, que foram regulamentadas. "O cassino
entrou dentro da casa da gente para uma criança de 10 anos pegar o telefone do
pai para jogar, com essa quantidade de bets que foi criada. Estão tomando conta
do futebol, da publicidade e da corrupção. Porque vocês estão vendo o trabalho
do Banco Central tentando fazer com que essa gente pague, pelo menos, imposto
neste país", cobrou.

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