Blog do Noblat / Metrópoles
O Brasil corre o risco de ter suas divisões
transformadas em conflitos, porque antes elas eram disfarçadas
A recente comemoração pela escolha do novo ministro do STF, tratada como vitória dos evangélicos, levanta temor de uma espécie de disputa religiosa no Brasil. Este temor surge também quando se percebe a luta de negros por seus direitos, ou de gays querendo casamento legal, os pobres querendo acesso a serviços públicos de qualidade reservados aos ricos. Estes conflitos afloraram depois de séculos camuflados, escamoteados, colocados debaixo do tapete. Até recentemente, “os negros sabiam seus lugares”, “os evangélicos aceitavam o Estado com viés católico”, os “gays ficavam no armário”, e “os pobres acomodados diante da riqueza dos outros”. Agora, cada vez que estes grupos se manifestam querendo cotas em universidades, vaga no STF, legalizar relações afetivas ou buscando auxílio, surgem vozes dizendo que o Brasil nunca teve racismo, que homossexuais não eram perseguidos, que os pobres não eram sacrificados e que os evangélicos ferem querem dominar o Estado.
O Brasil corre o risco de ter suas divisões
transformadas em conflitos, porque antes elas eram disfarçadas. Os grupos
dominantes – católicos, heterossexuais, brancos, ricos – impunham
discriminações que não apareciam, e os conflitos pareciam não existir. Este
tempo não voltará, e os conflitos vieram para corrigir falhas de uma sociedade
dividida, embora não conflituosa nas aparências.
Nosso problema não está no surgimento dos
preconceitos antes disfarçados, nem nos conflitos que se agravarão; está no
fato de que não nos preparamos para superá-los da maneira correta. Até mesmo os
instrumentos usados – transferência de renda, casamento gay, cotas para
universidade, vaga no supremo – são paliativos aos preconceitos; a superação
deles estaria na formação de uma mente brasileira tolerante com as
diversidades. Mas no lugar desta mentalidade, aprovamos leis de cotas, casamento
gay, vaga no Supremo para terrivelmente evangélico, bolsas e auxílios para
pobres, sem os necessários cuidados coma formação de uma mente brasileira
justa, solidária, tolerante, graças à educação. O fim dos preconceitos e das
desigualdades abismais está na implantação de um Sistema Nacional Único de
Educação de Base com qualidade igual para todos e com um currículo comum de
tolerância com todas as diversidades.
Levantamos o tapete que encobria a
intolerância e a exclusão sem fazer o dever de casa necessário para superar os
preconceitos, sem criar uma mente tolerante. Não cuidamos da educação que daria
oportunidades iguais a todos, independente do grupo social, nem implantamos um
conteúdo educacional progressista na formação de uma mente brasileira
tolerante. A falta de um Sistema Nacional Único de Educação de Base faz com que
as crianças de famílias negras e evangélicas tenham menos chance de uma escola
de qualidade, por serem famílias pobres, imbricando os preconceitos de raça e
de religião com a desigualdade social, e fazendo difícil ter uma escola que
seja fábrica de tolerância. Sem este Sistema Nacional Único de Educação de
Base, os conflitos se agravarão cada vez mais, depois de terem aflorado. Não há
mais como esconder de volta os preconceitos, nem, portanto, adiar a implantação
de um Sistema Único com qualidade igual para todos, com um currículo que forme
uma mente tolerante com a diversidade.
*Cristovam Buarque foi ministro, senador e
governador
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