domingo, 8 de março de 2026

O nome dele é Moreira, por Bernardo Mello Franco

O Globo

O impeachment de Dilma Rousseff vai completar dez anos. O tempo foi cruel com seus protagonistas. Eduardo Cunha e Michel Temer amargaram passagens pela cadeia. Aécio Neves escapou, mas caiu no ostracismo.

Às vésperas da efeméride, chega às livrarias “Política como destino”, depoimento biográfico de Moreira Franco. Com mais de mil páginas, o calhamaço registra a versão de um articulador discreto, porém central na trama que derrubou a petista.

Velho aliado de Temer, Moreira chefiou dois ministérios no primeiro mandato de Dilma. Dispensado após a reeleição, entrincheirou-se na fundação do então PMDB, onde passou a operar contra o governo. Seu gabinete, no 26º andar da torre da Câmara, transformou-se em bunker da conspirata.

No livro, o ex-ministro desconversa ao ser questionado sobre sua participação na derrocada da presidente. “Nenhuma”, despista. Na versão dele, foi Dilma quem “cavou sua própria cova”. “Ela mesma preparou seu impeachment”, sustenta.

Convidado a descrever a primeira mulher eleita presidente, Moreira usa adjetivos como “dura”, “inábil” e “difícil”. Fala em “arrogância”, “intransigência” e “teimosia”. “O governo Dilma foi um persistente desastre político”, decreta. Sobre Temer, ele afirma: “Foi um vice-presidente de fidelidade canina”.

Os entrevistadores Aspásia Camargo e Denis Rosenfield escolheram não citar as opiniões de Dilma sobre o ex-ministro. Numa entrevista ao Valor Econômico, em 2017, ela declarou: “O Gato Angorá tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar, querida. É literal isso: eu não deixei o Gato Angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil”.

Moreira sempre negou envolvimento em esquemas de corrupção. Ao relembrar o governo Temer, pinta o correligionário com cores de estadista. Diz que ele tentou “recuperar a confiança no país”, mas foi vítima de uma “campanha injusta e incansável”.

O ex-ministro conta que o presidente esteve prestes a renunciar após o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, noticiar que ele havia sido gravado por Joesley Batista. “A assessoria de imprensa da Presidência já tinha redigido o pronunciamento”, recorda.

Moreira diz ter interrompido a reunião final com um apelo pela permanência de Temer. “Pedi a palavra e, de maneira enfática, manifestei minha divergência radical sobre a decisão que estava sendo tomada”, relata. A fala teria convencido o aliado, que conseguiu se equilibrar no cargo até o fim do mandato.

Em março de 2019, com Jair Bolsonaro recém-instalado no Planalto, Moreira e Temer seriam presos pela Lava-Jato. O ex-ministro diz que foi “sequestrado” e acusa os procuradores e o ex-juiz Marcelo Bretas de “ativismo”.

Libertado depois de quatro dias, ele se queixa por ser incluído na lista de ex-governadores do Rio que já passaram pelo xadrez. “Fico ouvindo esse mantra e me pergunto como defender-me deste abuso e desta injustiça”, protesta.

Moreira diz se lembrar “com orgulho” da gestão como governador do Rio. Num breve momento de autocrítica, ele se penitencia por ter garantido, antes da eleição de 1986, que acabaria com a violência em seis meses. “De fato, foi uma promessa demagógica e absolutamente despropositada”, admite.

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