segunda-feira, 9 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Disputa de poder não pode atrasar transição energética

Por O Globo

Plano brasileiro atrasa por conflito dos ministérios de Minas e Energia e Casa Civil com Meio Ambiente e Fazenda

Depois da sensação de frustração ao final da COP30 com a dificuldade de alcançar uma proposta consensual de “mapa do caminho” para a transição energética, o Brasil tomou uma decisão acertada: como continua na presidência da COP até a próxima conferência, anunciou que formularia seu próprio projeto. Mas o prazo se esgotou no início de fevereiro sem nenhum resultado concreto, porque os ministérios envolvidos — Casa Civil, Minas e Energia, Meio Ambiente e Fazenda — simplesmente não conseguem se entender. É compreensível que a proposta do “mapa do caminho” enfrentasse em Belém a resistência dos países cuja economia está atrelada aos combustíveis fósseis. É inexplicável, porém, que esbarre na disputa por espaços de poder em Brasília.

Não caiam nessa de novo: delação não é uma boa ideia, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Lava-Jato nos ensinou que delação gera espetacularização e faz o crime valer a pena

A figurinha do Michael Jackson comendo pipoca vendo um filme de terror, extraída do clip de Thriller, aparece no meu WhatsApp a cada rodada de notícias envolvendo as investigações do caso Master.

Num país onde todos imaginam as tenebrosas transações que são acertadas entre grandes empresários e políticos poderosos no escurinho do cinema (vide “Cine Trancoso”), é impossível conter a excitação quando esses vínculos vêm à tona.

O potencial de destruição do Master já era evidente desde o princípio, quando se armaram no Supremo Tribunal Federal, no Tribunal de Contas da União e na cúpula do Congresso Nacional várias manobras para se conter a investigação dos crimes de Daniel Vorcaro.

Câmara segura a lei que o BC precisa, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Projeto é técnico e unânime só não tendo sido aprovado ainda devido a circunstâncias políticas

Com todo mundo de olho na prisão de Daniel Vorcaro e na descoberta de que funcionários do Banco Central foram cooptados pelo Banco Master, algo muito importante passou quase despercebido na semana passada: a retirada de pauta de votação na Câmara dos Deputados do projeto da Lei de Resolução Bancária.

Esse é um projeto fundamental para corrigir os problemas que permitiram que o caso do Banco Master chegasse aonde chegou. Mas não é apenas uma melhora institucional que pode ajudar lá na frente. O Banco Central precisa dessas ferramentas desde já, sem demora, para fazer o saneamento do sistema de pagamento instantâneo, o Pix, que no ano passado foi infiltrado por participantes do crime organizado.

O terceiro homem, por Miguel de Almeida

O Globo

Visto como país do futuro, o Brasil surge apegado ao passado e com medo do presente

Na foto do momento, aparecem os nomes de Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. É o que as forças políticas oferecem no menu para mais quatro anos de mandato presidencial. Visto como país do futuro, o Brasil surge apegado ao passado e com medo do presente. Parece que o filme nunca começa; enquanto isso, assistimos a infindáveis reprises.

Quando Lula ganhou a eleição de 2002, o ex-presidente José Sarney chegou a dizer que a vitória do PT era um estágio a ser ultrapassado. Como se fosse uma maldição ou pagamento de dívida, vá lá. Desde a redemocratização, o Brasil já experimentara eleger um outsider (Fernando Collor) e um sociólogo de centro-esquerda (Fernando Henrique Cardoso). Lula vinha na roupagem de esquerda e logo mostrou-se centrista na economia e conservador na política, ao abraçar o MDB como parceiro. Deu no escândalo do mensalão, história já conhecida dos brasileiros, apesar de o STF ter abrandado as penalidades e revertido as multas aplicadas. Ainda que as provas demonstrassem os crimes.

Vorcaro preso; instituições funcionam, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O homem elegante que esbanjava luxo e ostentava ligações com autoridades dos três Poderes está isolado numa cela

A foto de Daniel Vorcaro — sem barba, cabelos aparados, visto de frente e de perfil — divulgada pela polícia é a prova de que as instituições estão funcionando. O homem elegante que esbanjava luxo, riqueza e ostentava ligações com autoridades dos três Poderes está isolado numa cela de 9m2, num presídio federal de segurança máxima em Brasília. Sua rede de negócios fraudulentos foi desmantelada, capangas e cúmplices estão presos.

Não foi sem percalços. Numa democracia, num Estado de Direito, os cidadãos e a própria sociedade têm sempre acesso a um último recurso, os tribunais. Ocorre que estes podem falhar — e vinham falhando até a quarta-feira da semana passada, quando Vorcaro foi preso pela segunda vez, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Submissão nunca mais, por Irapuã Santana

O Globo

Brancos são necessários para combater o racismo, homens são imprescindíveis na causa das mulheres

Ontem foi o Dia Internacional da Mulher, e eu gostaria de trazer alguma coisa com o copo meio cheio. Infelizmente, depois do crime bárbaro que ocorreu com uma menina na Zona Sul do Rio de Janeiro, não tem muito para onde escapar. Esse fato extremamente lamentável é o retrato dos riscos e das características do que ocorre hoje em dia.

O STF e as almôndegas, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Transparência total e o desestímulo ao corporativismo são a via para a Corte recuperar a imagem

Em dezembro de 2021, Ann-Christine Lindeblad, juíza da Suprema Corte da Suécia, foi flagrada tentando sair de um supermercado, sem pagar, com um pacote de almôndegas, um presunto natalino, salsichas e queijos. Foi aberta uma investigação policial e, menos de dois meses depois, Lindeblad renunciou ao cargo que exerceu por quase vinte anos. Posteriormente, ela foi punida com multa (uma decisão anterior da própria Suprema Corte considerou de menor gravidade furtos a lojas com valores abaixo de 1.250 coroas suecas, algo como R$ 710).

Força militar contra cartéis é ineficaz, Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Nova coalizão de cooperação em segurança exclui principais países da região como Brasil

Depois de derrubar o presidente venezuelano Maduro e impor um bloqueio ao regime cubano, o governo dos EUA formalizou, no sábado, mais um elemento-chave da chamada Doutrina Donroe, que busca alcançar a supremacia de Washington na América Latina. Donald Trump anunciou a criação de uma nova coalizão regional chamada Escudo das Américas durante uma cúpula em Miami.

A teocracia iraniana e a guerra, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Não tendo como ganhar esta guerra, sobra-lhe apenas disseminar o caos no Oriente Médio, atacando até aliados como o Catar e Omã. Perdeu o norte

A teocracia iraniana está vivendo o estertor de uma estratégia fracassada. Durante décadas, deu-se como missão a destruição do Estado de Israel. Sempre o declarou abertamente, embora a esquerda mundial se tenha feito de surda. Terminou, por via de consequência, compactuando com o assassinato iraniano de mulheres, a repressão constante de sua população, tratada como se fosse uma massa de escravos sem direitos. Sua opressão conta com milhares de vítimas. O silêncio predominou. Agora, repentinamente, essa esquerda voltou a se manifestar contra o ataque americano e israelense, como se a agressão iraniana a seu próprio povo fosse um mero direito dos aiatolás.

As barreiras invisíveis à presença das mulheres na política, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Estamos atrás do México, do Zimbábue, de Serra Leoa e até da Arábia Saudita

A dificuldade tem múltiplas causas, que vão do financiamento a barreiras psicossociais e culturais

Peço licença aos leitores para deixar de lado os assuntos da semana e dedicar esta coluna ao tema que marca o 8 de Março, o Dia Internacional das Mulheres.

A edição de 2025 do Mapa Mulheres na Política, editado pela União Interparlamentar (UIP) e pela ONU Mulheres, coloca o Brasil na posição 133 entre 183 países analisados no ranking de presença de mulheres no Parlamento (considerando a Câmara dos Deputados e casas equivalentes em outros países). Estamos atrás do México, do Zimbábue, de Serra Leoa e até da Arábia Saudita, onde as mulheres só ganharam o direito de dirigir em 2018.

Um país que não ama as mulheres, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Casos de feminicídio batem recorde e passam de 1.500 em 2025

Só El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia matam mais que o Brasil

A fúria, a misoginia e a raiva expressas nos altos índices de feminicídio, estupro e violência contra as mulheres são sintomas de uma epidemia que acomete um número cada vez maior de homens e faz do Brasil um país que não ama as mulheres.

Os casos de feminicídio bateram recorde nos dois últimos anos. Em 2024, foram 1.459 vítimas. Em 2025, o número subiu para 1.568, ou seja, uma média diária de quatro mulheres assassinadas (Ministério da Justiça e Segurança Pública) pelo marido, companheiro, namorado, pelos "ex-", ou pelo próprio pai.

O Supremo na encruzilhada, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Corrupção individual e abuso de poder interagem produzindo um efeito multiplicador que potencializa seu impacto

Uso instrumental da defesa da democracia como escudo institucional para legitimar erros deslegitima combate ao autoritarismo

Se há algum consenso em relação à crise do STF, ele diz respeito à sua escala —vasta, oceânica— ou à sua importância —colossal, desmedida. Mas esses consensos tendem a misturar duas dimensões analiticamente distintas. A primeira é a questão da corrupção individual. Esse tipo de situação, embora raro em tribunais constitucionais, possui precedentes internacionais. Trata-se de casos de magistrados envolvidos em esquemas de tráfico de influência dentro do Judiciário —situações em que o juiz atua ele próprio ou como intermediário informal para influenciar decisões ou procedimentos administrativos em troca de benefícios privados. Nesses casos, a questão é essencialmente penal e individual: trata-se da responsabilização de um agente que teria violado deveres funcionais básicos. No caso brasileiro, contudo, há indícios de envolvimento de dois ministros —não apenas um. E, mais importante, a contraparte não seria uma empresa ou indivíduo, mas uma organização criminosa de características mafiosas. Tudo isso confere ao episódio um caráter de ineditismo espantoso.

Sua Excelência a pé, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Sem carro fornecido pelo Estado, como os juízes podem ir de casa para o trabalho e vice-versa?

Se for por segurança, não poderão julgar nem briga de vizinho, casal em litígio ou atropelamento de cachorro

Outro dia, assisti na TV ao depoimento de uma juíza de primeira instância sobre as agruras dos profissionais do seu status, o mais inferior da categoria. Aflito, ouvi seu protesto contra o fato de que, ao contrário dos colegas de instâncias superiores, ela não dispunha de carro fornecido pelo Estado. Pela ênfase que dava ao tópico, não se sabe como conseguia dar conta de suas atribuições, sem um veículo que a levasse de casa para o trabalho e, ao fim do expediente, a devolvesse ao sacrossanto recesso.

O amor em taça, por Ivan Alves Filho

Toda história tem um começo. E esta também. E ela começa muito longe daqui, há muito, muito tempo. Mais precisamente na França, na localidade de Hautvilliers, em uma abadia do século XII. Foi ali que o monge beneditino Dom Pérignon inventou uma maneira de transformar o vinho nosso de cada dia em uma bebida nova, borbulhante. Nascia assim o champanhe. Há quem veja nesse gesto nada mais nada menos que a interferência divina. Sim, a mão de Deus. É beber para crer.

A Voz de Hind Rajab, por Ricardo Marinho

Obra resenhada: A VOZ DE HIND RAJAB. Direção: Kaouther Ben Hania. Tunísia; França, 2025.

Em 29 de janeiro de 2024, o Exército Israelense ordenou a evacuação do bairro Tel Al-Hawa, na Faixa de Gaza. Naquele dia, seis membros da família Hamada, junto com sua sobrinha de seis anos, Hind Rajab, ficaram presos em seu carro após o próprio Exército Israelense abrir fogo contra eles, matando imediatamente cinco ocupantes do veículo. Milagrosamente, uma garota de quinze anos chamada Layan conseguiu ligar para a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino e pedir ajuda antes de também sucumbir aos ferimentos. Isso deixou Hind, de seis anos, sozinha no carro, cercada pelos corpos de seus familiares mortos, possuindo um celular com sinal ruim e ainda com bateria como sua única esperança.

Poesia | E então, o que quereis? De Vladímir Maiakóvski

Música | Wilson das Neves - Os Papéis / O Samba é meu dom