quarta-feira, 19 de março de 2025

Kotscho na luta pelas direta – Elio Gaspari


 Globo

Livro sobre campanha das Diretas mostra país alegre que se foi

O Senado relançou ontem o livro “Explode um novo Brasil: diário da campanha das Diretas”, do repórter Ricardo Kotscho, que cobriu para a Folha de S.Paulo a maior campanha popular da História do Brasil. Ela começou em fevereiro de 1983, quando o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou um projeto de Emenda Constitucional restabelecendo as eleições diretas para a Presidência da República, e terminou em abril de 1984, quando a proposta foi ao arquivo porque lhe faltaram 22 votos.

Ler o “Diário” de Kotscho permite revisitar a explosão de manifestações políticas de um Brasil alegre, atirado em doces paradoxos. No primeiro, a campanha das Diretas foi derrotada, mas Tancredo Neves foi eleito indiretamente, marcando o fim da ditadura. No segundo, eleito, Tancredo morreu sem assumir. José Sarney, seu vice, saído do partido do governo, conduziu a transição para a democracia e, em 1989, presidiu a primeira eleição direta desde 1960.

O “Diário” de Kotscho vai de novembro de 1983 a abril de 1984 e é uma viagem a um tempo que se foi. Passados mais de 40 anos, foram-se grandes nomes dessa campanha: Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Leonel Brizola e Mário Covas. Restam Lula, Fernando Henrique Cardoso e Paulo Maluf. Candidato do governo, Maluf anunciou no dia 1º de novembro:

— O jogo está encerrado.

Nas suas contas, estava eleito.

Kotscho conta como a campanha começou, mal, numa festa-comício do PT apoiado por 70 entidades da sociedade civil. Depois disso, Franco Montoro, governador de São Paulo, e Ulysses Guimarães, presidente nacional do PMDB, jogaram o partido na campanha.

A emoção do repórter Kotscho contando essas manifestações é a alma de seu livro.

No dia 25 de janeiro, realizou-se em São Paulo o grande comício da Praça da Sé, com todos os notáveis da campanha, 200 mil pessoas, Fernanda MontenegroGilberto Gil, Fafá de Belém e Regina Duarte.

Em fevereiro, 25 mil brasileiros reuniram-se em Teresina. Isso equivalia a 30% da população. Mais 25 mil em São Luís e 50 mil em Curitiba.

Ao fim de fevereiro, cerca de 1 milhão de pessoas foram às ruas em quase todas as grandes cidades do país.

Cantavam-se os hinos da Independência, o Nacional e “Apesar de você”, de Chico Buarque, ou “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. Vestiam-se camisetas amarelas, e os dias de comício eram de festa. Nenhuma mobilização política da História teve a grandiosidade e a alegria da campanha das Diretas. Kotscho mostra isso com o olhar num humor que, por enquanto, se foi.

Kotscho conta as grandes noites dos comícios da Candelária, no Rio, e do Anhangabaú, em São Paulo. Depois disso, sofre narrando a derrota da Emenda Dante de Oliveira. É raro o aparecimento de um livro tão valioso, tantos anos depois.

O “Diário” de Kotscho, fartamente ilustrado, está à venda no site da Livraria do Senado. Lá, na Biblioteca Digital, sua versão eletrônica (e completa) pode ser baixada, de graça.

Vale avisar que a Biblioteca Digital do Senado oferece, sempre de graça, centenas de livros de grandes autores sobre a História do Brasil, desde a coleção “História dos fundadores do Império do Brasil”, de Otávio Tarquínio de Sousa, à “História do Brasil”, de João Armitage. Um tesouro.


 

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