domingo, 23 de março de 2025

O ‘desde que’ contra a isenção do IR - Elio Gaspari

O Globo

O Brasil não se tornou um país desigual anteontem. A ruína vem de longe e vale a pena olhar para trás

O governo mandou ao Congresso um projeto pelo qual isenta, a partir do ano que vem, os contribuintes que recebem até R$ 5 mil do pagamento de Imposto de Renda. A medida beneficia dez milhões de pessoas. Para compensar a perda de arrecadação, quer taxar com um piso de 10% os ganhos de quem recebe mais de R$ 600 mil anuais, o que dá uma renda mensal de R$ 50 mil. A mordida pega 141 mil contribuintes.

O Brasil está entre os campeões mundiais de desigualdade social e a aprovação da isenção é quase certa. Já a taxação do andar de cima abriu um saudável debate. Argumenta-se que Lula deveria pensar primeiro em gastar menos, ou ainda que a taxação inibe investimentos e estimulará a fuga de capitais.

Todos esses argumentos têm seu valor e os debates jogarão luz sobre a questão. O Brasil não se tornou um país desigual anteontem. A ruína vem de longe e vale a pena olhar para trás.

Faz algum tempo, um curioso pediu ajuda ao historiador Manolo Florentino (1958-2021) para achar uma declaração de político ilustre em defesa da escravidão nos anos 70 do século XIX e ele respondeu:

—Você não vai achar. Naqueles anos, ninguém mais defendia a escravidão. Todo mundo era a favor, desde que... Desde isso, desde aquilo, para retardar a libertação dos escravos.

No século XXI, todo mundo é a favor da isenção do andar de baixo. A porca torce o rabo quando se discute a taxação do andar de cima. Nada há de novo sob o céu de anil.

O andar de cima segurou a escravidão até 1888

Pela lei, todos os africanos que aportaram ao Brasil depois de 1831 eram livres. O futuro Marquês do Paraná ponderou que não era o caso de libertar os negros, mas de obrigar quem os recebesse a “levá-los outra vez para a costa da África”. Como, não disse.

Seu colega, Marquês de Inhambupe, foi mais específico. Podiam ser libertados os africanos que aportassem “com a inteligência necessária para se poderem regular”. Já os “chamados bisonhos, que não têm inteligência nenhuma, para poder procurar os meios de subsistência; pelo que parece dar-lhes a liberdade, é fazê-los ainda mais desgraçados”. Em suma, o negro era capturado na África, trazido para Pindorama e vendido como mercadoria, mas libertá-lo seria desgraçá-lo. Afinal, como dizia o Marquês do Paraná, “a abolição da escravatura no Brasil é uma questão do futuro, não do presente”.

Em 1831 os africanos trazidos para o Brasil eram cerca de 50 mil. Até 1850, quando a Inglaterra obrigou o Império a proibir o contrabando, foram comprados pelo menos 800 mil africanos. Apenas oito mil foram resgatados, mas só poderiam ser libertados depois de prestar serviços à Nação. Ela os privatizava, passando-os à elite do andar de cima, umas 600 pessoas. O Marquês do Paraná recebeu 21 e pelo menos dois grandes jornalistas do período entraram nessa boquinha.

Na segunda metade do século XIX, com ventos que vinham de fora, o debate da escravidão aos poucos ganhou corpo. Em 1871 a Lei do Ventre Livre alforriou condicionalmente os nascituros. Tudo bem, mas o primeiro projeto nessa direção era de 1831.

No debate desta lei, Paulino Soares de Souza advertia:

— Ninguém sustenta aqui a perpetuidade da escravidão. (...) O dever de todos nós é não deixar irrefletidamente expor o país a uma crise violenta (...) sem atentar contra a propriedade, sem perturbar as relações existentes, sem prejudicar os grandes interesses que infelizmente estão ligados e por muito tempo há de firmar nessa instituição.

Em 1881, atacando o abolicionismo de Joaquim Nabuco, o escritor Silvio Romero enunciava seu “desde que”. Para ele, o melhor meio para dar fim à escravidão seria investir no trabalho livre “mais fecundo, e depois mais fácil, mais barato.” As coisas continuaram indo bem para o andar de cima. A historiadora Angela Alonso mostrou que, passados 11 anos, apenas 11 mil brasileiros haviam sido libertados, 0,7% dos negros escravizados.

Em 1884, veio a lei que libertava os sexagenários. Foi atacada porque significava um abandono dos idosos. A providência seria louvável desde que existissem asilos.

Em 1887, a maré cresceu e apareceram projetos abolindo a escravidão, desde que os senhores ganhassem um respiro até 1890. Nesses dias, nas Américas, só o Brasil escravizava negros.

Um ano depois, com o abolicionismo nas ruas e os negros fugindo das fazendas, no dia 8 de maio de 1888 foi apresentado um projeto de abolição imediata e incondicional. Um problema varrido para baixo do tapete por mais de 50 anos, tramitou em apenas cinco dias, e, a 13 de maio, Isabel assinou o decreto que acabou com a escravidão.

Um mau negócio até para a elite

No século XIX prosperaram no Sul do Estado do Rio os irmãos José e Joaquim de Souza Breves. Tiveram dezenas de fazendas de café e, talvez, até dez mil negros escravizados. Depois de 1850, continuaram no negócio do contrabando de africanos e mantiveram um trapiche para abrigá-los na restinga da Marambaia. (É lá que às vezes os presidentes da República vão descansar em alguns feriadões).

Quando o contrabando foi proibido, Joaquim Breves profetizou:

“Se isto continua, a vida e a fortuna de numerosos cidadãos, assim como a paz e a tranquilidade do Império, correm iminente perigo”.

Os Breves continuaram investindo na escravaria enquanto outros fazendeiros migravam para títulos da dívida pública, remunerada pela Selic da época. O Império acabou-se em 1889 e, nos anos 50 do século XX, Vitor, o patriarca da família, estava bem de vida. Tinha um bananal, uma modesta fábrica de bananada e uma pequena termelétrica. Sombra do que haviam sido, ele e todos os Breves trabalharam para viver, pagando pelo trabalho alheio. Quem andou para trás foi o Brasil.

Costa Neto costura por dentro

O deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL, costura por dentro. Há meses ele repete que, além de um projeto de anistia para os golpistas de 2022/23, deve-se buscar um entendimento com o Supremo Tribunal de forma a reduzir as sentenças impostas à turma do 8 de Janeiro.

Nas últimas semanas, a chapa da política esquentou quando o PL parecia disposto a colocar o deputado Eduardo Bolsonaro na presidência da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

Se isso acontecesse, ele teria um palanque para atacar o Judiciário, em parceria com o trumpismo e o bilionário Elon Musk.

Veio o fim de semana, Eduardo Bolsonaro licenciou-se do mandato para ficar nos Estados Unidos e o PL indicou o deputado Filipe Barros para a Comissão de Relações Exteriores.

Ainda não se sabe como, mas é provável que o Supremo Tribunal Federal reduza as sentenças da turma do 8 de Janeiro, até porque eles eram a infantaria de um estado-maior, que começará a ser julgado nos próximos meses.

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