Folha de S. Paulo
Senhor da Casa Branca almeja quebrar
instituições sobre as quais se sustenta ordem erguida no pós-guerra
Nova ordem imaginada por Trump é concerto de
grandes potências engajadas na delimitação de esferas de influência
As crises da Groenlândia e de Gaza esclarecem o sentido da política global de Trump. Mais que a soberania sobre a ilha ártica ou uma solução geopolítica na Terra Santa, o senhor da Casa Branca almeja quebrar as instituições sobre as quais se sustenta a ordem internacional erguida no pós-guerra. Seus atos conduzem o mundo ao estado hobbesiano da "guerra de todos contra todos".
Macron exprimiu sua perplexidade face à
insistência de Trump em obter a "posse" da Groenlândia. Um editorial
desta Folha afirmou,
em linha com as análises convencionais, que tal obsessão "desafia a
razão" (folha.com/zjafcq0t).
Contudo, é preciso não confundir a razão racional com a razão ideológica. A
primeira explica que os EUA não precisam da soberania sobre a ilha ártica para
realizar objetivos de segurança geopolítica ou negócios minerais. A segunda
ilumina a motivação de fundo da Casa Branca.
Trump engaja-se na implosão da Aliança
Atlântica que soldou os EUA à Europa.
A nova Estratégia de Segurança Nacional da superpotência aponta um
"declínio civilizacional" da Europa e afirma que a regeneração das
nações europeias depende da ascensão ao poder dos partidos da direita radical.
O presidente americano enxerga a União Europeia como adversária dos EUA. Sob
seu ponto de vista, a Otan é
um fardo inútil que drena recursos americanos e limita as opções estratégicas
dos EUA.
O recuo tático no caso da Groenlândia,
imposto por uma Europa que entendeu a ineficácia da lisonja, não altera o rumo
geral das coisas. À sombra das ameaças militares pronunciadas pela Casa Branca,
o compromisso de defesa mútua da Otan torna-se uma casca vazia. Graças a Trump,
a invasão russa da Ucrânia vai
obtendo um triunfo com o qual o Kremlin não ousava sonhar: a destruição da
Aliança Atlântica é um prêmio muito mais valioso que o Donbass.
A trégua em Gaza, um feito real de Trump,
coagulou-se como cessar-fogo zumbi. Os EUA não parecem dispostos a impor
a Israel e
ao Hamas o
avanço rumo à paz em dois Estados prometida pelo plano original. Mas o
presidente americano utiliza o impasse como trampolim para a criação de seu
Conselho da Paz, um clube privado de líderes globais que, nas suas palavras,
poderia tomar o lugar da ONU. De olho na
Ucrânia, Putin aderiu ao organismo. Preocupado com o neoimperialismo dos EUA no
"Hemisfério Americano", Xi Jinping resiste
ao convite.
Nos círculos do Maga, o movimento de Trump, o
desprezo pela Otan é tão intenso quanto a aversão à ONU. A Aliança Atlântica
fundamenta-se na cooperação de segurança entre nações democráticas e soberanas.
A Carta da ONU expressa o projeto de uma ordem internacional baseada nos
princípios da autodeterminação dos povos e da inviolabilidade das fronteiras. O
Conselho da Paz, em contraste, dispensa qualquer suporte de valores ou regras:
sua única norma implícita é a subordinação à figura de seu fundador e
presidente perpétuo.
A Otan freou o expansionismo da URSS na
Europa —e, depois de 1991, formou a moldura para a integração dos antigos
satélites soviéticos à União Europeia. A ONU nunca impediu guerras de agressão,
mas evitou a conquista imperial de nações soberanas. A nova ordem imaginada por
Trump é um concerto de grandes potências engajadas na delimitação de esferas de
influência. "Paz" é o nome com o qual batiza o direito da força.

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