“Não são apenas os vivos que nos atormentam,
os mortos também. Le mort saisit le vif!”.
— Karl Marx, Prólogo à primeira edição de O capital.
Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água, alimento e sombra para
o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura
predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a caça à
natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Colônia, a escravidão de
negros importados para o eito e a morte antecipada.
Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de povo em busca de
nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia arcar a
decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados
referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de
brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma
nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima
consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de
Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não
cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado
interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América.
Éramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa do pequeno Estado
português, em trânsito entre o domínio espanhol e o britânico, cuja
preeminência nos condicionaria até o fim da Primeira Grande Guerra (1914–1918)
e a ascensão dos EUA, que se tornam a unipotência capitalista após a queda do
Muro de Berlim e a capitulação da URSS.
Continuávamos na periferia, como se cumpríssemos um determinismo que a leitura
dialética da História não justifica. Antes, no nascedouro do século XVI, na
periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e
pré-estatal. Agora, na periferia do capitalismo pós-industrial, sob a égide de
um imperialismo Moloch.
Em 1627, em sua História do Brasil, o sábio e precursor Frei Vicente de
Salvador profligava as limitações estratégicas do português: desapetrechado
política e economicamente, pugnava salvar-se mediante a conservação da terra
apossada sem luta, e salvá-la por meio de tratados negociados com nações mais
poderosas: “Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato,
porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que,
sendo grandes conquistadores de terras, não aproveitam delas, mas contentam-se
de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”.
Vida social, nenhuma. Vida política, tão-só a necessária para assegurar o
domínio português: os primeiros agentes do fisco, os primeiros militares,
os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justiça reinol; os
padres e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando o gentio e o
negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando, aportuguesando e
construindo, território afora, suas “repúblicas”, seus aldeamentos, suas
“missões”, um modelo de colonização clerical que palmilhou quase todo o país
daqueles idos; caminhando desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do
Sul, à Argentina e ao Paraguai; chegaram a mobilizar entre 250 e
300 mil guaranis, até a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.
Nascemos na periferia do mercantilismo do século XVI, do capitalismo nascente,
ainda pré-industrial e pré-estatal, e nossos donos de então, pais e mães dos
donos de hoje, logo se aclimataram no ócio, pois havia índios preados para o
trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morte antes do tempo. A
história oficial consagrou como “heróis da Pátria” os genocidas das Entradas e
Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produção, só o escravo trabalhava, o que
não explica tudo, mas sugere um campo de reflexão. Darcy Ribeiro lembra a carne
e a alma dos indígenas e dos negros que os brancos caçavam para produzir e
poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algodão, e mais isso e
mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui, em se plantando
(pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e logramos plantar cana e
produzir açúcar para exportar à Europa, de onde importávamos tudo:
manufaturados, ideologia, valores, cultura, visão de mundo, por intermédio dos
entrepostos portugueses que nos exploravam como monopólio comercial.
O “brasileiro” é o português que vem “fazer a América”, enriquecer e voltar a
Portugal para construir igrejas, e será personagem de Camilo Castelo Branco. O
proprietário de engenho é um simples feitor muito rico. Não é um empreendedor,
não é um pioneiro. É um homem da terra, reacionário, violento, inculto; mas,
supunha, falava com Deus; precatado, mantinha em casa uma Capela devotada ao
Cristo ou à Imaculada Cinceição onde se casavam os herfeiros com os
herdeiros das terras vizinhas.
São essas as nossas raízes, as de um Estado classista moderno na sua abjeta
concentração de renda e espoliação social; raízes que explicam ainda o mal de
origem que intentam negacear: construído aos trancos e barrancos, isento de
projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil não é, está sendo; algo permanentemente
em elaboração, sem bússola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas
jamais dispondo de horizonte de chegada: sem régua e sem compasso, manipulado
pela dialética das circunstâncias nas quais não ousa intervir.
Na transição para o capitalismo, a burguesia que nos coube já não era
revolucionária quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada
na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se
desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de
seus avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê.
Essas, as nossas circunstâncias perdurantes. Sem noção de si, carecemos da
noção de mundo; sem projeto de ser, não temos porto de chegada. Ficamos com os
argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E la nave va, mas não nos
salva da alienação: a crise é objetiva, material, concreta e nos fisga no
contrapé da irrelevância. Assim, quietos, nos escondemos diante da crise, que é
uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas está diretamente na América
do Sul e no Brasil.
Fruto da formação histórica que acima se tentou resumir, nossa classe
dominante, trêfega e traficante, não tem condições de dialogar com a realidade;
alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica com a nação, não a pode
compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar.
Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedade civil”. Ou a
academia, silente, omissa. Não há condições de cobrar o que quer que seja do
movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir uma postura digna
dos partidos que ainda integram essa larga avenida que reúne progressistas,
esquerda e centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigir de nosso
governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas notas expedidas
pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar do Palácio do
Planalto, já lá atrás, reduzindo a agressão imperialista a uma chantagem
tarifária, ao fim e ao cabo delegando as negociações de Estado, que haveriam de
ser políticas, à intermediação de produtores brasileiros de carne e outras
commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e lobby de
Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensa sobre o
condomínio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza. É preciso
salvar a política “ativa e altiva” de Celso Amorim.
A questão, como é sabido, volta para seu campo nuclear, que é a política, de
onde, a rigor, jamais saiu.
Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa, Oriente Médio,
Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã, Dinamarca/Groenlândia, América Latina
e, nela, tanto a América do Sul, onde estamos, convivendo com a ascensão da
extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invasão da Venezuela, na
nossa fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquer momento e em
qualquer circunstância.
Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da Casa Branca anuncia como
nova política a retomada do “grande quintal”, proclamados o fim da política, o
fim do multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial está
na ululante falência do direito internacional; inane.
A nova ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste. Soberania nacional
não é um valor moral, nem muito menos jurídico, ensina a doutrina, ensina
a vida; é uma força objetiva, concreta, palpável, que depende exclusivamente de
si. A esse predicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuasão. De que
carecemos. Porque nossas forças não estão adequadamente armadas, porque sua formação
ideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo ainda
não conseguiu construir com a sociedade sua política de defesa.
Porque, ao final, carecemos de um projeto para o país.
Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que já aspirou papel de
liderança no plano internacional, vê-se reduzido à condição de objeto: peão em
meio a outros peões que se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o
soberano imóvel, decidindo os destinos do mundo.
Lamentavelmente, vítimas de crassa falência analítica — como se a história não
estivesse à nossa disposição para ensinar aos que querem saber —, não nos damos
conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama estranho ao
nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é único, a representação é
única, o elenco é único, a plateia é única: somos nós. Os tempos de hoje trazem
os tempos sempre contemporâneos de Shakespeare e seu Rei Lear, na fala de
Gloucester (Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quando os loucos
conduzem os cegos”.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.
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