O Ocidente deve à Igreja Católica algumas de
suas conquistas mais refinadas – para nos restringirmos apenas às questões de
paladar e olfato. Dos licores aos doces e destes aos defumados. O champanhe
seria mais uma delas. Só que Dom Pérignon queria mais do que um vinho espumante
e por isso criou também a taça flûte (sob forma de flauta, como seu
próprio nome indica, estreita o suficiente para evitar a evaporação e a
consequente perda de sabor da bebida). Inspirado, Dom Pérignon foi em frente e
descobriu uma rolha capaz de armazenar todas as propriedades do champanhe,
acondicionando-o melhor. Não só: inventou ainda um modelo de garrafa,
rechonchuda na base e estreita no gargalo. Quer dizer, fez o chamado serviço
completo. Precavido, o nosso bom homem de Deus parece ter pensado em todos os
pormenores da questão. Ainda bem. Ou melhor: Amém.
Tudo o mais dependeria das condições
naturais, uma vez que o champanhe resulta de uma feliz combinação entre
calcário e clima temperado. E isso é o que não falta nunca nos arredores de
Epernay, Reims e Châlons-du-Champagne, o circuito sagrado da bebida. É preciso
não esquecer tampouco a técnica de fermentação dupla que leva ao peculiar
borbulhamento do champanhe.
Na primeira fermentação, já ocorre a
chamada assemblage ou mistura com outras uvas, provocando o
clareamento da bebida. Na segunda, dá-se a remuage ou o delicado
chacoalhar diário das garrafas dispostas de cabeça para baixo, em um processo
que pode durar até 12 anos. A alta acidez do champanhe tem origem no fato de a
uva ser colhida precocemente. Tudo isso está nos antigos manuais e é assim
mesmo que se faz. O prazer dá trabalho. Mas quem disse que não vale a pena?
O Ocidente deve ainda à Igreja Católica as
universidades, o Parlamento, os orfanatos, os hospitais, as catedrais, o
restauro e a preservação patrimonial, o desenvolvimento extraordinário da
pintura e da escultura, a comovente música sacra e essa verdadeira Estética de
Deus, a Teologia. Não é pouco, como se vê. E não podemos falar em Humanismo sem
estas conquistas da civilização. Dir-se-ia que a Igreja Católica reuniu em
torno dela, durante séculos a fio, o que o espírito humano produziu de melhor.
Dificilmente, encontramos na História uma instituição que tenha feito tanto
pela Cultura. Para algumas pessoas, o champanhe se inscreve entre essas
produções. Naturalmente, longe de mim discordar delas. Jamais cometeria uma
temeridade dessas.
Recorro a uma igreja parisiense, meio ao
acaso. Igreja de Santo Eustáquio, por exemplo. Ela demonstra a força da
presença católica. Molière, Richelieu e Madame Pompadour foram batizados ali.
Luís XIV fez a sua primeira comunhão nela. E os funerais de Mirabeau e La
Fontaine se desenrolaram nessa igreja. Tem mais: Lizt executou algumas de
suas Missas na igreja de Santo Eustáquio, onde dois outros grandes
artistas foram enterrados, a saber, Corbet e Rameau. Podemos afirmar sem medo
de errar que, na Igreja de Santo Eustáquio, a História ficou de joelhos e
rezou.
E já que fiz referência à História, toda história tem um começo, eu escrevi. Mas esta – é o nosso desejo mais pungente, acreditem – não pode, não deve ter fim. Champanhe é amor em taça. E como todo amor verdadeiro, eterno.
Tintin para Dom Pérignon.
*Ivan Alves Filho, historiador.

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