segunda-feira, 9 de março de 2026

O amor em taça, por Ivan Alves Filho

Toda história tem um começo. E esta também. E ela começa muito longe daqui, há muito, muito tempo. Mais precisamente na França, na localidade de Hautvilliers, em uma abadia do século XII. Foi ali que o monge beneditino Dom Pérignon inventou uma maneira de transformar o vinho nosso de cada dia em uma bebida nova, borbulhante. Nascia assim o champanhe. Há quem veja nesse gesto nada mais nada menos que a interferência divina. Sim, a mão de Deus. É beber para crer.

O Ocidente deve à Igreja Católica algumas de suas conquistas mais refinadas – para nos restringirmos apenas às questões de paladar e olfato. Dos licores aos doces e destes aos defumados. O champanhe seria mais uma delas. Só que Dom Pérignon queria mais do que um vinho espumante e por isso criou também a taça flûte (sob forma de flauta, como seu próprio nome indica, estreita o suficiente para evitar a evaporação e a consequente perda de sabor da bebida). Inspirado, Dom Pérignon foi em frente e descobriu uma rolha capaz de armazenar todas as propriedades do champanhe, acondicionando-o melhor. Não só: inventou ainda um modelo de garrafa, rechonchuda na base e estreita no gargalo. Quer dizer, fez o chamado serviço completo. Precavido, o nosso bom homem de Deus parece ter pensado em todos os pormenores da questão. Ainda bem. Ou melhor: Amém.

Tudo o mais dependeria das condições naturais, uma vez que o champanhe resulta de uma feliz combinação entre calcário e clima temperado. E isso é o que não falta nunca nos arredores de Epernay, Reims e Châlons-du-Champagne, o circuito sagrado da bebida. É preciso não esquecer tampouco a técnica de fermentação dupla que leva ao peculiar borbulhamento do champanhe.

Na primeira fermentação, já ocorre a chamada assemblage ou mistura com outras uvas, provocando o clareamento da bebida. Na segunda, dá-se a remuage ou o delicado chacoalhar diário das garrafas dispostas de cabeça para baixo, em um processo que pode durar até 12 anos. A alta acidez do champanhe tem origem no fato de a uva ser colhida precocemente. Tudo isso está nos antigos manuais e é assim mesmo que se faz. O prazer dá trabalho. Mas quem disse que não vale a pena?

O Ocidente deve ainda à Igreja Católica as universidades, o Parlamento, os orfanatos, os hospitais, as catedrais, o restauro e a preservação patrimonial, o desenvolvimento extraordinário da pintura e da escultura, a comovente música sacra e essa verdadeira Estética de Deus, a Teologia. Não é pouco, como se vê. E não podemos falar em Humanismo sem estas conquistas da civilização. Dir-se-ia que a Igreja Católica reuniu em torno dela, durante séculos a fio, o que o espírito humano produziu de melhor. Dificilmente, encontramos na História uma instituição que tenha feito tanto pela Cultura. Para algumas pessoas, o champanhe se inscreve entre essas produções. Naturalmente, longe de mim discordar delas. Jamais cometeria uma temeridade dessas.

Recorro a uma igreja parisiense, meio ao acaso. Igreja de Santo Eustáquio, por exemplo. Ela demonstra a força da presença católica. Molière, Richelieu e Madame Pompadour foram batizados ali. Luís XIV fez a sua primeira comunhão nela. E os funerais de Mirabeau e La Fontaine se desenrolaram nessa igreja. Tem mais: Lizt executou algumas de suas Missas na igreja de Santo Eustáquio, onde dois outros grandes artistas foram enterrados, a saber, Corbet e Rameau. Podemos afirmar sem medo de errar que, na Igreja de Santo Eustáquio, a História ficou de joelhos e rezou. 

E já que fiz referência à História, toda história tem um começo, eu escrevi. Mas esta – é o nosso desejo mais pungente, acreditem – não pode, não deve ter fim. Champanhe é amor em taça. E como todo amor verdadeiro, eterno.

Tintin para Dom Pérignon. 

*Ivan Alves Filho, historiador.

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