Folha de S. Paulo
Declaração franca do premiê canadense dá a
receita para os tempos presentes
Recado de Mark Carney é simples e acertado:
países têm de denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA
Em Aristóteles havia três tipos de falar
político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade,
a quem se chamava "ironista" (em grego, "εἴρων" ou
"eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o
"εἴρων" ou
"ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade
inteira.
Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "ἀλαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "ἀλαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".
Vocês sabem de quem eu estou falando. Em
2016, Hillary
Clinton era um bom exemplo do primeiro tipo, a política que não diz
tudo e, por isso, parece dissimulada, e Trump o fanfarrão hiperbólico que ao
povo parece refrescante por dizer coisas que não se costumava ouvir da boca de
um político.
Mas como sempre com Aristóteles, é no
terceiro tipo que está a virtude. Essa a da parrésia (em grego:
"παρρησία") ou "falar franco". O substantivo que se usava
para o político que "fala franco" é um palavrão:
"παρρησιαστής", que em latim se transcrevia como
"parrhesiastes". Esse é aquele que não dissimula nem exagera, antes
diz as coisas justas na devida proporção, nada ocultando e não ofuscando, mas
iluminando.
E a partir desta terça (20) sabemos quem
encaixa nesse modelo: o premiê canadense, Mark Carney. Leiam este excerto do
discurso que ele pronunciou em Davos. A citação
é longa, mas vale a pena:
"Sabíamos que a história da ordem
internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se
isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram
aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era
invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da
vítima.
Essa ficção foi útil. E a hegemonia
americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas
seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos
de resolução de disputas.
Por isso, pusemos o letreiro na janela.
Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as
discrepâncias entre a retórica e a realidade.
Este pacto deixou de funcionar."
Sem dissimulação nem fanfarronice, Mark
Carney fala franco ao mundo sobre o novo mundo que aí vem — aliás, que
já está aí. É um mundo em que as grandes potências, e em particular os EUA,
deixaram de fingir ter em mente o interesse comum. Em vez disso, dedicam-se
descaradamente à ameaça, à chantagem e à extorsão.
O que fazer perante esse mundo? A receita de
Carney é simples e acertada: os países médios têm de se proteger trabalhando em
conjunto; devem ter a mesma clareza a
denunciar as pressões, venham da China ou dos
EUA; e devem manter as suas alianças funcionando com as regras do
multilateralismo, sem o poder hegemónico global.
Falou franco. Deveríamos escutar.

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