quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil deve instituir prova para formado exercer a Medicina

Por O Globo

Qualidade sofrível dos cursos, exposta por exame do MEC, põe em risco saúde da população

É alarmante a qualidade dos cursos de Medicina no Brasil, como demonstrou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Parcela considerável dos alunos prestes a terminar o curso não tem conhecimentos mínimos para exercer a profissão. Dos 351 cursos avaliados, 107 ficaram em patamar abaixo do aceitável — menos de 60% dos alunos atingiram nível mínimo de proficiência. Dos 39 mil estudantes perto de se graduar, quase um terço não foi capaz de comprovar deter a formação básica. Em pouco tempo, estarão em postos de saúde, clínicas e hospitais sem qualquer impedimento. Diante de tal realidade, é essencial impor como condição para a prática da Medicina a aprovação numa prova nacional compulsória, em moldes semelhantes aos adotados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para a advocacia.

Por necessidade de suprir a deficiência de médicos, o Brasil ampliou demasiadamente os cursos de Medicina. De 2014 para cá, as vagas mais que dobraram, ultrapassando 50 mil por ano. Impulsionado pela expansão do ensino privado, o aumento contribuiu para aliviar a concentração geográfica. Em 2004, metade das vagas era oferecida nas capitais. Vinte anos depois, eram 35%. Graças à profusão de cursos, o Brasil conta hoje com três médicos por mil habitantes, mais que Japão ou Coreia do Sul. No Sudeste, a densidade está acima da verificada em países ricos. No Sul, fica perto da britânica. No Nordeste, está próxima à da Turquia. É na Região Norte, comparável à Venezuela destroçada pelo chavismo, que a escassez mais se manifesta. Para complicar, o Enamed deixou claro que quantidade não se traduz em qualidade.

As universidades particulares chegaram a acionar a Justiça para impedir a divulgação dos resultados do Enamed e agora questionam a nota de corte. O MEC reconheceu “inconsistências” em dados anteriores, mas diz que os resultados divulgados estão corretos. E as faculdades deveriam ser as primeiras a querer zelar pela qualidade do ensino.

A demanda por Medicina continua a ser a mais alta dos vestibulares, e o preço dos cursos privados mostra que não faltam recursos para investir na melhoria do ensino, via recursos humanos ou digitais. A aplicação da Inteligência Artificial (IA) na área é promissora. No ano passado, pela primeira vez acertou 100% do exame exigido para praticar Medicina nos Estados Unidos. Em breve, deverá ser ferramenta indispensável em diagnósticos — e também na formação de melhores profissionais.

Para disciplinar as faculdades problemáticas, o MEC promete instaurar processos administrativos de supervisão e adotar sanções, como proibição de ampliar vagas ou até suspensão do vestibular e dos financiamentos pelo Fies. A situação, porém, exige mais. O Congresso precisa com urgência aprovar a criação de uma prova nacional compulsória para recém-formados poderem exercer a profissão. É o que acontece em países como Estados Unidos ou Alemanha. A ideia decerto deverá enfrentar resistência, além de trazer desafios. O que fazer com os médicos que já exercem a profissão? A partir de que momento os resultados devem ser exigidos para emissão do registro nos conselhos regionais de Medicina? O mais importante na tramitação da proposta é evitar que seja desfigurada pelos beneficiados com os cursos que formam médicos despreparados. As faculdades expostas pelo Enamed põem em risco a saúde da população.

É inaceitável desvio de armamento da polícia e do Exército para o tráfico

O Globo

Operação nos complexos da Penha e do Alemão descobriu munição e fuzil desviados em poder dos traficantes

É estarrecedor que armas e munições continuem a ser desviadas da polícia e das Forças Armadas para traficantes. Investigações a partir de cartuchos apreendidos em operação nos complexos da Penha e do Alemão comprovaram lotes desviados de diversas polícias estaduais e também do Exército, como revelou reportagem do GLOBO. A operação chegou a apreender um fuzil da PM desaparecido havia 15 anos de um batalhão local. A história recorrente de armamento desviado para o tráfico revela um misto de desleixo e indícios graves de corrupção. Em todo o Brasil há envolvidos no abastecimento do arsenal do Comando Vermelho em seu quartel-general.

Em junho de 2019, PMs interceptaram em Santa Maria, Distrito Federal, um carregamento destinado ao Complexo da Penha. Estava num carro que vinha de Cuiabá. Eram mil projéteis para fuzis. Havia munição das polícias de Rio de Janeiro, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e até do Exército. Quatro projéteis eram de um lote comprado pelo Exército identificado nos cartuchos da maior chacina realizada em São Paulo, em agosto de 2015. O combinado era levar o carregamento para a rodoviária ou, caso ninguém aparecesse, procurar o chefe do tráfico no Complexo da Penha (até hoje foragido). Em junho de 2018, um casal foi preso ao chegar ao Rio de carro, transportando 1.390 balas para fuzil, oriundas de lotes do Exército. A Polícia Civil informou que a munição também seria entregue no Complexo da Penha.

Na ocasião, a Polícia Civil do DF abriu inquérito para apurar o desvio da munição. Identificou mensagens trocadas entre criminosos e um sargento do Corpo de Bombeiros, na época lotado no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República. Ele admitiu ter “cedido gratuitamente” 12 caixas de munição a outro envolvido no esquema. Chegou a ser preso, mas foi absolvido. O Exército também fez sua investigação. Todos os acusados foram absolvidos pela Justiça Militar. Preso mesmo, só o casal apanhado com a munição, que recebeu pena de dez anos.

Tais investigações só foram possíveis porque, a partir do Estatuto do Desarmamento de 2003, passou a haver a obrigatoriedade de identificar munições destinadas às forças de segurança. Mesmo assim, as regras são falhas. Os lotes são amplos demais, impossibilitando o rastreamento preciso no caso de crimes. Tecnologicamente, seria viável cada munição ter um identificador único.

Falta também compreensão das autoridades — em especial da Justiça — para a gravidade das conexões subterrâneas de policiais e militares corruptos com o crime organizado. Por princípio, as instalações militares devem ter padrões máximos de segurança. Não tem cabimento que tolerem desvios de armamento. É inaceitável que munição ou armas do Estado sejam usados contra a população que deveriam defender.

Números do feminicídio

Por Folha de S. Paulo

Assassinatos de mulheres em razão do gênero batem novo recorde em 2025; crifas devem aprimorar políticas

O aumento dos casos catalogados sugere, na hipótese mais branda, que o feminicídio estava ou está subestimado nas estatísticas

Em 2025, quatro mulheres foram assassinadas por dia no país em razão de sua condição de gênero, de acordo com os registros policiais. Este dado, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, atesta um novo recorde de feminicídios.

Ao que se sabe, 1.470 mulheres foram mortas em contextos de violência doméstica e familiar ou por misoginia. O número final tende a ser ainda maior, porque quatro estados, entre eles São Paulo, não enviaram os dados referentes a dezembro.

A série histórica desse tipo de crime no Brasil, que não chega a ser longa, é invariavelmente ascendente. A cifra do ano passado é a maior em uma década, 0,41% acima da registrada em 2024.

Em boa parte, a estatística reflete o enquadramento legal do feminicídio, que não era tipificado antes de 2015. Apenas em 2024, o crime passou a ser autônomo, com penas entre 20 a 40 anos de prisão (chegando a 60, quando há agravantes), deixando de ser uma qualificadora do crime de homicídio.

Parece plausível, pois, que as autoridades venham passando a registrar mais dessa forma crimes que antes seriam classificados como homicídios de mulheres não motivados pela condição de gênero —estes mostram tendência de queda entre 2013 e 2023, segundo os dados mais atualizados do Atlas da Violência, publicado pelo Ipea, instituto de pesquisas do Executivo federal.

É salutar, para a formulação de políticas públicas, que a violência contra a mulher seja cada vez mais identificada em dimensões precisas. O aumento dos casos catalogados como feminicídio sugere, na hipótese mais branda, que o crime estava ou está subestimado nas estatísticas.

A tendência se verifica em diferentes regiões do país. Os feminicídios subiram em 15 estados de 2024 para 2025, com queda em 11. As maiores taxas percentuais de alta se concentram nas regiões Norte e Nordeste.

As cifras, ao lado de episódios recentes de grande repercussão, tornaram o tema motivo de pressão sobre governantes de orientações distintas como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).Espera-se que a resposta não se limite a providências midiáticas, como aumentos de penas e operações policiais espetaculosas.

Os primeiros são sabidamente pouco eficazes —a melhor maneira de dissuasão do crime é a certeza da punição, não o número de anos de cadeia. As segundas não deixam de ser importantes, mas não dão conta da complexidade do fenômeno.

Políticas corretas precisam integrar ações de prevenção, de aprimoramento do sistema de Justiça e investigação, além do fortalecimento de redes de apoio e assistência social a mulheres. No mais, o aperfeiçoamento das estatísticas deve permitir diagnósticos mais precisos sobre causas e evolução do crime —ao qual não se limita a violência diária contra as mulheres.

Saúde em risco com má formação de médicos

Por Folha de S. Paulo

Exame mostra que, em um terço dos cursos no país, menos de 60% dos formandos têm proficiência mínima

Alta acelerada de vagas no setor na última década não foi acompanhada por qualidade nem ajudou a reduzir acesso desigual à saúde no país

Os dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgados pelo Ministério da Educação na segunda (19), mostram que a preocupação de especialistas em relação à expansão indiscriminada de cursos de medicina tem razão de ser.

Dos 351 cursos de universidades federais, privadas, estaduais e municipais que participaram da prova em outubro, 107 (30,5%) tiveram desempenho insuficiente (notas 1 e 2); dos 304 regulados pelo MEC (instituições federais e privadas), também um terço (99) obteve resultado insatisfatório.

Numa escala de 1 a 5, os conceitos 1 e 2 indicam cursos em que menos de 60% dos formandos alcançaram proficiência mínima.

A situação é mais grave nas instituições municipais: 37,5% tiraram nota 1, e 50%, nota 2. Em seguida, vêm as privadas com fins lucrativos (11,5% e 46,9%, respectivamente). Mas quase 30 mil estudantes estão nas particulares, ante 944 em municipais.

Já as estaduais alcançaram a maior porcentagem com conceito 5 (46,2%), além de 38,5% com 4. Nas federais, foram 25,3% com nota máxima e 61,3% com 4.

Como é a primeira edição do exame, o MEC aplicará punições gradativas, que valerão até a próxima prova. Os cursos com conceito 1 e 2 podem ser proibidos de aumentar vagas, de formalizar financiamento por meio do Fies e do Prouni, ter número de vagas reduzidas ou ingresso suspenso e, no futuro, até ser desativados. As instituições têm prazo de 30 dias para apresentar defesa.

O Enamed foi uma resposta do governo a um projeto de lei, em tramitação no Congresso, que pretende criar uma avaliação específica —como a aplicada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)— vinculada não ao MEC, mas ao Conselho Federal de Medicina, que apoia a proposta.

O resultado do exame sinaliza riscos à saúde pública, mas o problema é complexo e, portanto, exige atuação em várias frentes.

Especialistas apontam que os dois exames, do MEC e do CFM, poderiam coexistir, mas que só avaliação teórica é insuficiente. Além de melhorar a formação, é preciso aumentar a participação dos egressos em residência médica, ainda mais considerando a expansão acelerada de cursos.

De 2012 a 2023, segundo o Censo da Educação Superior, as vagas em cursos privados de medicina passaram de 10.217 a 46.152. Como mostra o Enamed, porém, tal quantidade não foi acompanhada por qualidade, nem ampliou acesso num país permeado por desigualdades —a cobertura de médicos no Distrito Federal, por exemplo, é cinco vezes a do Pará.

A Europa precisa enfrentar Trump

Por O Estado de S. Paulo

Se não for contido no caso da Groenlândia, o presidente americano fragilizará a Otan, dará a Rússia e China exatamente o que desejam e deixará o mundo muito mais inseguro

Não há nada de intrinsecamente ilegítimo em discutir os interesses estratégicos dos Estados Unidos na Groenlândia. A ilha ocupa posição central no Ártico, abriga infraestrutura militar sensível e tende a ganhar relevância com a abertura gradual de novas rotas marítimas e a disputa por recursos críticos. O problema não está tanto no objeto da ambição americana, mas no método escolhido para persegui-la. Ao recorrer à retórica da coerção – tarifas punitivas, ameaças veladas e insinuações de força contra aliados democráticos –, o presidente Donald Trump rompe um tabu que sustentou a estabilidade atlântica por décadas.

A anexação não é necessária para atender a nenhuma das alegadas preocupações de Washington. Desde o Acordo de Defesa de 1951, os Estados Unidos dispõem de amplos direitos militares na Groenlândia, incluindo bases, radares e presença permanente. Nada impediria a ampliação dessa cooperação, nem no plano militar nem no econômico. A Dinamarca e o próprio governo groenlandês já deixaram claro que estariam dispostos a negociar maior presença americana, investimentos, exploração mineral ou novas instalações estratégicas. A soberania formal, portanto, não é um requisito funcional. É um símbolo.

É justamente aí que a narrativa de “segurança estratégica” desmorona. A infraestrutura mineral da Groenlândia é incipiente, os custos são elevados, e os prazos, longos. A militarização adicional do Ártico poderia ser obtida por meios cooperativos. Ainda assim, a Casa Branca insiste que nada basta aquém da posse territorial. A explicação mais plausível não é estratégica, mas política: além de uma manobra diversionista para deixar os malogros domésticos em segundo plano, trata-se da busca por um gesto de força, um marco de legado, a afirmação de uma lógica em que o poder se mede pela capacidade de impor vontades, não de construir acordos.

Esse desvirtuamento não ocorre no vácuo. Ele se insere numa visão mais ampla de um mundo dividido em esferas de influência, na qual compromissos, tratados e alianças são instrumentos táticos, não vínculos duráveis. Aplicada à Groenlândia, essa lógica produz um efeito corrosivo sobre a Aliança Atlântica. Pela primeira vez desde a criação da Otan após a 2.ª Guerra, aliados se veem compelidos a discutir dissuasão simbólica contra os próprios Estados Unidos. A confiança – ativo invisível, mas essencial – se deteriora a olhos vistos. E quando a confiança é desintegrada, os custos se multiplicam em cadeia: na coesão política, na previsibilidade estratégica, na credibilidade financeira.

A resposta europeia, por isso, não pode ser nem submissa nem impulsiva. Ceder à chantagem seria desastroso: consolidaria o princípio de que a força faz o direito, convidando novas pressões no futuro. Mas escalar sem cálculo apenas aprofundaria a fratura. Há um caminho intermediário: firmeza institucional, coordenação entre aliados e uso inteligente dos freios disponíveis dentro do próprio sistema americano. O Congresso dos EUA, a opinião pública e a tradição jurídica do país ainda podem funcionar como contrapesos reais. Ao mesmo tempo, uma presença europeia moderada no Ártico e a manutenção de canais diplomáticos sérios podem criar espaço para uma saída negociada.

Um acordo que reforce a segurança do Ártico, amplie a cooperação militar e preserve a soberania dinamarquesa permitiria a Trump declarar vitória sem destruir a aliança que os Estados Unidos levaram décadas para construir. A alternativa – a normalização da coerção entre aliados – teria custos muito mais amplos. Rússia e China observam atentamente. Ambas ganham quando o pilar central da ordem liberal passa a agir como seu principal fator de instabilidade.

A Groenlândia é pequena. O precedente, não. Ao tratar aliados como obstáculos e regras como inconvenientes, Trump acredita colocar a América “em primeiro lugar”. Na prática, acelera a transição para um mundo menos previsível e muito mais perigoso. Por esse motivo, a Europa precisa reagir a Trump, estabelecendo um limite para a sua irresponsabilidade.

A granada mudou de bolso

Por O Estado de S. Paulo

Sem qualquer estimativa de custo, Congresso aprova e governo Lula sanciona lei que autoriza pagamento retroativo de benefícios congelados durante a pandemia de covid-19 a servidores públicos

Em pleno ano eleitoral, o governo Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei complementar que autoriza o pagamento retroativo, a servidores públicos, de benefícios que haviam sido congelados durante a pandemia de covid-19. A proposta alcança adicionais como quinquênio, triênio e anuênio, sexta-parte e licença-prêmio. Ainda permite que o período entre 28 de maio de 2020 e 31 de dezembro de 2021, durante o qual vigorou o estado de calamidade pública, seja contabilizado para fins de aferição de adicionais por tempo de serviço.

A lei vale para servidores da União, Estados e municípios, mas pesará, sobretudo, sobre as contas dos dois últimos entes federativos, haja vista que o Executivo federal extinguiu os mecanismos que garantiam progressão automática de carreira com base na duração do vínculo do servidor ao cargo público.

Não houve um único relatório que estimasse o quanto isso custará aos entes federativos, mas isso não impediu que a proposta fosse aprovada por ampla maioria na Câmara, em agosto, e no Senado, em dezembro, convenientemente na última semana de votações do ano.

A desculpa para esse desmazelo foi o caráter autorizativo da proposta. Não há obrigação para que o pagamento seja realizado, mas apenas anuência para que isso seja feito caso haja interesse de governadores e prefeitos, bem como leis próprias e disponibilidade orçamentária.

Mas, a meses das próximas eleições, talvez apenas os incautos que ainda acreditam na possibilidade de o Congresso aprovar a reforma administrativa neste ano tenham dúvidas sobre o esforço que governadores e prefeitos farão para assegurar o pagamento retroativo aos servidores.

O congelamento dos benefícios foi uma contrapartida do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro ao repasse de recursos extras para o enfrentamento do coronavírus por Estados e municípios, cujas contas foram abaladas pela queda da arrecadação, consequência da redução da atividade econômica durante a emergência sanitária.

À época, governadores e prefeitos receberam R$ 60 bilhões. O veto aos reajustes e benefícios era uma tentativa de garantir que o dinheiro não se perdesse em despesas com pessoal, de caráter obrigatório, e fosse utilizado em ações de apoio à saúde e assistência social. Foi uma das poucas vezes em que Bolsonaro privilegiou a opinião da equipe econômica em detrimento dos conselhos da ala política de seu governo.

O então ministro da Economia, Paulo Guedes, jactou-se da vitória durante a fatídica reunião ministerial conduzida por Bolsonaro em abril de 2020, e a comparou ao ato de colocar “uma granada no bolso do inimigo”. Ainda naquele ano, a então deputada e atual senadora Professora Dorinha (União-TO) apresentou uma proposta para impedir que os efeitos da lei fossem aplicados ao magistério.

Entre idas e vindas, a restrição foi derrubada para servidores das áreas de saúde e segurança em 2022, enquanto o projeto, que valia apenas para professores, passou a abarcar todas as carreiras públicas. Em agosto, apenas a líder do Novo, deputada Adriana Ventura (SP), manifestou preocupação com o passivo que a proposta poderia gerar.

No Senado, por sua vez, coube ao senador Oriovisto Guimarães (PSDB-PR) fazer as perguntas que seus colegas deveriam ter feito antes de aprovar a medida. “Não que não sejam justas, não que os funcionários não mereçam, eles merecem. Mas a questão não é merecer; a questão é: o Estado pode? O Estado tem condições? Se é para fazer tudo o que as pessoas merecem, é preciso ter um Estado muito rico, e nós não temos esse Estado muito rico. Esse é o problema central”, afirmou.

Contabilizado em caráter retroativo, o tempo de serviço dos funcionários públicos aumentaria em 583 dias. Os sindicatos já começaram a mobilizar suas bases, e advogados trabalhistas preveem uma enxurrada de ações judiciais para reconhecer o direito das categorias e eventualmente beneficiar até mesmo inativos.

Como no País até o passado é incerto, a granada a que Guedes fez referência está agora no bolso dos governadores e prefeitos. Mas a conta ainda pode sobrar para a União, a quem cabe, em última instância, socorrer entes federativos em dificuldades financeiras. Não terá sido por falta de aviso.

Avanços no Bilhete Único

Por O Estado de S. Paulo

Incorporação do cartão de transporte a carteiras digitais é medida que deve ser ampliada

Uma parceria entre a Prodam, empresa de tecnologia da Prefeitura de São Paulo, e o Google permitirá aos usuários dos ônibus municipais incorporar o Bilhete Único ao aplicativo de pagamentos Google Wallet. Na prática, os usuários de celular Android poderão pagar a passagem de ônibus na capital paulista por meio do celular. Não haverá custo extra para utilizar o aplicativo nem para comprar a passagem pela plataforma.

Além de pagar a tarifa aproximando o celular do validador da catraca de ônibus, os usuários também poderão recarregar o bilhete, solicitar um novo cartão digital ou até emitir o documento pela primeira vez.

Extremamente bem-vinda, a medida é potencialmente a maior atualização do Bilhete Único desde que o cartão de transporte foi criado, em 2004, na gestão da prefeita Marta Suplicy.

A Prefeitura espera, ainda, que a parceria ajude a reduzir fraudes no uso do Bilhete Único. Outro aspecto positivo seria a ampliação do acesso de turistas e passageiros esporádicos ao transporte público paulistano. Em grandes centros urbanos do mundo, como Nova York, e também em capitais brasileiras, como o Rio de Janeiro, o pagamento de passagens de transporte já é feito também por meio digital. Logo, faz todo sentido que uma metrópole tão movimentada quanto São Paulo finalmente adeque seu transporte público às práticas mais modernas de pagamento já vigentes no mundo.

Na terra do Pix, tecnologia que não só caiu no gosto dos brasileiros, como também inspira outros países, não faz sentido que os cidadãos da maior cidade do País ainda percam tempo precioso em filas para adquirir ou recarregar seus cartões de transporte.

Apesar de todos os aspectos positivos do acordo entre o Google e a Prefeitura, a incorporação do Bilhete Único ao aplicativo Google Wallet ainda não tem data definida. A expectativa é de que isso ocorra até o fim deste ano. Será necessário integrar o Google Wallet com a empresa que produz os cartões físicos com chip e com a companhia responsável pelo sistema da catraca.

Também é desejável que se busquem acordos semelhantes com outras empresas. Embora celulares com sistema Android tenham participação de mercado de cerca de 80% no Brasil, quanto mais ampla for a gama de opções de pagamentos digitais, melhor.

Por ora, também não está definido se o pagamento por aproximação funcionará nas catracas do Metrô e nas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que são de responsabilidade do governo estadual.

Tanto as composições do Metrô quanto as da CPTM são modais amplamente utilizados pela população paulistana e também por turistas. Adaptá-las à nova realidade dos pagamentos digitais também é do interesse da população.

Símbolo da capital paulista, o Bilhete Único é exemplo de política pública efetiva, que promove o uso do transporte público e beneficia a população. Nesse sentido, adaptá-lo aos novos tempos, tornando-o ainda mais prático e funcional, é extremamente necessário.

Tensões comerciais e IA trazem riscos para economia global

Por Valor Econômico

A IA é uma promessa de avanço econômico, mas também um dos principais pontos de preocupação para o futuro da economia global

A economia mundial resistiu relativamente bem à primeira onda do choque tarifário dado pelo presidente Donald Trump, embora os riscos de agravamento das tensões comerciais se mantenham como um dos dois maiores listados pelo Fundo Monetário Internacional na atualização do seu “Perspectiva Econômica Mundial” — o outro é a mudança de expectativas sobre a Inteligência Artificial (IA). A adaptação ao novo mundo de tarifas fez o FMI elevar o crescimento da economia global para 3,3%, 0,2 ponto percentual maior do que projetara em outubro. O Fundo prevê expansão de apenas 1,6% do PIB brasileiro, em decorrência da política monetária contracionista aplicada desde setembro de 2024.

As premissas do Fundo, que concluiu seu relatório no fim de 2025, começaram a ser postas em questão pela realidade já ao raiar do novo ano, quando os EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela, ameaçando apoderar-se do petróleo do país, e, poucos dias depois, mostraram a intenção de se apossar da Groenlândia. O FMI menciona a “estabilização das tensões comerciais” como um dos fatores para a revisão das perspectivas, mas a disposição de Trump de taxar os países europeus contrários à ideia de apossar-se da Groenlândia com 10% a partir de fevereiro e 25% em junho, além da possibilidade de retaliação europeia, não se coadunam com essa expectativa.

Uma série de fatores, além da aparentemente curta trégua nas disputas comerciais, entrou em cena para aparar os efeitos das tarifas americanas. As políticas fiscais têm sido mais expansionistas que o esperado, em especial nos países desenvolvidos, e as condições financeiras se mostraram mais favoráveis ao crescimento. Além disso, foram determinantes para isso os enormes investimentos em IA nos Estados Unidos, com reflexos importantes nas economias do Sudeste Asiático.

Segundo o FMI, os investimentos atuais em tecnologia da informação atingiram a maior proporção em relação ao PIB desde 2001, época de explosão das empresas pontocom. Nos três primeiros trimestres de 2025, gastos em TI elevaram em 0,3 ponto percentual o PIB americano (de 4,3% no terceiro trimestre de 2025), eliminando o efeito negativo sobre a atividade econômica da maior paralisação dos serviços públicos dos Estados Unidos.

A IA é uma promessa de avanço econômico, mas também um dos principais pontos de preocupação para o futuro da economia global. Segundo a consultoria Gartner, os investimentos em IA atingiram US$ 1,75 trilhão no ano passado e chegarão a US$ 2,52 trilhões em 2026 (Valor, ontem). Esses investimentos colossais, antes feitos com receitas próprias e de capitalização das Big Techs, passaram a ser realizados também com dívidas e alavancagem. O aumento das apostas elevou também a percepção de risco de frustração dos resultados que a tecnologia pode proporcionar às empresas.

O FMI, no entanto, vê menor ameaça na evolução acionária das empresas envolvidas com IA em comparação com o das empresas pontocom do início do século. Ainda que seu peso no PIB seja igual nos dois casos, a evolução da IA tem sido mais gradual. A valorização de mercado foi semelhante nos dois casos, mas a relação preço-lucro das ações é bem menor agora, devido aos fortes lucros das empresas de TI, argumentam Pierre-Olivier Gourrinchas e Tobias Adrian, diretores do FMI. Isso não significa, no entanto, que mudanças de expectativa em relação aos ganhos na tecnologia não possam provocar enormes estragos na economia global.

Boa parte das empresas de IA não está listada em bolsa e recorre basicamente ao endividamento para se financiar. Depois, no caso das bolsas, há anos seguidos que as ações de TI, com a promessa da IA, vêm sustentando as altas, a ponto de que a capitalização de mercado total é de 226% do PIB. Como a aplicação em ações é disseminada nos EUA, uma correção mesmo que modesta no rumo dessas ações teria efeitos importantes para retrair o consumo, afirmam os diretores do FMI. O declínio abrupto de investimentos no setor, com queda de ações, teria efeitos fortes nos EUA e no Sudeste Asiático, deprimindo o crescimento em geral, com aperto das condições financeiras atingindo os mercados emergentes.

Se nada disso ocorrer, o avanço da IA é capaz de sustentar grande crescimento da produtividade ao longo dos próximos anos. Estudo apresentado pelo Fórum Econômico Mundial em Davos indica que as empresas que adotaram mais cedo a IA em suas cadeias de suprimento obtiveram redução de 15% nos custos logísticos e de 35% nos estoques, com economia de 25% do tempo total do processo.

Para os empresários globais reunidos nos Alpes suíços, no entanto, as tensões comerciais vieram para ficar e tornaram as cadeias de produção estruturalmente instáveis, “mais fragmentadas e, em vários casos, mais degradadas do que os líderes globais experimentaram nas últimas quatro décadas”.

Os riscos apontados pelo cenário do Fundo persistirão ao longo do tempo, com as tensões comerciais agindo para reprimir o crescimento e as ameaças de fragilidade financeira da sustentação da IA se estendendo no tempo, até que ela corresponda na prática às expectativas que criou.

Crise da Groenlândia evidencia fraturas do multilateralismo

Por Correio Braziliense

A disputa pela Groenlândia deixou de ser uma questão bilateral para se tornar o teste definitivo da resiliência das instituições multilaterais

A crise diplomática em torno da Groenlândia, que até recentemente poderia ser interpretada por observadores otimistas como uma tática agressiva de negociação comercial, assumiu contornos de ruptura institucional irreversível nos últimos dias. A exposição das mensagens enviadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, ao mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, escancarou as tensões transatlânticas. Afinal, o republicano não se deu ao trabalho de responder. Resolveu colocar na sua rede social, nesta terça-feira, o apelo de Macron pelo diálogo sobre a soberania do território europeu. 

Ao abrir para o mundo a tentativa de Macron, Trump ainda retirou as cortinas dos bastidores do poder atual. Não existem conversas organizadas, tratamentos engenhosos ou nada do tipo. Apenas ausência de diálogo e ameaças. Ainda na tentativa de aumentar a pressão sobre a França, o presidente estadunidense sugeriu impor uma tarifa de 200% sobre as exportações de vinho e champanhe franceses para os EUA. Nesse caso, em razão da recusa de Macron em participar do Conselho da Paz em Gaza. Em resposta, o francês disse que prefere "o Estado de Direito à brutalidade".

Diante da situação, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, alertou que "o pior está por vir". Não é fatalismo, mas, sim, um diagnóstico realista de quem compreendeu a natureza da ameaça. Ao reiterar ser "impossível negociar valores fundamentais" com Washington, Frederiksen traçou uma linha vermelha que a Europa, até então, hesitava em desenhar. A soberania, o direito internacional e a lealdade entre aliados não são mercadorias sujeitas à flutuação cambial ou a tarifas punitivas.

Nesse tabuleiro de xadrez cada vez mais perigoso, a contraofensiva de Copenhague carrega uma ironia trágica e uma astúcia estratégica. A proposta dinamarquesa de instalar uma presença permanente de tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Ártico expõe o paradoxo existencial da aliança: o pedido de socorro militar visa proteger um membro da Otan não de uma ameaça russa ou chinesa, mas das ambições do próprio país que lidera o bloco.

Se tal medida for adiante, a Otan se verá diante de um dilema. Tropas europeias seriam mobilizadas para garantir que a bandeira de um aliado não seja cravada por força de coerção econômica do outro — como o perfil oficial da Casa Branca sugeriu em publicação recente. É o cenário de pesadelo que nenhum estrategista da Guerra Fria ousaria prever.

A exposição da mensagem privada enviada por Macron a Trump serve, portanto, como o catalisador de uma desconfiança que vinha sendo represada. Se a Casa Branca está disposta a atropelar aliados históricos em nome de uma visão transacional da geopolítica, o conceito de "Ocidente" como uma comunidade de valores democráticos corre o risco de dissolução.

O momento exige frieza e cálculos das chancelarias europeias — e do Itamaraty, por consequência. A disputa pela Groenlândia deixou de ser uma questão bilateral para se tornar o teste definitivo da resiliência das instituições multilaterais. Como bem alertou a premiê dinamarquesa, o pior cenário não é mais uma hipótese distante. É imperativo que a prudência prevaleça sobre a ambição, para evitarmos um mundo em que a força bruta volte a ditar as regras.

Cursos de medicina mal avaliados serão punidos

Por O Povo (CE)

O relevante é que o tema está sendo debatido e o MEC tem implementado medidas positivas, como maior fiscalização e punições aos cursos que obtiverem notas insuficientes

O resultado da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) mostrou uma situação preocupante dos cursos de medicina no Brasil. Foram avaliadas 351 instituições públicas e privadas. Dos cursos participantes em todo o Brasil, 30% tiveram desempenho considerado insatisfatório pelo Ministério da Educação (MEC), a maioria de faculdades particulares. É preciso dar destaque a esse dado, pois o maior número de formandos atualmente é oriundo de faculdades privadas.

Segundo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado na página da Associação Paulista de Medicina, das 494 escolas médicas do País (2025), com 50.974 vagas anuais de graduação, 80% dos estudantes estão em instituições privadas.

O levantamento também mostrou uma nova fase de expansão do ensino médico. De acordo com a FMUSP, entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o MEC autorizou 77 novos cursos de Medicina. O estudo avalia que o Enamed é parte do esforço para assegurar a qualidade dos cursos de formação de futuros médicos.

É preciso ressaltar que não se trata de desconsiderar o papel importante desempenhado pelas faculdades privadas, mas de preservar aquelas que oferecem ensino de qualidade e obrigar a evoluir aquelas que tiraram notas baixas. São muitas as instituições privadas que conseguem administrar o empreendimento educacional, sem descuidar da preparação de seus alunos e dos interesses da sociedade, que precisa de profissionais bem formados, em área tão sensível, que cuida da saúde e da vida das pessoas.

No Ceará, nove cursos participaram do exame, sendo que três deles obtiveram nota 5 (máxima); três (nota 4); duas (nota 3) e uma (nota 2).

Existe outra proposta, de iniciativa do Senado, já aprovada na Comissão de Assuntos Sociais, que visa criar o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed), que ficou conhecido como "OAB da Medicina". Seria exigência de uma prova obrigatória para médicos recém-formados receberem o registro profissional. Para o ministro Camilo Santana, o Enamed já cumpre esse papel, juntamente com mais rigor no monitoramento dos cursos, inclusive com visitas presenciais.

As sanções, conforme as notas obtidas, podem incluir redução de vagas de ingresso (nota 2), chegando à suspensão do curso (nota 1). Os conceitos 1 e 2 ainda terão suspendidos os contratos de financiamento estudantil (Fies) e o de bolsas (Prouni). Caso não haja melhora ou as medidas exigidas pelo MEC não forem cumpridas, os cursos poderão ser extintos.

O relevante é que o tema está sendo debatido e o MEC tem implementado medidas positivas, como maior fiscalização e punições aos cursos que obtiverem notas insuficientes.

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