quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Ninguém pode, nem tenta, deter Trump. Por Vera Magalhães

O Globo

É estarrecedora a letargia completa das instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo

A cada dia com ao menos uma nova e grave arbitrariedade de Donald Trump, doméstica ou além-fronteiras, cresce uma dúvida tão básica quanto perturbadora: nenhuma instituição ou país será capaz de detê-lo? Há meses já não é exagero temer pela implosão não só da democracia americana, mas de todos os complexos mecanismos que configuraram a ordem mundial desde o Pós-Guerra, e, ainda assim, não se forma uma coalizão capaz de minimamente representar um freio à escalada.

O capítulo da semana é a inacreditável crise pelo controle da Groenlândia, que parece coisa de jogo de tabuleiro de criança, mas é séria. Trump reavivou sua antiga obsessão por adquirir o território, pertencente à Dinamarca, com desculpas para lá de delirantes. A ofensiva veio, uma vez mais, acompanhada de ameaças tarifárias contra os aliados da Europa, que, por sua vez, ditaram o anúncio de retaliações — dinâmica que vai se reproduzindo em relação a vários países e blocos e mina qualquer previsibilidade nas relações geopolíticas e comerciais.

No plano interno americano, Trump também intensificou ataques a líderes democratas e medidas de força, com um Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) cada vez mais fora de controle tocando o terror em todo o país. Em novembro, depois de um grupo de seis congressistas democratas exortar membros das Forças Armadas e da inteligência a “recusar ordens ilegais”, Trump os acusou de sedição e chegou a sugerir que poderiam ser punidos severamente, até com a morte, para logo em seguida tentar minimizar a declaração.

É o tipo de conduta padrão dos candidatos a autocrata: testar os limites dia a dia em várias frentes, fingir recuos quando a coisa foge um pouco ao controle para, logo em seguida, lançar nova ofensiva tentando minar os mecanismos de contenção domésticos e internacionais (estes cada vez mais desmoralizados).

O fato de que não ter sofrido nenhuma derrota relevante até aqui na execução rápida e sem disfarces desse desmonte é uma resposta clara e assustadora à pergunta inicial: não, a democracia americana, estudada e propalada ao longo dos séculos como modelo para o resto do mundo, não se mostra aparelhada para lidar com um líder que voltou disposto a não ser contido como foi, por pouco, da primeira vez.

É estarrecedora a letargia completa das instituições que, pela Constituição, teriam a obrigação de contê-lo, do Congresso à Suprema Corte, passando pelas agências, cada vez mais dizimadas pela política de terra arrasada e pela perseguição a servidores de Estado. A imprensa se divide entre perplexa, alarmada e condescendente, a depender do veículo, mas não é, até aqui, um ator capaz de retardar seu avanço.

No eleitorado, apesar da rejeição crescente a Trump, resiste a ambivalência. Pesquisas apontam que a maioria dos americanos se opõe à ideia de intervenções expansionistas e desaprova táticas violentas de agentes federais. Mas permanecem as bolhas de apoio incondicional ao republicano, num sinal de que o apreço à democracia como valor inegociável é cada vez menor.

Já não se trata, portanto, de repetir a pergunta com que abri este texto. Está claro que o estamento político e legal americano não é capaz de evitar que Trump lance os Estados Unidos a um caminho sem volta rumo à ruptura de suas principais alianças externas e a um embate direto com outras potências ou blocos.

Seu segundo mandato evidencia que não basta haver eleições periódicas e separação formal de Poderes se esses mecanismos podem ser contornados ou subvertidos. Isso só se resolve com uma reforma urgente e profunda, com que não só democratas, mas também republicanos precisam se comprometer imediatamente. Se nem a maior potência democrática está imune a um presidente que redefine o uso do poder demonstrando pouca preocupação com limites legais ou morais, não se tem no horizonte a perspectiva de estabilidade ou paz mundial.

 

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