O Globo
Desafio de 2026 exige a coragem de
transformar o sonho solitário do ‘eu, CEO’ na esperança coletiva de um ‘nós,
nação’
O Brasil chega a 2026 com um paradoxo
escancarado. A economia não quebrou, o desemprego caiu, mas o país segue
emocionalmente exausto. Tristeza, cansaço e medo viraram sentimentos políticos
dominantes. Não é crise de número. É crise de sentido.
João roda de aplicativo. Maria vive de Pix. Lucas vende promessa digital. São personagens diferentes, mas presos ao mesmo enredo: o corre solitário. Cada um tentando vencer sozinho num país que parou de oferecer chão coletivo. João acredita que o Estado só atrapalha. Maria sonha em “estourar” nas redes. Lucas vende mindset como salvação individual. Nenhum deles é ignorante. Todos tentam sobreviver e sonhar dentro das regras que existem.
É aí que mora o coração do problema brasileiro.
Tenho conversado muito com minha amiga Rosane Pinheiro-Machado sobre esses
temas — raiva, ressentimento, frustração acumulada — e como eles vêm sendo
organizados politicamente. Mais que escolher um presidente em 2026, o país
decidirá quem consegue explicar melhor a vida real. A política virou disputa de
narrativa.
Os campos extremistas entenderam isso antes.
Eles não falam de planilha; falam de raiva, pertencimento e identidade.
Oferecem culpados claros, promessas simples e a sensação de controle num mundo
instável. Os liberais progressistas, na maior parte das vezes, respondem mal.
Falam difícil, falam defensivo, falam como se estivessem certos por princípio.
Mas comunicação política hoje não é só verdade factual. É tradução emocional do
futuro. Quando a democracia não explica o amanhã, alguém explica. E quase
sempre explica errado.
Reduzir tudo à desinformação é confortável,
mas insuficiente. A mentira circula porque encontra terreno fértil:
informalidade, endividamento, medo de cair, ausência de proteção social. Fake
news é só a embalagem. O conteúdo é uma vida sem previsibilidade. Enquanto
milhões trabalham sem direitos, o discurso do “se vira” parece mais honesto que
promessas abstratas de bem-estar coletivo.
O Estado precisa reaparecer não como tutor
moral, mas como infraestrutura de estabilidade. Para João e Maria, isso
significa regra clara, renda menos volátil, proteção no trabalho digital,
serviços públicos que funcionem no território e segurança que respeite. Para
Lucas, significa um projeto de país onde talento e inovação não dependam da
exploração do sonho alheio.
O desafio de 2026 é enorme. Exige mais que
uma vitória eleitoral. Exige a coragem de disputar os corações e mentes, de
transformar o sonho solitário do “eu, CEO” na esperança coletiva de um “nós,
nação”. Se o corre continuar solitário, qualquer promessa serve. Se o sonho
virar coletivo, a democracia volta a fazer sentido.

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